Martin Wolf
Do Financial Times
O tombo dos mercados de ações, há exatamente uma semana, foi uma notícia esplêndida. Isso não é o que os alemães chamam de ‘‘schadenfreude’’, a alegria com a desgraça alheia.
O desabamento das ações gera pelo menos três benefícios. Primeiro, ele lembra a todos que é arriscado investir em ações. Segundo, demonstra que até mesmo a ‘‘nova economia’’ pode se aquecer demais. Terceiro, ajuda a esfriar a demanda norte-americana.
Em seu mais recente livro – ‘‘Irrational Exuberance’’ (‘‘Exuberância Irracional’’, em tradução livre para o português) – , Robert Shiller, lembra que, entre 1994 e 14 de janeiro de 2000, o índice Dow Jones triplicou. ‘‘No entanto, as rendas pessoais e o Produto Interno Bruto dos EUA tiveram alta de menos de 30%’’, diz Shiller.
Muitas pessoas vinham investindo com a crença de que as ações eram mais seguras e rentáveis do que os bônus do Tesouro. Essa ilusão pode ter sido desfeita agora.
Retornos extraordinários e completa segurança não são encontrados em um mesmo investimento.
O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) parece ter sentido – erroneamente, em minha opinião – que era preciso obter evidências de inflação. Elas parecem surgir.
Entre o final de 94 e o começo deste ano, o aumento no patrimônio agregado das Bolsas, em dólares atuais, foi de US$ 10 trilhões.
Isso supera em 5% o PIB dos Estados Unidos. As estimativas sugerem que o consumo cresce entre 3% e 7% para cada dólar acrescentado ao patrimônio de um investidor. Uma estimativa plausível para o impacto do aumento de riqueza, portanto, é a de um aumento de consumo igual a 5% do PIB.
O vigor dos mercados de ações também elevou os investimentos privados. Com o consumo crescente e a alta nos investimentos, o setor privado norte-americano acabou chegando a um déficit financeiro recorde, de cerca de 4,5% do PIB.
O déficit em conta corrente dos Estados Unidos é, excetuando o pequeno superávit do setor público, a contraparte externa do déficit do setor privado.
Embora a política monetária possa conter o crescimento da demanda nominal, também tenderá a reforçar a taxa de câmbio.
O ajuste externo seria, assim, retardado e distorcido por um ataque desconfortável aos exportadores domésticos e aos produtores que concorrem com importados.
Outro instrumento político é necessário. A recomendação clássica é uma política fiscal mais dura. Mas um declínio conduzido pelas Bolsas no déficit financeiro do setor privado faria o trabalho com igual eficiência.
O que aconteceu nas Bolsas até agora, espera-se, foi apenas o começo. De seu pico no começo do mês até a noite da segunda-feira, a estimativa da Datastream para a capitalização total das Bolsas caiu em US$ 1,36 trilhão, o que equivale a menos de 10% do valor de pico.
Nada disso está minimamente garantido. Eu, por exemplo, acreditarei que a alta acabou quando a vir com uma estaca enterrada no coração. Essa é a hora certa para as Bolsas finalmente caírem.

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