O tornado que atingiu o município de Piraí do Sul, no último dia 8 de agosto, chamou a atenção para a capacidade de resposta daquela região frente a eventos climáticos extremos. Segundo avaliação do Progov (Programa de Avaliação de Contas Municipais de Governo), do TCE-PR (Tribunal de Contas do Estado do Paraná), apenas seis dos 19 municípios dos Campos Gerais apresentam uma estrutura considerada adequada para enfrentar desastres desse tipo, ou seja, 68% das cidades analisadas estão em situação de vulnerabilidade.

A análise da estrutura da Defesa Civil dos 19 municípios cruzou os quatro indicadores originalmente solicitados – servidores efetivos, sistema de alerta, avaliação do plano de contingência e existência do plano – com os quatro indicadores adicionais solicitados: gerador elétrico, veículo para áreas remotas, telefone exclusivo e sala própria equipada.

Para a avaliação das políticas públicas ambientais, cada município recebeu um questionário com mais de 200 perguntas que deveriam ser respondidas com “sim” ou “não”, sendo 29 questões específicas sobre a estrutura da Defesa Civil. A partir do cruzamento dos dados, o Tribunal dividiu as prefeituras dos Campos Gerais em três níveis de prontidão: estruturados, com 60% ou mais de itens atendidos; parciais, com atendimento entre 35% e 59%, e críticos, abaixo de 35%. É importante ressaltar que esse retrato é feito com base na realidade de 2025 e como a análise do Progov pode resultar na emissão de parecer prévio pela irregularidade ou com ressalvas nas contas dos prefeitos, neste ano, muitos gestores começaram a investir na estruturação.

A tabela elaborada pelo TCE-PR mostrou uma situação preocupante na prevenção e na capacidade de atendimento às vítimas de desastres. Enquanto um pequeno núcleo demonstrava relativo preparo, a grande maioria das cidades não estava prevenida para atender às ocorrências de emergência climática, pecando justamente nos pontos mais críticos, que são alertas antecipados, mobilidade em áreas rurais e sistemas de energia de reserva.

Entre os 19 municípios dos Campos Gerais, receberam a classificação de estruturados Carambeí, Palmeira, Porto Amazonas, Reserva, Arapoti e Telêmaco Borba. Cabe salientar que em nenhum dos seis o índice de preparo chegou a 100%. A melhor estrutura foi observada em Carambeí, com 76% dos requisitos atendidos.

Outros sete municípios foram classificados como parcial. Nessa lista estão incluídos Tibagi, Ivaí, Ponta Grossa, Ortigueira, Castro, Sengés e Piraí do Sul, que no tornado do último final de semana teve 45 imóveis danificados e contabilizou 35 pessoas desalojadas. Segundo a avaliação do TCE-PR, o município atendia a 48% dos requisitos até o ano passado.

Em situação crítica foram considerados os municípios de Ventania, Curiúva, Jaguariaíva, São João do Triunfo, Ipiranga e Imbaú. Ventania teve 31% dos itens atendidos, o maior percentual desse grupo, e Imbaú respondeu “não” a todos os questionamentos do Tribunal relacionados à Defesa Civil e zerou a pontuação.

Entre os gargalos operacionais identificados nos Campos Gerais, estão a falta de gerador elétrico próprio, presente em apenas dois municípios, simulados de alerta, realizados somente por quatro cidades, e o plano de recuperação pós-desastre, documento formalizado apenas em duas das 19 cidades.

A realidade enfrentada em Piraí do Sul durante o atendimento às vítimas do tornado de sábado refletiu as lacunas apontadas na análise do Progov. Em 2025, o município afirmou não possuir sistema próprio de alerta prévio, estação meteorológica, veículos adequados para acesso a áreas remotas e geradores elétricos de emergência. Carências que coincidiram com as principais dificuldades operacionais relatadas pelas equipes de resgate e assistência às vítimas no último final de semana.

Na terça-feira (11), o prefeito de Piraí do Sul, Henrique Carneiro (PL), decretou situação de emergência no município com o objetivo de acelerar a recuperação das áreas afetadas pelo tornado. Os ventos ultrapassaram os 250 quilômetros por hora. Somente nas atividades de agricultura e pecuária, o prejuízo estimado pela Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento foi de R$ 10 milhões.

“A Defesa Civil é um braço da adaptação climática de um município. Então, diante de todos esses cenários de mudanças climáticas, o município ter uma Defesa Civil estruturada vai refletir na capacidade de adaptação dele, que é uma das diretrizes dos planos de adaptação climática”, disse a auditora de Controle Externo do TCE-PR, Alcione Bertol.

