Se por um lado o setor de carnes avícolas, suínas e bovinas batem recordes de produção no Estado, por outro a Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação do Paraná (FTIA-PR) luta para conquistar melhores condições de trabalho em abates e frigoríficos. Ontem, os sindicalistas realizaram ato em Rolândia (Norte do Estado) com o intuito de informar os trabalhadores sobre o anteprojeto de uma Norma Regulamentadora (NR) para os frigoríficos, que está em discussão em Brasília e pode representar benefícios para quem atua no setor. O anteprojeto fica em fase de consulta pública até 16 de outubro, ou seja, todos podem opinar a respeito. De acordo com a FTIA-PR, há cerca de 200 mil pessoas atuando em frigoríficos no Estado, o que corresponde a 26% de todo o País.
De acordo com Ernani Garcia, presidente da FTIA, estão acontecendo manifestações em todo o Brasil para informar a base sobre a NR. Ontem, foram feitos atos em frigoríficos de Arapongas e Rolândia. ''De todos os trabalhadores brasileiros do setor, por volta de 23% do quadro está afastado ou aguardando alguma decisão judicial.''
O sindicalista ressaltou ainda que os recordes de produção paranaense em exportação de carne estão fazendo com que os trabalhadores do setor sofram com as longas jornadas de trabalho. ''Há cinco anos estamos na mesa de negociação para tentar mudar este quadro. Entretanto, os empresários justificam que já existem muitas leis trabalhistas a serem cumpridas. Enquanto isso, temos trabalhadores sendo mutilados, entrando em depressão e até se suicidando devido às tarefas insalubres.''
Caso a NR seja sancionada pelo Planalto, a ideia é que as jornadas de trabalho sejam atenuadas, com pausas regulares e até melhores salários para a categoria. ''É preciso pausas de 10 minutos a cada 50 minutos trabalhados. Há casos no Estado em que o trabalhador chega a fazer jornadas de 16 horas. Outro fator importante é uma melhora no nosso piso salarial, que hoje gira em torno de R$ 680'', comentou Garcia.
A FOLHA conversou com trabalhadores, que preferiram não se identificar, que comentaram que na linha de produção não é possível ''nem se mexer'' e que qualquer tipo de descanso é reprimido pelos superiores. ''A pessoa não pode nem ir ao banheiro. Outros falam que estão com dor, mas os médicos dizem que é mentira e o mandam de volta ao trabalho. Os donos preferem pagar as multas após a fiscalização do que melhorar nossas condições'', disse um funcionário.
Outro empregado afirmou que a rotatividade em alguns setores é muito alta e existem casos de pessoas que pedem desligamento poucas horas após serem contratados. ''O trabalho é cansativo e acontecem muitos acidentes'', completou. Uma mulher comentou que trabalha do meio da tarde até a madrugada e que todos os dias vai embora com dores terríveis. ''É difícil dizer aonde não dói. Gostaria de ter um trabalho mais tranquilo'', afirmou.
As próximas cidades que serão visitadas pelos sindicalistas são Jaguapitã, Cianorte, Toledo e Umuarama. A pretensão do movimento é atingir o maior número de trabalhadores em todo o Estado até o dia 17 de outubro.
Incidente
Na mobilização feita à tarde, os sindicalistas se reuniram em frente à Big Frango, em Rolândia. Entretanto, a empresa bloqueou o acesso com três caminhões evitando que os sindicalistas conseguissem estacionar seus veículos de som mais próximos ao portão. A Polícia Rodoviária Federal interferiu e conseguiu que os caminhões da empresa fossem retirados da margem da rodovia.
A reportagem da FOLHA entrou em contato com a Big Frango para falar sobre o incidente em frente à empresa, mas não conseguiu contatar nenhum dos seus diretores até o fechamento desta edição.

mockup