Tomar água, só com senha
A telefonista S.N. abandonou o emprego num grande supermercado de Londrina por excesso de trabalho. Com uma carga diária que variava de 12 a 14 horas, ela conta que adquiriu enxaqueca e uma dor de ouvido insuportável em seis meses. Por lei, a carga horária de telefonista é de seis horas. Não dava mais para trabalhar. Estava gastando todo o meu salário, de R$ 250, em remédios. Fiquei esgotada.
Outra reclamação de S.N. é de que as telefonistas têm que limpar a sala de trabalho neste supermercado. Uma vez por semana eu lavava o local com sabão em pó. Ela já chegou a trabalhar, aos sábados, das 9 horas às 23 horas, com intervalo de apenas 15 minutos para o almoço. Para evitar reclamações trabalhistas, S.N. disse que o supermercado a registrou como recepcionista que tem carga horária maior. Pensei em entrar na Justiça mas tenho medo de retaliações e de não conseguir um novo emprego, diz. Neste supermercado, os pacoteiros têm senha para tomar água e ir ao banheiro e as meninas que trabalham nos caixas não podem sentar, sob a alegação de que é feio atender clientes nesta posição.
Um dos pacoteiros entrevistados pela Folha no supermercado confirmou a informação de S.N.. Sem querer revelar seu nome, ele disse que vai ao banheiro na hora de folga para lanche e somente uma vez no período noturno. A ida ao bebedouro também é controlada. Quando alguém vai ao banheiro com frequência ou toma muita água, o chefe chama a atenção, denuncia. Este tipo de controle também acontece em lojas do centro da cidade. Em alguns estabelecimentos, o nome do funcionário é anotado toda vez que ele vai ao banheiro.
Num outro grande supermercado de Londrina, as funcionárias dos caixas também não podem sentar. Eu trabalho oito ou dez horas por dia em pé. Estou com as pernas cheia de varizes, reclamou uma delas, sem querer se identificar. Um funcionário disse à Folha que é comum trabalhar 14 horas por dia, sem receber hora-extra. Bato o cartão às 17 horas e volto a trabalhar, revelou. Não somos obrigados a aceitar, mas quem se rebela se queima com a chefia.
A costureira S.D. também sente-se explorada por uma indústria de confecções da cidade. Com a implantação do programa de qualidade 5S tivemos que passar a varrer a seção de hora em hora. Além disso, aos sábados temos que limpar outros setores da fábrica, inclusive lavando os banheiros. Para sair da fábrica, somos obrigados a passar por uma máquina igual às usadas nos aeroportos. Se apitar, somos levadas para uma sala e revistadas. (Cláudia Lopes)





