São Paulo O acordo da TAP com a Varig, cujos detalhes devem ser anunciados dentro de duas semanas, deve resolver pouco mais de 10% do problema de endividamento da companhia brasileira. A operação que está sendo desenhada em Lisboa envolve, de acordo com fontes próximas às negociações, empresas de leasing de aeronaves, para as quais a Varig deve cerca de R$ 700 milhões, equivalente a 13% de sua dívida.
A estatal TAP não entraria com capital próprio, mas assumiria para a si as dívidas da Varig com as empresas de leasing, em troca de participação acionária. Como já declarou o presidente do Conselho de Administração da Varig, David Zylbersztajn, a TAP também deve buscar outros investidores. Entretanto, TAP e eventuais investidores estrangeiros terão de limitar essa participação em 20% limite estabelecido pelo Código Brasileiro de Aeronáutica para capital estrangeiro em uma companhia aérea brasileira. Procuradas pela reportagem, Varig e TAP não quiseram comentar a informação.
Hoje a Varig está inadimplente com os arrendadores, que ameaçam arrestar aeronaves. Mas, caso a proposta de Fernando Pinto seja bem-sucedida e receba o apoio das empresas de leasing, a Varig poderá não apenas aliviar seu fluxo de caixa como fazer novas operações de leasing. Neste caso, a TAP entraria como avalista. Para ter sucesso nas negociações, Pinto aposta em sua credibilidade como um executivo que conseguiu melhorar consideravelmente as contas da TAP, embora a empresa ainda enfrente dificuldades. Soma-se a isso o fato de que Pinto, que presidiu a Varig de 1996 a 2000, é também presidente da Associação das Companhias Aéreas da Europa (AEA).
Além da operação de renegociação das dívidas com credores privados e conversão de dívidas em ação, as negociações com a TAP envolvem acordos operacionais, inclusive a realização de vôos compartilhados. ''Uma proposta desta natureza precisa do envolvimento total do presidente da República pois envolve questões de soberania nacional'', alerta a presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), Graziella Baggio. ''Um acordo com uma estrangeira pode levar a perda de linhas e de receita externa para o País.''
O início de conversas com a TAP foi a primeira medida concreta da nova administração da companhia, sob o comando de Zylbersztajn e do presidente executivo Henrique Neves. Apesar de não fazer frente à necessidade imediata de capitalização da empresa, a proposta foi considerada a melhor dentre outras quase dez apresentadas à Fundação Ruben Berta.
Com um patrimônio líquido negativo de R$ 6,4 bilhões, excluindo outros quase R$ 3 bilhões em contingências, a Varig pode ganhar apenas um pequeno fôlego se conseguir renegociar dívidas com credores privados.
O governo e as estatais Banco do Brasil, Infraero e Petrobras são credores de 63% de uma dívida de R$ 5,6 bilhões (R$ 3,6 bilhões). Além de não atender os velhos e incontáveis apelos da companhia de alongamento do prazo de pagamento de dívidas e obrigações correntes com estatais, o governo não dá sinais de abertura para negociar o chamado encontro de contas. A empresa ganhou na Justiça o direito de ser ressarcida por perdas provocadas por planos econômicos passados - uma conta estimada em R$ 3 bilhões.

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