A FOLHA procurou a Prefeitura de Piraí do Sul, mas até o fechamento desta edição, não obteve resposta.

Em Imbaú, a assessoria de comunicação da prefeitura informou que até 2025 havia apenas a formalização da Defesa Civil, sem uma estrutura física. Mas a partir deste ano, foi criado um plano de contingência, um gabinete de crise foi montado e há uma força-tarefa atuante.

Uma dificuldade apontada pelo município é a total dependência regional. Embora tenha sido emancipada há quase 31 anos, Imbaú ainda utiliza a infraestrutura de Telêmaco Borba, a cerca de 25 quilômetros de distância. Com uma população de aproximadamente 15 mil habitantes, a cidade não possui delegacia da Polícia Civil, batalhão próprio da Polícia Militar, apenas dois efetivos, nem Corpo de Bombeiros. No município também não há hospital e a única UPA (Unidade de Pronto Atendimento) não tem gerador elétrico.

“Com o decreto do governo do Estado e uma lei municipal sancionada para compra direta, o município está adquirindo equipamentos essenciais sem o entrave da burocracia”, afirmou a assessoria de comunicação da prefeitura. Alguns já foram comprados, mas a maioria ainda está em processo de aquisição e a expectativa é que estejam prontos para uso até o final do mês que vem, quando os serviços de meteorologia preveem a intensificação dos efeitos do El Niño, com o aumento da ocorrência de tempestades, vendavais e possibilidade de novos tornados.

Entre os equipamentos, estão ferramentas básicas, como motosserra, picaretas e rádios comunicadores, itens de primeiros socorros e máquinas e veículos mais caros, como um gerador de energia para a UPA, caminhões-pipa, veículos 4x4, caminhão Munck, equipado com guindaste hidráulico para cargas pesadas, e até banheiros químicos.

O município também trabalha no mapeamento de áreas de risco e na identificação de abrigos temporários. Um projeto prevê a implementação de um sistema de sirenes de alerta, protocolo para suspensão das aulas quando os ventos ultrapassarem os 60 quilômetros por hora, distribuição de seis mil cartilhas educativas em escolas e residências e treinamentos com o Corpo de Bombeiros. A prefeitura não soube estimar o valor total a ser investido, mas adiantou que serão empregados recursos próprios e do governo estadual.

As condições climáticas se tornaram uma preocupação cada vez maior para a administração de Imbaú, a quarta cidade mais alta dos Campos Gerais, inserida em um corredor de tornados. “Nos últimos meses, já registramos destelhamentos, quedas de barreiras e árvores e a formação de tornados na zona rural”, comentou a assessoria de comunicação.

Geógrafo e pesquisador da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Pedro Fontão lembrou que ter um plano de gestão de riscos é essencial não apenas para as regiões que sofrem com os tornados, mas para qualquer município, uma vez que todos estão sujeitos a sofrerem eventos climáticos extremos, com consequências como alagamentos e deslizamentos. “A população precisa saber lidar com esse tipo de evento, saber reconhecer, saber tomas as devidas precauções. A Defesa Civil tem que estar preparada, devidamente treinada e inserida nas comunidades.”

Avaliações facilitam controle social e transparência

Criado pelo TCE-PR para modernizar a fiscalização das contas públicas, o Progov vai além da análise de balanços financeiros tradicionais. Desde 2022, o Tribunal, por meio do programa de avaliação, já analisava as áreas de assistência social, saúde, educação, administração financeira, previdência social e transparência e relacionamento com o cidadão. Em 2025, foram incorporadas as áreas de meio ambiente e aquisições.

Cerca de 32 mil agentes públicos respondem aos questionários do TCE-PR informando sobre as políticas públicas praticadas em diferentes áreas, como educação, saúde e assistência social. Somente na área ambiental são cerca de dois mil servidores municipais e uma centena de critérios avaliados.

A avaliação da eficácia de políticas públicas nas prestações de contas anuais dos prefeitos foi uma inovação introduzida no TCE-PR pelo Progov. Com a mudança, o parecer do Tribunal sobre as contas dos prefeitos vai além do balanço financeiro e orçamentário, passando a avaliar diretamente a qualidade e a eficácia dos serviços entregues à população.

A medida visa orientar a gestão pública e reforçar a fiscalização pelo cidadão. Desde a análise do ciclo de 2023, prefeituras que registrarem queda no desenvolvimento de suas políticas públicas correm o risco de ter as contas julgadas irregulares ou aprovadas com ressalvas. Os dados são públicos e podem ser consultados dentro do portal do TCE-PR (www.tce.pr.gov.br), clicando no item “Progov”, inserido em “Destaques”.

