Mauá da Serra e Marilândia do Sul entraram no mapa da cevada cervejeira. Desde 2022, os dois municípios ao sul de Londrina estão expandindo a área plantada do cereal, uma transformação estimulada pela parceria com cooperativas.

A novidade é um reflexo dos investimentos bilionários na produção de malte na metade sul do Estado.

O malte é uma das matérias-primas usadas na receita para a fabricação da cerveja. O Paraná é o líder nacional em volume de produção e abriga a maior maltaria independente da América Latina.

A chegada da cevada cervejeira é oportuna num cenário de desânimo na triticultura, afligida pelo alto custo de produção, pela instabilidade climática e pela concorrência desigual com o produto importado, e também pelas margens apertadas do milho safrinha.

Na rotação com a soja, a cevada surge com força em terras agricultáveis com altitude mínima de 750 metros mesmo fora das regiões tradicionais da cultura, Centro-Sul e Campos Gerais.

Para suprir a demanda das novas unidades de malteação, os agricultores que alternam plantios de grãos em municípios como Apucarana, Rolândia, Ibaiti, São Jerônimo da Serra, Ortigueira, Wenceslau Braz e Siqueira Campos, só para citar alguns exemplos, são considerados potenciais fornecedores de matéria-prima para as maltarias.

Por enquanto, a fronteira da cevada cervejeira no Norte está restrita a 48 produtores que foram seduzidos pela parceria da Integrada Cooperativa Agroindustrial, com sede em Londrina, e a Cooperativa Agrária Agroindustrial, que uniram interesses, conhecimentos e estruturas para começar um experimento em 2022. No inverno daquele ano, um único produtor de Marilândia do Sul se arriscou, com uma lavoura de apenas cinco hectares. Os resultados foram positivos e novas propriedades foram incorporadas no projeto a cada safra. No inverno deste ano a lavoura já se alastra por 5 mil hectares, mas há quem diga na região que a área pode até dobrar nos primeiros anos da próxima década.

Enquanto a Agrária garante a compra da produção e oferece a expertise técnica da cultura - define as cultivares adequadas e fornece as orientações de manejo - a Integrada atua na ponta junto aos agricultores, gere a logística de recebimento e a secagem dos grãos na unidade de Mauá da Serra, além de monitorar a aplicação das rigorosas recomendações para alcançar a qualidade da produção exigida pela indústria.

“Na nossa visão, a cevada veio para ficar na região. Temos sim planos de expansão em áreas altas próximas de Londrina. A parceria é vista com bons olhos pelos dois lados e a tendência é ela ser ampliada”, afirma o superintendente de insumos e técnica da Integrada, Edson Oliveira. A FOLHA tentou, sem sucesso, ouvir a diretoria da Agrária sobre a parceria.

98% de grãos aptos

Oliveira lembra que em Mauá da Serra e Marilândia do Sul, regiões nas quais os agricultores se habituaram a plantar trigo (e aveia nas áreas mais altas) no inverno, a Integrada foi movida pela disposição em diversificar a rotação. “A gente enxerga como uma oportunidade muito boa para o produtor ter uma renda melhor, mas não é só isso. É bom que nesta região o trigo, a cevada e a aveia sejam opções viáveis para que a rotação de fato aconteça”, defende Oliveira.

Por enquanto, os produtores na região de Mauá da Serra estão conseguindo vencer o desafio da qualidade, crucial para a consolidação da cevada cervejeira na região. Arthur Ribeiro da Silva, gerente da unidade local da cooperativa, calcula que nas três safras anteriores, menos de 2% da produção foi destinada à ração animal, conhecida como cevada forrageira. “Quando o grão não atinge o padrão industrial, especialmente o padrão de peneira, ele perde valor porque deixa de seguir o mercado internacional e passa a ser balizado pelo valor do milho. Esta diferença pode chegar até a 50% na remuneração, uma motivação para que o rigor no manejo seja amplamente adotado”.

Área recorde

Na semana passada, o boletim do Deral (Departamento de Economia Rural), da Seab (Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento) destacou que o plantio da cevada já atingiu 44% da área estimada. O clima está favorável e a projeção de área recorde para 2026 está consolidada. Serão 126 mil hectares, 22 mil a mais que na safra passada. A estimativa de produção é de 550 mil toneladas, com a ressalva de que uma primavera muito chuvosa pode afetar a qualidade dos grãos.

De acordo com o Deral, as maltarias fomentam este crescimento e se houver a repetição da boa produtividade da safra passada no Paraná, o volume de importação deve ser reduzido. Nos últimos anos, a indústria brasileira de cerveja compra de outros países aproximadamente metade do malte que consome.

