Técnico prevê dificuldades para o trigo
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segunda-feira, 15 de março de 1999
Vânia Casado 
O produtor vai plantar trigo este ano, apostando na expectativa de que o mercado estará comprador no período da comercialização, em setembro. Apesar da previsão otimista de que 1999 será um ano bom para o trigo, o produtor tem que estar ciente de que vai plantar no escuro. A preocupação é do engenheiro agrônomo Benami Bacaltchucka, chefe do Centro Nacional de Pesquisa de Trigo da Embrapa de Passo Fundo (RS). Ele justifica que o trigo será plantado num período em que o dólar está sendo comercializado a quase R$ 2,00 e poderá ser vendido num período, em que as projeções econômicas apontam para uma cotação de R$ 1,70.
A indústria vai exercer uma pressão sobre o produtor e certamente não vai concordar em pagar pelo trigo, em torno de R$ 200,00 a tonelada, que é o custo de produção que está sendo estimado para a atual safra, afirma Bacaltchucka. A previsão do técnico não é otimista e ele acredita que o governo vai acabar intervindo na comercialização para garantir a compra do trigo.
Bacaltchuka argumenta que as indústrias estão numa situação econômica perigosa e não têm capital de giro para financiar a safra do produtor. No ano passado, elas comprometeram R$ 1 bilhão na compra do trigo importado. Com a desvalorização do dólar, o débito pulou para R$ 1,5 bilhão. Ele observa no entanto que essa dívida não vence de uma vez, mas reduzirá o capital de giro da indústria.A consequência é que ela vai jogar pesado com o fornecedor brasileiro. Por isso produtores e cooperativas têm que se preparar, alerta.
Bacaltchuka está hoje, em Cascavel, onde participa do Fórum Técnico do Trigo, promovido pela Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). O técnico da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab-Brasília), Paulo Magno, o pesquisador da Coodetec, Francisco Franco e Alexandre Guetter, do Simepar, também farão palestras.
A preocupação do técnico é que a alta de 37% no preço médio dos insumos possa comprometer a qualidade do produto. Mesmo com a alta de preços Bacaltchucka recomenda ao produtor não descuidar da aplicação de fertilizantes e dos tratamentos culturais, para atender a exigência de qualidade da indústria. A falta de nitrogênio pode resultar num trigo de aparência e peso bom, mas sem proteína, afirmou o técnico. Em função disso, segundo ele, a indústria tende a rejeitar o produto. Além das recomendações técnicas, como a necessidade de fazer adubação de base e de cobertura para garantir a qualidade do trigo, Bacaltchuka defende a correta classificação do produto no momento do recebimento. O técnico admite que as cooperativas resistem em discutir esse tema porque implica em aumento de custos, mas não há outra alternativa se elas quiserem evitar que o trigo seja rejeitado pela indústria. Conforme sua proposta, as cooperativas têm que receber o trigo e destiná-lo para armazéns diferentes, conforme a qualidade do grão.
Só com a separação do produto, por qualidade, a cooperativa vai agregar valor e será recompensada no momento da comercialização, justificou. Para o técnico, a mistura de trigo com peso inferior pode comprometer todo o lote. Segundo Bacaltchuka, a Coamo, que recebe trigo de uma área de 300 hectares, já está fazendo a classificação.
Apesar da alta no preço dos insumos a projeção para a safra 98/99 é de ampliação da área plantada e da produção, se as condições climáticas forem boas até a colheita. A área plantada no Brasil deverá crescer de 1,2 milhão de hectares, na safra passada, para 1,5 milhão de hectares este ano, sendo 980.000 hectares só no Paraná. A previsão de produção é de 2,5 milhões a 2,7 milhões de toneladas, com potencial de chegar a 3 milhões de toneladas. No ano passado foram produzidos 2,18 milhões de toneladas de trigo no país.


