TCU indica desvios no IRB em 2002
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de setembro de 2005
Felipe Recondo<br> Folhapress 
Brasília - As denúncias do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) relacionadas ao IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) não se confirmaram até o momento no governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas já há documentos que apontam as supostas irregularidades na gestão Fernando Henrique Cardoso. Jefferson disse, em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, que o Banco Espírito Santo, principal acionista da Portugal Telecom, estava interessado em garantir a transferência de US$ 100 milhões do IRB para os cofres do banco. A operação garantiria dividendos ao PT e PTB. De fato, o investimento não foi adiante.
Porém, em 2002, último ano da gestão Fernando Henrique Cardoso, uma operação nos mesmos moldes foi à frente a despeito da legislação, das expectativas de rendimento e da política de investimento do IRB no valor de US$ 240 milhões -US$ 120 milhões na Société Générale, US$ 60 milhões no Bayerishe Landsbank e US$ 60 milhões no Royal Bank of Scotland.
Os dados e a análise da operação constam de um relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) obtido pela reportagem. Os analistas do Tribunal compararam a rentabilidade das aplicações feitas pelo IRB no exterior com um possível investimento no Fundo Extramercado do Banco do Brasil e chegaram à conclusão de que a decisão do IRB gerou um prejuízo para o caixa do instituto de US$ 438 milhões (valor superior aos US$ 240 milhões inicialmente divulgados por integrantes da CPI dos Correios).
''Pelos valores acima, resta provado que as aplicações realizadas em 2002 foram um desastre'', informa o relatório. Os analistas que analisaram os dados levantam a dúvida e a possibilidade de que o dinheiro tivesse sido desviado: ''cabe indagar aos dirigentes da empresa quem teria se beneficiado com essas aplicações, uma vez que elas não trouxeram benefícios nenhum para o IRB''.
Além do prejuízo milionário, a aplicação dos recursos no exterior guarda outras irregularidades. Primeiro: o volume investido no exterior contraria uma resolução do CMN (Conselho Monetário Nacional) e desobedece a política de investimentos da empresa que limita os investimentos no exterior a 50% das reservas do IRB. De acordo com o TCU, hoje o percentual de recursos aplicados em instituições estrangeiras é de 65,8%.
Mais: para que os US$ 240 milhões fossem investidos no exterior, o IRB teve de resgatar aplicações no valor de US$ 112,122 milhões no Goldman Sachs, Morgan Stanley e Salomon Brothers. Nessa operação, o IRB assumiu um prejuízo de US$ 5,4 milhões porque vendeu os papéis quando o preço estava abaixo do preço de custo.
''Mais uma vez, com essa operação, os dirigentes da empresa demonstraram indiferença ao prejuízo, pois perderam nessa operação, mais de cinco milhões de dólares, que, se convertidos ao câmbio do dia 25 de outubro de 2002 (US$ 1,00 = 3,95), teríamos uma perda de R$ 21,3 milhões'', diz o documento do TCU.


