Teologia da especulação
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de dezembro de 1996
Antônio Delfim Netto 
A Organização Internacional do Trabalho - OIT, divulgou em Genebra neste início de dezembro um relatório sobre a questão do desemprego no mundo. Suas conclusões são interessantes, porque ajudam a demonstrar a fragilidade do argumento segundo o qual o desemprego dos trabalhadores é uma fatalidade decorrente do fenômeno da globalização. Tal argumento - extremamente falacioso - tem sido utilizado no Brasil como justificativa para as políticas que restringem o crescimento econômico e produzem os altos níveis de desemprego de nossos trabalhadores na indústria e na agricultura.
No relatório da OIT está dito com todas as letras, em inglês, que os países que adotaram políticas de crescimento econômico reduziram os níveis de desemprego, mesmo com a globalização. Com base na avaliação do comportamento do mercado de trabalho em 154 países, o relatório conclui que a expansão dos níveis de desemprego está muito mais relacionada com a ausência de políticas de crescimento econômico do que a eventuais consequências da globalização da economia mundial.
Qualquer país que tenha uma política econômica inteligente pode tirar proveito da globalização. Nós temos uma oportunidade de ouro para tirar proveito da ampliação do comércio e das disponibilidades de recursos no sistema financeiro internacional. O que seria uma política inteligente, no nosso caso? Seria implementar um vigoroso suporte às nossas exportações, incentivando a produção industrial e agrícola, cortando, em compensação, a despesa pública. Acontece que nós estamos exatamente na contramão, com as altas taxas de juros e câmbio desfavorável. Estamos vendendo nossas indústrias a preço de banana e dando de barato o enorme mercado interno para quem quiser vir explorá-lo.
Essa é a grande tragédia que estamos impondo aos brasileiros. Os fundamentalistas do Banco Central convenceram o governo que, se a economia crescer mais que 3% ou 4%, o Plano Real termina. É uma grande asneira, porque o Brasil já mostrou no passado que pode crescer 7% ou 10% e até 14% ao ano, como aconteceu na década de 70, com taxas anuais de inflação de 12%. Hoje, a economia está presa numa armadilha com o câmbio sobrevalorizado e as altas taxas de juros que impedem o crescimento. Nos obrigamos a atrair capitais externos à custa de extraordinária remuneração, e temos receio que eles fujam provocando uma crise cambial, se as generosas taxas de juros forem reduzidas.
Em resumo, o Brasil se deixou dominar por uma espécie de teologia de especulação, que consiste no seguinte: todas as garantias aos operadores do sistema financeiro internacional para que apliquem aqui os capitais especulativos, auferindo lucros extraordinários, sem risco de alterações no câmbio. Aos empresários e trabalhadores brasileiros, crédito restrito e caro, corte de postos de trabalho no campo e nas cidades, desestímulo às exportações. É exatamente o oposto do que podemos extrair do processo de globalização.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara Federal.


