Paulo WolfgangBaixo impactoPor enquanto, consumidor não sofre o impacto das altas que ocorrem no preço da matéria-prima SÃO PAULO - A alta dos preços do café verde está alimentando a guerra de preços entre as torrefadoras. Levantamento do Sindicato da Indústria de Café do Estado de São Paulo (Sindicafé) mostra que a cotação da matéria-prima avançou 100% e que o preço do torrado e moído subiu 45% até o final de maio.
O preço médio no varejo em São Paulo oscila de R$ 5,80 a R$ 6,20, estável há 40 dias. Junho ameaça começar com alta de uns 10%, depois que a saca atingiu R$ 300 nesta semana. Na época do lançamento do Plano Real, em julho de 1994, a média era de R$ 7,50 a R$ 8.
‘‘O aumento do custo deveria levar todas as torrefadoras a repassarem o preço’’, diz Irving Vieira, presidente da Melitta do Brasil, segunda torrefadora do País, com cerca de 3% do mercado nacional. Alguns analistas atribuem à estratégia da torrefadora-líder, Companhia União (20% do mercado), de aumentar sua participação no mercado via preços mais baixos, compensando eventuais prejuízos em outros produtos que comercializa.
A concorrência acompanha. A assessoria de comunicação da Companhia União informou que seus executivos estavam em viagem e não poderiam comentar o assunto.
Irving Vieira avalia que empresas utilizam estoques antigos para oferecer o torrado e moído a preços mais baixos. Com o custo de uma saca de 60 kg a R$ 260,00, por exemplo, descontadas as perdas industriais, só a matéria-prima representa custo de R$ 5,42 o quilo. Mas há marcas no varejo abaixo de R$ 5,00. ‘‘Existem empresas, principalmente pequenas, vendendo sem lucro, apenas para fazer dinheiro’’, acredita Vieira.
Margem menor A concorrência via preço mais baixo pode ter um efeito perverso: a queda da qualidade, diz Américo Sato, diretor da Café do Ponto e vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café. Segundo Nathan Herszkowicz, presidente do Sindicafé, as empresas podem conseguir margem de lucro de 3% a 5%, ‘‘com escala, custos baixos e muito bem administradas’’. Em meados dos anos 80, essa margem era de 10%, diz.
Pesa também no mercado a negociação dos supermercados. Com a estabilidade da economia, o varejo resiste em elevações de preços e quer pagar em prazos de 30 a 60 dias. A tática de algumas empresas de baixar o preço vira argumento quando as redes de varejo negociam com outros fornecedores. A disputa é especialmente intensa pelo consumidor num mesmo segmento, ‘‘o café popular’’.
Por isso o Sindicafé investe no Festival de Inverno de Café, que será realizado em julho em Campos do Jordão (SP). Vai se concentrar em promover o segmento de alta qualidade, os chamados produtos ‘‘especiais’’. Além de procurar expandir esse segmento, Herszkowicz considera que o governo federal também pode contribuir para o mercado, oferecendo produto de melhor qualidade nos leilões mensais do Ministério da Indústria e do Comércio.

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