Terra atrai investidores mesmo com a crise
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Fabíola Salvador e Alexandre Inácio<br>Agência Estado 
Brasília e São Paulo As incertezas sobre os rumos da economia real impuseram uma nova realidade ao campo brasileiro, considerado um porto seguro em meio à turbulência dos mercados financeiros mundiais. Corretores de imóveis especializados em negócios rurais afirmam que investidores estrangeiros e grandes grupos nacionais mantêm o apetite por terras agrícolas, ativo considerado seguro num momento em que os rumos da economia mundial e nacional são desconhecidos.
Num cenário de instabilidade como o atual, dinheiro na mão fica quente, disse Herton Luiz de Faria, corretor de imóveis da região de Cristalina, município que fica nos arredores de Brasília. No ano passado, as negociações estrangeiras foram extremamente ativas até antes da crise.
Segundo o diretor da Célleres Consultoria, Anderson Galvão, o interesse diminuiu bastante com a chegada da crise, mas os investidores aos poucos dão sinais de retomada do interesse. Ocorreram casos de o contrato de venda estar pronto, a forma de pagamento definida e faltar apenas a assinatura, mas veio a crise e a venda não se concretizou. Passado o momento mais crítico, hoje os fundos de investimentos voltaram a olhar para as terras no Brasil, porém com muito mais cautela, afirma Galvão.
Segundo o consultor, o olhar dos investidores está direcionado para a região chamada de Mapito, formada pelos Estados de Maranhão, Piauí e Tocantins. A estratégia desses fundos é de longo prazo, com foco na expectativa de valorização das terras, mas também atrás de eficiência agrícola. Terras agrícolas de qualidade é um recurso escasso. A ideia dos fundos é comprar essas terras e explorá-las do ponto de vista agrícola enquanto haja disponibilidade, afirma Galvão.
Em São Paulo, Estado que possui a segunda maior área em posse de estrangeiros no Brasil, atrás apenas de Mato Grosso, a explosão da cana-de-açúcar há três anos e o sentimento internacional de que a agroenergia seria o substituto natural do petróleo no curto prazo atraíram a atenção de investidores estrangeiros.
Terras para o plantio de cana e usinas foram adquiridas com expectativa de retorno. A alta liquidez, recursos baratos disponíveis e o preço elevado das commodities atraiu muita gente para São Paulo, afirma João Sampaio, secretário de Agricultura de São Paulo.
Georeferenciamento
Diante do cenário de crise, analistas não consideram que haverá uma desvalorização das terras, já que o ativo é considerado seguro do ponto de vista dos investimentos. O apetite dos estrangeiros, no entanto, tende a diminuir e direcionar melhor os recursos. Antes da crise se comprava terra porque o mundo sabia que a demanda era crescente e haveria uma disputa por áreas entre alimentos e energia. Agora, os investimentos vão ocorrer de acordo com a capacidade de produção das terras, afirma a Fonte.
Tomczyk contou que a falta de georeferenciamento das propriedades dificulta a venda. Muitas terras são irregulares do ponto de vista fundiário. Para eles, um fantasma antigo que assombra o meio rural leva o produtor a colocar uma placa de venda nas propriedades: o endividamento. Um ano o produtor perde (a safra) por causa da ferrugem, outro por causa da seca. No seguinte, é a chuva. As lavouras são plantadas sem seguro rural e, consequentemente, o nível de endividamento explode, disse Maróstica.
Na avaliação do superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agrícola (Imea), Seneri Paludo, a expectativa de queda na renda agrícola em 2009 pode expulsar um número maior de produtores das áreas rurais. Veremos o mesmo fenômeno que acontece hoje nas regiões urbanas: a expulsão dos médios produtores do campo, avaliou o representante do Imea.
O instituto fará um levantamento sobre o mercado de terras no Mato Grosso. Uma estimativa divulgada pelo Ministério da Agricultura no início deste mês indica queda de 8,4% na renda agrícola em 2009
para R$ 149,6 bilhões.
Segundo o
coordenador-geral de Planejamento Estratégico do ministério, José Garcia Gasques, o recuo é justificado pela queda na safra de grãos e pelo recuo dos preços das commodities agrícolas no mercado internacional. Os maiores prejuízos, avaliou, foram para o milho e a soja, base da economia agrícola do
Centro-Oeste, e
para o café.


