A concorrência dentro de elos de uma mesma cadeia produtiva, caso da carne bovina, entre outros prejuízos acaba elevando os custos
Adelar: Organização de pecuaristas não consegue evitar ‘‘jogo de migalhas’’ entre produtores e frigoríficos
‘‘O Brasil conta com cadeias produtivas altamente competitivas em nível internacional, mas falta uma maior junção de esforços entre Estado e setor privado, capaz de oferecer novos horizontes ao produtor.’’ A opinião é do engenheiro agrônomo Adelar Antonio Motter, coordenador da área de difusão do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e mestre em gestão pública.
Como exemplo de experiência bem-sucedida desta união de esforços, ele cita o fim da barreira sanitária na pecuária e o Projeto Fábrica do Agricultor, que vem sendo desenvolvido no Estado. ‘‘Toda cadeia age cercada de dois ambientes: o institucional e o organizacional. E os dois muitas vezes se debatem, quando deveriam andar juntos’’, reforça Motter.
A abordagem do tema cadeia produtiva sob a ótica da teoria é outro problema enfrentado no País, na opinião do agrônomo. Na prática, diz ele, há cadeias bastante avançadas, mas ainda há pouca gente abordando o assunto no sentido de conseguir resolver problemas sistêmicos. ‘‘Há um desconhecimento muito grande entre setores, até dentro do próprio Governo.’’
Esta falta de conhecimento, somada à concorrência dentro dos elos de uma mesma cadeia – como produtor e frigorífico – é extremamente prejudicial. ‘‘A concorrência deve ser entre empresas do mesmo elo da cadeia. Entre elos deve haver cooperação. Quando não há cooperação eleva-se os custos, perde-se tempo ou simplesmente deixa-se de produzir’’, diz Adelar Motter.
Como exemplos de cadeias que funcionam bem na prática estão a do frango, suco de laranja, papel e celulose, açúcar e álcool. No caso do frango, a função de coordenação é assumida pela indústria, que define toda a pauta tecnológica da cadeia. ‘‘O produtor é quase um terceirizado da indústria’’, define o agrônomo, lembrando que também é a indústria que desenvolve a logística que garante o abastecimento de todo o mercado.
‘‘A vantagem é que o consumidor, em geral, tem acesso a produtos de qualidade, o abastecimento garantido e o produto é competitivo.’’ A mesma eficiência tem sido alcançada na suinocultura, fumo e citricultura. São cadeias bem coordenadas no sentido econômico, mas que deixam a desejar quando se fala em poder de fogo do produtor.
Já o caso do boi, para Motter, é bem diferente. ‘‘Se comparada à do frango, a cadeia produtiva do boi não tem coordenação nenhuma. Não há, por exemplo, padrão de qualidade nos estabelecimentos. A portaria que exige que o produto seja embalado, com todas as informações a que o consumidor tem direito, até hoje não entrou em vigor.’’ Segundo o agrônomo, o setor de suprimentos ligado à pecuária também é totalmente pulverizado.
A organização dos pecuaristas em associações e sociedades rurais não consegue excluir o que Adelar Motter define como ‘‘jogo de migalhas’’ entre produtores e frigoríficos. Problemas como este estariam impedindo o salto significativo do setor. ‘‘Ao contrário do frango, o crescimento na produção de carne apenas acompanhou o crescimento da população.’’ O agrônomo afirma, porém, que as condições para o grande salto existem: ‘‘Temos o maior rebanho comercial do mundo, que mescla o gado europeu, misto e zebuíno. O problema é que falta liderança, organização e clareza de objetivos às boas iniciativas, como o boi verde.’’
O peixe enfrenta a situação mais complicada, na opinião do agrônomo do Iapar. O preço, segundo ele, não justifica o potencial de produção do País. Uma saída pode estar nas empresas de fora que estão entrando no setor, capazes de imprimir tecnologia e maior competitividade à cadeia. O pesquisador alerta, porém, para o papel fiscalizador do governo, essencial para o sucesso do setor.

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