Folha - O slogan da Universidade de São Paulo (USP), ‘‘Hei de Vencer pela Ciência’’ pode valer para alavancar o desenvolvimento econômico do interior do Paraná?
Testa - Sem dúvida alguma. A ciência exerceu grande influência neste século. O ex-presidente americano Winston Churchill, disse após a Segunda Grande Guerra, que o século 21 seria o da ciência e do domínio tecnológico. O Estado de São Paulo nos dá um exemplo claro. Os investimentos na educação, na saúde e na tecnologia geram um processo de desenvolvimento econômico e social. Os países derrotados na Segunda Guerra também adotaram este tripé de desenvolvimento. Veja que isto é importante na medida que um país que nem sempre detém fatores de produção como capital, tecnologia e área agrícola, consegue bom desenvolvimento. O ponto chave do desenvolvimento está no homem. O Brasil é pródigo em suas riquezas naturais. Agora estamos importando capital, que são os financiamentos externos. Pode-se queimar etapas neste processo de desenvolvimento. Mas não se consegue isso quando se trata do homem. A formação é lenta, dura gerações e por isto o investimento tem de ocorrer na área da educação e na pesquisa. É preciso um prazo de maturação.
Folha - O senhor não acha que poderia ser estratégico definir o perfil econômico de cada região do Estado e direcionar suas universidades para estes nichos? Londrina, por exemplo, poderia explorar o setor da saúde; Maringá setor de abribusiness, e assim por diante.
Testa - As universidades estaduais do Paraná estão muito bem localizadas nos pólos de desenvolvimento do Estado. Londrina tem a UEL, Maringá a UEM, em Guarapuava a Unicentro, em Cascavel a Unioeste, em Ponta Grossa a UEPG. Note que existe uma distribuição muito importante. Com uma interação regional, certamente estas universidades poderão voltar todo o seu potencial no sentido de se inserir nestas regiões, alavancando o progresso e o desenvolvimento.
Folha - A Universidade de Londrina tem procurado expandir sua interação com os setores produtivos. O curso de estilismo em moda, criado há dois anos, atende demanda regional de centenas de fábricas de confecções. É possível a criação de outros cursos seguindo esta tendência?
Testa - É possível. Nossa instituição, de quatro anos para cá, mudou seu perfil. Logicamente que muitos cursos existentes atendem a um perfil de 20 anos atrás e já deram sua parcela de contribuição. Mas há um novo perfil que atualmente nos é exigido. A UEL, se aperfeiçoando, criou novos cursos. Isto dá sustentação ao desenvolvimento local, pois estamos formando pessoas capacitadas. Gerando pesquisa e conhecimento em áreas novas, isto significa alavancar e dar sustentação a setores da economia. Criamos recentemente também o curso de espanhol, com vistas ao Mercosul. Também criamos o curso de arquivologia, junção das áreas de história com biblioteconomia e por último o curso de artes cênicas, por termos grande potencial nesta área.
Folha - Os especialistas afirmam que as grandes fontes de emprego são as áreas de prestação de serviços e telecomunicações. A UEL poderia expandir seus cursos de graduação nestas áreas?
Testa - Podemos estudar, sem dúvida alguma. A UEL deu uma contribuição ao desenvolvimento local muito grande. Até a década de 60, a base econômica de Londrina era o setor agropecuário. Depois nos anos 70 a cidade experimentou crescimento na prestação de serviços. A razão disso se deu também pela implantação da Universidade. Quando isto ocorreu, na área médica a cidade teve um avanço muito grande. Professores saíram de São Paulo e vieram para cá, da USP inclusive, e formaram uma grande massa crítica, altamente qualificada. Isto permitiu que a cidade se firmasse como grande pólo da área de saúde. Inclui-se aí a odontologia, fisioterapia, etc. O mesmo ocorreu com a área da construção civil. Os empresários do setor são praticamente todos ex-alunos da UEL. Coincidentemente, a universidade surge exatamente no momento em que Londrina passa a ter expansão de sua área de serviços. É lógico que novos cursos poderão ser criados, mas nós temos nossas limitações financeiras. Talvez não consigamos atingir a velocidade da demanda.
Folha - Em São Paulo, no final dos anos 80, o interior do Estado foi apontado como uma grande força. Isto ocorre hoje no Paraná? Dá para comparar as universidades paulistas com as paranaenses?
Testa - Acho que sim. O Paraná vive uma fase especial, uma política agressiva para industrializar o Estado. O governo conseguiu imprimir uma política neste setor, que vai exigir das universidades o acompanhamento disso. É preciso se aperfeiçoar a novas demandas que estão surgindo no interior do Estado. Estas exigências, em contrapartida, vão também forçar investimentos nas instituições de ensino.
Folha - O que muda no fato da UEL estar entre as três melhores do País quando o governo discute a reestruturação do ensino público superior no Estado?
Testa - Fizemos uma proposta e agora vamos iniciar uma discussão sobre um modelo de autonomia. Há vários pontos a serem discutidos. Os aposentados, o aumento vegetativo da folha de pagamento. Tudo isto ainda precisa ser discutido. Precisamos saber primeiro qual será a proposta definitiva da autonomia das universidades públicas do Paraná. O bom desempenho da UEL ajuda porque mostra que os recursos investidos trouxeram a eficiência. Isto mostra que as instituições aplicam bem os recursos públicos.Pedro Livoratti
O exemplo mundial mostra que os investimentos em pesquisa e tecnologia rendem independência e podem levar uma nação à soberania em pouco tempo. O reitor da Universidade Estadual de Londrina, Jackson Proença Testa, não tem dúvida de que o caminho do conhecimento é o que conduz um país ao desenvolvimento. Testa terminou a semana em ritmo de comemoração, após uma verdadeira maratona de entrevistas e congratulações pelo desempenho da instituição no estudo do Ministério da Educação e Cultura. Segundo o ranking do MEC, a UEL - uma universidade com orçamento previsto para este ano de R$ 150,97 milhões e cerca de 12,5 mil alunos - é a terceira melhor instituição de ensino do País. Acima dela, somente as tradicionais Universidade de São Paulo (USP) e Universidade de Brasília (UnB).
Segundo Testa, a mudança do perfil econômico do Paraná forçará modificações rápidas também nas instituições de ensino, que terão que se adequar aos novos tempos. Para o reitor da UEL, a qualidade de ensino reflete diretamente no desenvolvimento da região. Ele defende investimento estratégico, atendendo prioridades como educação, saúde e geração de tecnologia através de pesquisa.
Economista, 50 anos, Jackson Testa é também presidente da Associação Paranaense das Instituições de Ensino Superior (Apiesp). Ele sentará à mesa com membros do governo para formular um modelo de autonomia universitária para as instituições paranaenses. O reitor recebeu a reportagem da Folha em seu gabinete, no final da tarde da última sexta-feira. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Proença Testa:
‘Ponto chave do
desenvolvimento
está no homem’

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