Temor ao Efeito Ásia marca encontro
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quinta-feira, 11 de setembro de 1997
Clóvis Rossi Agência Folha 
France PresseO ministro da Economia do Chile, Álvaro Garcia: diferenças com os tigresO efeito Ásia foi o fantasma que assombrou o segundo dia da Cúpula Econômica do Mercosul, promovida pelo Fórum Econômico Mundial em São Paulo. Fantasma tão persistente que surgiu mesmo depois que três acadêmicos de peso entoaram hinos de louvor às reformas e ao progresso econômico de Brasil e Argentina nos últimos anos.
Persistente ao ponto de levar dois ministros (o brasileiro Antonio Kandir, do Planejamento, e o chileno Álvaro García, da Economia) a preferir acentuar as diferenças entre os países latino-americanos e os chamados tigres asiáticos, antes motivo de emulação e não de rejeição.
O fantasma foi evocado pelo argentino Miguel Ángel Broda, presidente da mais famosa consultoria de seu país, ao dizer: Não é certo que não possa haver ataque especulativo contra um país antes que alcance um déficit em conta corrente equivalente a 8% do PIB.
A conta corrente mede todas as transações de um país com o exterior. Como o déficit da Tailândia, ao ser atingida pela crise, batia nos 8% do Produto Interno Bruto (soma das riquezas produzidas por um país), esse número mágico passou a ser tomado como o limite no qual se entra em zona de perigo.
Como Brasil e Argentina têm déficits bem inferiores ao limite, parecem fora da área de risco. Não estou seguro de que não possa haver ataque especulativo (abaixo do limite de risco), afirmou Broda. A partir daí, o fantasma ficou flutuando no salão Andes do Hotel Renaissance, em que se realizava a sessão.
O brasileiro José Alexandre Scheinkman, do Departamento de Economia da Universidade de Chicago, tratou de espantá-lo, ao menos no caso do Brasil: O Brasil não é a Tailândia. Para Scheinkman, a crise tailandesa foi uma crise bancária, decorrente de o sistema financeiro tomar empréstimos em dólar para financiar projetos pouco lucrativos. O sistema bancário brasileiro é muito mais saudável e muito menos endividado externamente, disse o economista.
Broda concorda, ao apontar a manifesta perda de vulnerabilidade do sistema financeiro (brasileiro e argentino) como fundamental diferença entre os riscos que havia quando da crise mexicana, em 1994/95, e agora. Em todo caso, o próprio Scheinkman havia dito, antes, que os mercados financeiros, na semana passada, pareciam apostar contra o real: jogavam, nos mercados futuros, com uma desvalorização da moeda brasileira na faixa de 0,9% mensal, quando a desvalorização que o governo vem fazendo fica em torno de 0,6%.
Se o ataque especulativo (maciça venda de uma moeda pelos investidores, para tentar forçar sua desvalorização) é apenas um fantasma no presente, no futuro não muito distante é um risco real. Os três economistas à mesa concordaram nesse ponto (além de Broda e Scheinkman, estava também Winston Fritsch, que foi da equipe econômica de Fernando Henrique na Fazenda). Fritsch acha que o Brasil está em uma região de sinal amarelo, por seu déficit em conta corrente entre 4% e 5% do PIB. Sem a reforma das finanças públicas, em dois anos certamente estaremos na região de perigo, passado o efeito do ingresso de recursos para privatização e do primeiro ciclo de reformas.
A receita para fugir da crise, comum aos três: aumentar a taxa de poupança interna, para reduzir a dependência de capitais externos. Como fazê-lo? A resposta é a óbvia, tratando-se de três economistas liberais: cortando o déficit do governo, que suga o setor privado.
Broda chegou a dizer que, na Argentina, a poupança privada é igual à do Chile, tido como modelo latino-americano. Mas o déficit do governo (3,4% do PIB em 97) deixa a poupança total longe dos 25% que é o nível mínimo para o desenvolvimento sustentado. No Brasil, mudam os números, mas não a situação, que representa até um problema maior do que na Argentina, acha Scheinkman.