À FOLHA, o engenheiro agrônomo e analista do Deral, Carlos Hugo Godinho, disse que o Sudoeste teria até mais condições de ser um novo polo de cevada cervejeira que o Norte. No entanto, apesar de ser consideravelmente mais fria, a região está distante das duas grandes maltarias instaladas no Estado.

É a logística, portanto, que faz áreas ao Sul de Londrina serem competitivas para a cevada cervejeira. O ponto de inflexão que criou o novo polo em Mauá e Marilândia do Sul foi a inauguração em 2024 da Maltaria Campos Gerais, em Ponta Grossa, fruto de uma parceria estratégica entre seis cooperativas - além da Agrária, a Bom Jesus (Lapa), a Copal (Arapoti), a Castrolanda (Castro), a Coopagrícola (Ponta Grossa) e a Frísia (Carambei) - e de um investimento de R$1,6 bilhão. Com capacidade inicial para produzir 240 mil toneladas de malte por ano, a nova unidade mudou o mapa da cevada cervejeira que, por décadas, era uma mancha isolada de plantio na região de Guarapuava.

Um gigante que vai crescer

A maltaria de Guarapuava foi concebida nos anos 1980 por uma parceria entre a Cervejaria Antártica e a Agrária, que há 40 anos assumiu o controle total da unidade. Desde então, Guarapuava se consolidou como a Capital Nacional da Cevada e do Malte. De acordo com a Agência BNDES, a Agrária Malte, fornecedora de 30% do malte consumido pelas cervejarias brasileiras, vai ficar ainda mais robusta até o fim da década.

O aumento da área plantada de cevada no Paraná é reflexo dos investimentos de empresas fabricantes de cerveja
O aumento da área plantada de cevada no Paraná é reflexo dos investimentos de empresas fabricantes de cerveja | Foto: industryview/getty images

A cooperativa vai receber recursos do Prodecoop (Programa de Desenvolvimento Cooperativo para Agregação de Valor à Produção Agropecuária) e do PCA (Programa para a Construção e Ampliação de Armazéns) para um projeto de cerca de R$50 milhões. O investimento deve ampliar a capacidade de armazenagem e de produção da unidade em mais 80 mil toneladas, alcançando 440 mil toneladas até 2028, o que deve exigir ainda mais o plantio da cevada cervejeira no Estado.

No ano passado, a Agrária já havia anunciado outro incremento na sua atuação, com o projeto em parceria com a empresa alemã IREKS, orçado em R$1,1 bilhão, para a fabricação de maltes caramelizados e torrados, produtos ainda inéditos no âmbito das maltarias brasileiras.

“A cultura da cevada depende economicamente de contratos. É um aspecto vantajoso mas que exige planejamento e parâmetros muito específicos de qualidade para que a produção seja aproveitada pela indústria. Nada impede que novas áreas sejam abertas nas áreas mais frias do Norte, mas vai depender da política de compra das maltarias, que ainda importam muito esta matéria-prima. A demanda comporta uma expansão grande em novas áreas, mas depende da qualidade na entrega e da competitividade com a cevada importada”, pondera Godinho.

Contra o calor, a ciência

Um estudioso das culturas de inverno, o engenheiro agrônomo André Sampaio Ferreira, professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e doutor em Fitotecnia, explica que o malte é um insumo obtido a partir do grão de cevada, rico em amido. “Se o grão fosse usado diretamente na produção de cerveja, o amido não conseguiria ser consumido na fermentação. Para tornar esse amido aproveitável, os grãos são umedecidos para iniciar o processo de germinação, como se uma nova planta fosse nascer. Quando a raiz começa a sair, o processo é interrompido através da secagem do grão”, explica.

O início da germinação faz a semente sintetizar enzimas que começam a quebrar o amido em açúcares menores. As enzimas deste grão (após ser pré-germinado e secado passa a se chamar malte) vão fracionar o restante do amido e disponibilizar os açúcares necessários para a fermentação. “Ou seja, o malte é uma cevada que passou pelo processo de pré-germinação para permitir que o fermento consuma os açúcares do grão”, resume.

Ele esclarece que o clima quente é um obstáculo à cevada cervejeira por alguns motivos. O principal é a ocorrência de doenças como a mancha reticular, a ferrugem e o oídio, que atacam as folhas das plantas. O calor também faz aumentar o teor de proteína do grão. “Isso gera um problema na fabricação do malte. A proteína no malte provoca instabilidade na espuma da cerveja e atrapalha a fermentação”.

O professor acredita que a médio e longo prazo existe uma possibilidade de que cultivares com melhoramentos genéticos sejam capazes de se adaptar melhor ao clima mais quente, uma trajetória semelhante com o tropicalização do trigo, projeto que a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) realiza com o trigo irrigado no Cerrado.

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