São Paulo - A indústria automotiva brasileira pretende aumentar em 62,3% a taxa de motorização até 2020. A intenção é passar dos atuais 154 para 250 veículos por mil habitantes, de acordo com estimativa da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Para isso, o setor planeja investimentos de US$ 21 bilhões até 2015 em ampliações e em novas fábricas. A produção anual, que neste ano foi projetada em 3,74 milhões de unidades, deve saltar para 6,3 milhões em dez anos.
  Considerando o mesmo percentual e a renovação da frota, as montadoras poderão produzir ao menos 37 milhões de novos veículos no período. Ao final do período, o país poderá registrar uma frota de 69 milhões de veículos. O aumento da produção considera o crescimento da economia previsto para 2011, estimado em 4% pelo setor, e outros fatores como a oferta de crédito e o aumento de renda da população.
  Segundo a Anfavea, 60% das vendas de veículos são feitas por meio de operações de crédito. Além disso, o crescimento está relacionado aos pacotes lançados pelo governo para incentivar a produção e evitar a demissão de trabalhadores. A última medida aumentou o IPI para carros importados a partir da segunda quinzena de dezembro.
  De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a taxa de motorização no Brasil cresceu 30% entre 1998 e 2008 baseada na popularização e no aumento do crédito. No México, o crescimento verificado foi de 75% no mesmo período. A vizinha Argentina também tem apresentado taxa de motorização maior que a do Brasil.
  Para o presidente mundial da Renault-Nissan, Carlos Ghosn, não há dúvidas de que o Brasil tem potencial para superar a taxa de motorização de países da Europa, como Portugal, atualmente com 495 veículos por mil habitantes. ‘‘O Brasil tem condições de atingir a relação de 500 veículos por mil habitantes. O brasileiro gosta de carro, e o país ainda tem muito a crescer no setor’’, disse.
  Para especialistas consultados pela reportagem, a meta é ambiciosa. ‘‘Parece mais um desejo do que algo que seja possível’’, diz Arthur Barrionuevo, professor e economista da Fundação Getulio Vargas (FGV). ‘‘Não creio que, nem mesmo num prazo razoável de dois ou três anos, o nível de crédito possa se expandir a ponto de viabilizar um aumento substancial da demanda de veículos no Brasil’’, diz Júlio Manuel Pires, professor de economia da USP.
  Com mais veículos nas ruas, a lógica é que o tráfego se torne cada vez mais complicado, principalmente nas grandes cidades. Porém, para a Anfavea, a culpa não pode ser atribuída somente à indústria automotiva. Segundo a associação, a questão deve ser analisada e associada a outros fatores, como a qualidade do transporte coletivo, sua eficiência, o adensamento populacional e a condição da infraestrutura viária
(ruas e avenidas).

Carga pesada
  No começo do mês, Ghosn esteve no Brasil para anunciar R$ 3,1 bilhões na construção da primeira fábrica da Nissan no país e a ampliação da unidade da Renault em São José dos Pinhais (PR). Em entrevista à Folha de S.Paulo, o executivo criticou o preço do aço brasileiro, a falta de infraestrutura e a alta carga tributária. ‘‘A tributação é muito grande no Brasil. De 40% a 48% do que se paga num carro é tributo’’, disse.
  ‘‘A gente compra aço coreano feito com minério brasileiro porque custa bem menos do que o aço brasileiro. Esse é um problema que temos de resolver porque nosso interesse é baixar o preço do carro no Brasil.’’

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