Mais de 200 cidades no PR não estão preparadas para desastres climáticos

Em julho deste ano, resultado preliminar do levantamento realizado pelo Progov junto às prefeituras apontou que mais da metade dos 399 municípios paranaenses não possuem estrutura física para enfrentar desastres climáticos.

Entre os dados obtidos a partir de questionários respondidos por todas as 399 prefeituras paranaenses, o Tribunal apurou que 68,17% das cidades não possuem servidores dedicados exclusivamente às atividades de Defesa Civil. Além disso, 60,9% não dispõem de estrutura física de trabalho para o órgão, como sala equipada com mesas, cadeiras e computador de uso exclusivo com acesso à internet, e em 50,68% dos municípios, não há veículo capaz de acessar áreas remotas.

O levantamento apontou ainda que 55,64% das cidades do Estado não têm um contato telefônico exclusivo para atendimento ao cidadão e 70,93% não contam com sistema próprio de alerta de riscos para alcançar toda a população, como carros de som, megafones, rádios, grupos de WhatsApp ou similares. Os dados referem-se ao ano de 2025.

No ano passado, segundo os dados coletados do Cedec (Sistema Informatizado de Defesa Civil, da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil), ocorreram 574 desastres no Paraná, os quais afetaram 246 municípios – mais da metade do total – atingindo 292.237 pessoas e resultando em 27 mortes.

Segundo a auditora de Controle Externo do TCE-PR, Alcione Bertol, os dados referentes a 2025, primeiro ano de avaliação das políticas ambientais, não sujeitam os municípios a nenhum tipo de sanção e servem como padrão de comparabilidade para os próximos anos. Mas a Corte exige que os municípios evoluam de um ano para outro com base em valores definidos em uma Instrução Normativa. “Tem que aumentar essa nota. Tem que fazer ações para que possa melhorar essa situação porque senão tem uma consequência.”

O ‘Corredor de Tornados’ no Sul do Brasil

Uma grande região que abrange o Noroeste do Rio Grande do Sul, o Oeste de Santa Catarina, os Campos Gerais e Oeste do Paraná e o Oeste de São Paulo, se estendendo também à Bacia do Rio da Prata, que além de parte do Brasil inclui Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, é chamada de “Corredor de Tornados” e integra a segunda área com maior incidência desses fenômenos climáticos no mundo, atrás apenas do centro-sul dos Estados Unidos.

Especificamente no Paraná, algumas características favorecem a formação desses fenômenos climáticos. Relevos planos em regiões de maior altitude e o desmatamento propiciam as ocorrências, explicou o geógrafo e pesquisador da UFPR, Pedro Fontão. As mudanças climáticas são um terceiro fator de contribuição, agravadas pelo desmatamento de parte da reserva de Mata Atlântica nos Campos Gerais e a substituição de florestas densas por grandes áreas agrícolas, eliminando a vegetação que servia como uma barreira natural ao vento. Neste ano, a forte influência do El Niño, fenômeno caracterizado pelo superaquecimento das águas do Oceano Pacífico, é considerada mais um fator de risco porque potencializa tempestades e chuvas intensas.

Somente em 2026, o Estado já registrou dez tornados, confirmados pelo Simepar, órgão estadual de monitoramento ambiental. Além do registro do último sábado, em Piraí do Sul, foram confirmados em Reserva, Nova Cantu, Turvo, Inácio Martins, Laranjeiras do Sul, Cruz Machado, Mercedes, Foz do Iguaçu e São José dos Pinhais. Antes disso, em novembro de 2025, o Paraná já havia registrado o tornado mais forte de sua história recente, em Rio Bonito do Iguaçu, com ventos que chegaram a 418 quilômetros por hora, atingindo a categoria F4 na Escala Fujita. Cerca de 90% da área urbana do município de 14 mil habitantes foram devastadas, seis pessoas morreram e mais de 700 ficaram feridas.

Mas Fontão ressaltou que o aumento nos registros não garante, necessariamente, que os tornados estejam ocorrendo em maior frequência agora do que no passado. Além do crescimento populacional e da maior ocupação de regiões antes inabitadas, hoje há mais ferramentas disponíveis para averiguar as ocorrências, tanto em órgãos de monitoramento ambiental, com os radares tecnológicos, quanto nas mãos da população em geral, que registra tudo pelo celular.

“Tornados são fenômenos locais, repentinos e de curtíssima duração, sendo quase impossível prever a hora e o município exatos onde ocorrerão. O que é possível prever é a formação das condições meteorológicas que propiciam a ocorrência dos tornados”, disse Fontão. Segundo ele, danos diretos em áreas urbanas, como em Rio Bonito do Iguaçu, são raros, sendo mais frequentes os registros em áreas rurais.

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