Os metalúrgicos da Ford cumpriram o que prometeram: tanto os 2,8 mil demitidos por carta pouco antes do Natal quanto os mais de 3 mil empregados que permanecem empregados vestiram macacões e foram para seus postos dispostos a trabalhar, ignorando o comunicado de desligamento de 41% do efetivo. Mas a montadora também criou uma estratégia para enfrentar o movimento. Para começar, não ofereceu nenhuma resistência para a entrada dos demitidos, para que não ficasse configurada uma espécie de ocupação forçada da fábrica. Também, indiretamente, a empresa não permitiu que ninguém trabalhasse. Segundo sindicalistas, a queda-de-braço apenas começou e pode ser longa.
Os metalúrgicos estavam determinados a produzir, depois da ocupação, para mostrar à opinião pública que não reconhecem as demissões. Contudo, eles encontraram empilhadeiras sem gás, máquinas sem alimentação elétrica ou hidráulica e tanques de tinta vazios, segundo informou o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Assim, o simbolismo do protesto - mostrar que todos querem apenas exercer seu direito de trabalhar - acabou perdendo a força.
Ao meio-dia, demitidos e empregados da manufatura foram dispensados - o turno normalmente terminaria às 17 horas. A Ford considerou o dia como sendo de licença remunerada. Não houve produção, a despeito de os trabalhadores terem chegado a ativar o setor de estamparia por cerca de meia-hora.
A empresa alegou falta de condições operacionais para produzir. Primeiro porque, depois de 20 dias de paralisação, é necessário algum tempo para colocar toda a linha de montagem em funcionamento. Além disso, havia mais empregados do que máquinas, já que os dois turnos se apresentaram de manhã, situação considerada de risco pela empresa, pois poderia propiciar um ambiente sujeito a acidentes, segundo a direção da montadora.
Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, a Ford não conseguiu esvaziar a nova estratégia, de trabalhar a qualquer custo, já que ficou patente essa disposição nos empregados, assim como o não-reconhecimento das demissões e a solidariedade entre empregados e desempregados.
O diretor do sindicato, João Ferreira Passos, liderou a segunda assembléia do dia na portaria da empresa, na qual os trabalhadores decidiram que se apresentarão de novo para trabalhar hoje, mesmo que tenham de enfrentar a polícia. Para ele, a Ford se preparou para uma ‘‘guerra’’ e assim sendo deve em algum momento fazer um ataque mais severo contra a decisão dos demitidos de continuar a entrar na empresa. ‘‘Se a Ford quer guerra, ela vai ter guerra’’, disse.
O clima da primeira assembléia do dia, por volta de 7 horas, foi marcado pelo realismo dos dirigentes sindicais. O presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, previu uma luta longa e afirmou que ninguém ali deveria se iludir em relação à possibilidade de conseguir se recolocar no mercado. ‘‘Lá fora não existe emprego’’, disse, para uma platéia de mais de 4 mil pessoas.
Marinho seguiu a mesma linha: a necessidade de preservar os postos de trabalho na Ford, pela impossibilidade de conseguir vaga em alguma outra empresa do setor.

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