Tarifaço de Trump leva Brasil a mirar no México para exportações
Cadeia moveleira nacional poderia ser beneficiada, mas Abimóvel avalia que expandir mercados não é tão simples
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de setembro de 2025
Cadeia moveleira nacional poderia ser beneficiada, mas Abimóvel avalia que expandir mercados não é tão simples

A política comercial protecionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que resultou na sobretaxa de 50% aplicada aos produtos brasileiros, trouxe ao país a necessidade de buscar mercados alternativos para suas exportações. Na tentativa de abertura de novas possibilidades de negócios, o México é apontado como uma opção para indústrias de diversos segmentos, entre eles, o de móveis.
Em 2024, as exportações de móveis do Brasil aos EUA somaram US$ 216,5 milhões. No mesmo período, as importações de móveis pelo México totalizaram US$ 659 milhões, sendo US$ 16,8 milhões enviados por indústrias brasileiras.
Considerando todas as importações e exportações, a corrente de comércio entre Brasil e México alcançou US$ 13,6 bilhões, no ano passado. O montante coloca o México na segunda posição entre os principais destinos dos produtos brasileiros na América Latina e o sétimo maior no mundo. Mas esse número tem potencial para crescer.
A ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) identificou o mercado mexicano como uma alternativa relevante para a indústria nacional. De acordo com levantamento publicado pelo site de notícias CNN Brasil, pelo menos quatro setores teriam capacidade de ampliar a participação nas comercializações com o México: móveis, equipamentos médico-odontológicos, mármore e outras pedras de cantaria e máquinas agrícolas.
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Representantes da ApexBrasil integraram a comitiva oficial que viajou ao México na semana passada. Liderada pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, o objetivo da missão, que teve como ponto alto o encontro com a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, foi alinhar parcerias e fechar novos acordos, ampliando o comércio bilateral.
Por enquanto, o encontro resultou em parcerias apenas para os setores da saúde e do agronegócio, mas existe a perspectiva de extensão dos acordos para outros setores. A promessa dos EUA de aplicar uma tarifa de 30% sobre os produtos mexicanos pode contribuir para acelerar o estreitamento dos laços comerciais com o Brasil.
Planos de ampliação da parceria
Nos próximos 12 meses, Brasil e México vão se debruçar sobre a proposta de ampliação dos acordos vigentes de comércio exterior e investimentos recíprocos. O documento dando o passo inicial a esse trabalho foi assinado na última quinta-feira (28). O cronograma de trabalho apresentado por Alckmin para aumentar a complementariedade econômica entre os dois países deverá ser concluído em julho de 2026.
Atualmente, o comércio entre Brasil e México é regulado por dois ACEs (Acordos de Complementação Econômica). O ACE-55 abrange produtos automotivos e o ACE-53, estabelece redução ou eliminação de tarifas de importação de aproximadamente 800 linhas tarifárias de produtos não automotivos.
“O que nós estamos trabalhando com o México é atualizar, ampliar os acordos de comércio exterior e investimento. Eles têm mais de 20 anos. No caso do ACE-53, ele cobre praticamente 12% do fluxo do comércio bilateral. Uma cobertura pequena. Foi feito um entendimento para discutir a ampliação”, explicou Alckmin, que classificou a visita ao país norte-americano como uma "oportunidade estratégica" para aprofundamento do diálogo político e abertura de novas frentes de comércio e investimento.
Paraná está entre os mais afetados na exportação de móveis
Apesar do panorama favorável, o presidente da Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), Irineu Munhoz, não considera tão simples a substituição de um mercado pelo outro. Segundo ele, os móveis brasileiros são comercializados para 170 países e 30% das exportações têm como destino os EUA. “Se for olhar pelo total, não é muito representativo. Mas para alguns locais e algumas empresas, é.”
Com a taxação, os estados mais afetados foram Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, nesta ordem. “A questão de canalizar a produção que hoje é vendida para os EUA não é tão fácil. Algumas empresas trabalham quase que exclusivamente para aquele mercado”, disse Munhoz.
Os produtos vendidos aos EUA, explicou o presidente da Abimóvel, têm um valor agregado maior. “Às vezes, é um produto desenvolvido especificamente para aquele mercado. Para redirecionar, tem todo um trabalho a fazer.”
Munhoz não vê o aumento das vendas ao México como uma possibilidade para curto prazo. “Não é algo que acontece rapidamente, desenvolver novos clientes, novos produtos. Alguns produtos têm um design melhor aceito em um pais e não no outro.”
Esse trabalho de abertura de novos mercados e ampliação dos já consolidados é feito dentro da Abimóvel, gestora de um programa de vendas internacionais que conta com a parceria da ApexBrasil. Entre as iniciativas, estão a organização de missões e exposições em feiras. “Como associação, buscamos viabilizar outros mercados, melhorar a penetração dos nossos produtos”, destacou Munhoz. “Aqui, na América do Sul, a Argentina volta a ter relevância na exportação de móveis do Brasil. Teve um período de baixa, mas agora volta a comprar aos poucos.”
Socorro ajuda, mas Custo Brasil ainda é entrave
Embora considere positivo o movimento do governo federal para tentar diversificar os países compradores, o presidente da Abimóvel disse que, em um primeiro momento, as medidas de socorro aos exportadores prejudicados, anunciadas dentro do Plano Brasil Soberano, são mais eficazes. Uma delas consiste na concessão de R$ 30 bilhões em créditos com juros subsidiados, provenientes do Fundo Garantidor de Exportações.
O presidente da associação também reivindica melhores condições para as empresas exportadoras. “Temos um Custo Brasil um pouco alto para exportação, muitas dificuldades para competir com a China, nosso principal concorrente. Temos um custo alto com logística para colocar nossos produtos em outros mercados, comparado com a China.”(Com Agência Brasil)


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.




