Tamanho da crise surpreende economistas
Os dados da economia brasileira referentes ao terceiro trimestre vieram piores do que imaginavam economistas entrevistados pela FOLHA. Marcelo Curado, que também é professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é um deles. "Não deixa de ser uma surpresa, para pior", afirma. Ele ressalta que, após a divulgação do IBGE, já há analistas projetando uma redução do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 3,8% neste ano. "A crise já estava colocada, mas sua magnitude está nos deixando mais preocupados do que estávamos no início do ano", conta.
Ele acredita que a situação irá gerar uma pressão social muito grande sobre o governo. "Começa a crescer o desemprego, a inflação não cede. São fatores que podem gerar pressão. Aonde vai terminar essa crise eu não faço nem ideia", declara. "Já perdemos os anos de 2015 e 2016. Qualquer possibilidade de recuperação fica para 2017 ou 2018", complementa.
Para ele, apesar de o cenário internacional não ser dos melhores, "entre 60% e 70%" da culpa pela atual crise brasileira é do governo da presidente Dilma Rousseff, especialmente no primeiro mandato. "Para mim, a grande responsável foi a política econômica do primeiro mandato. E agora, a crise política", afirma.
De acordo com Curado, se a presidente tivesse adotado uma política econômica "mais conservadora", sem descuidar da "questão fiscal", o cenário hoje seria muito melhor. "Provavelmente estaríamos numa economia com baixo crescimento, mas não retraindo desta forma", afirma.
Ele afirma que a inflação deve fechar o ano em 10,2%, mas que, considerando apenas os preços administrados pelo governo, estará em 15,5%. "Um grave problema é que o governo manteve os preços artificialmente baixos. Se não tivesse feito isso, não teríamos agora tanto aumento de preço", define.
O economista Marcos Rambalducci, consultor da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), diz que o Brasil colhe hoje o fruto do modelo econômico do governo petista, que "descuidou do tripé da macroeconomia" - câmbio flutuante, superavit primário e controle da inflação.
A inflação, de acordo com ele, é resultado de uma transferência de renda para as classes c e d, sem que houvesse um aumento proporcional da produção das mercadorias que elas passaram a consumir. E, desse processo, teve início um círculo vicioso. "Com a inflação, as pessoas perdem o poder de compra. E aí se produz menos. (a indústria) Produzindo menos, há demissão. O desemprego gera ainda mais redução de consumo."
Ele também ressalta que, em seu primeiro mandato, a presidente Dilma tentou controlar a inflação de um jeito errado, valorizando o real. "Isso desestimulou a indústria nacional que não consegue competir com os importados", declara. E critica a petista por não perseguir a meta de superavit primário (dinheiro que o governo economiza para pagar juros da dívida). "Não se pode gastar mais que se arrecada", afirma.
Para ele, o Brasil hoje "paga o pato" de uma heterodoxia econômica que não deu certo. De acordo com o economista, o País só vai começar a se recuperar em 2017. (N.B.)





