Suspensão de importação de couro brasileiro põe empresários de curtumes do Paraná em alerta
Medida preventiva foi tomada por um dos maiores grupos de vestuário do mundo em busca esclarecimentos sobre questão ambiental e queimadas na região amazônica
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Medida preventiva foi tomada por um dos maiores grupos de vestuário do mundo em busca esclarecimentos sobre questão ambiental e queimadas na região amazônica
Fabio Galiotto - Grupo Folha 

Um dos maiores grupos de vestuário do mundo, dono de 19 marcas internacionais, suspendeu temporariamente a compra de couro brasileiro, como forma de pressão para que o governo brasileiro atue de forma mais eficaz contra as queimadas na região amazônica. As informações foram enviadas pelo CICB (Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil) ao Ministério do Meio Ambiente e deixaram empresários do Norte do Paraná preocupados com a possibilidade de a sanção ser estendida a todo o setor.
O presidente do CICB, José Fernando Bello, demonstra no documento enviado na terça-feira (27) ao ministério o mesmo temor, segundo trecho publicado na “Folha de S.Paulo”. “Recentemente, recebemos com muita preocupação o comunicado de suspensão de compras de couros a partir do Brasil de alguns dos principais importadores mundiais. Este cancelamento foi justificado em função de notícias relacionando queimadas na região amazônica ao agronegócio do País”, escreveu, na mensagem.
A reportagem pediu nesta quarta-feira (28) acesso à carta, mas a assessoria da entidade enviou uma nota, na qual Bello reitera que a suspensão não significou cancelamentos, que “não estão ocorrendo, dado um trabalho de sensibilização intenso que as empresas têm feito junto a seus clientes, mostrando que têm à disposição e com facilidade uma ampla gama de dados, certificados e registros”. Bello também afirma que o Brasil é um exemplo em rastreabilidade e controles sobre todas as etapas da produção de couros, com modelo reconhecido no mundo por meio da CSCB (Certificação de Sustentabilidade do Couro Brasileiro).
Porém, houve um pedido de suspensão até que o importador obtenha mais informações sobre a situação. “É importante que todos os públicos tenham conhecimento sobre o potencial de prejuízo que uma imagem errônea sobre a realidade do bioma amazônico pode causar a toda a cadeia do agronegócio”, diz o presidente do CICB, na nota da assessoria.
As marcas que solicitaram a suspensão são Timberland, Dickies, Kipling, Vans, Kodiak, Terra, Walls, Workrite, Eagle Creek, Eastpack, JanSport, The North Face, Napapijri, Bulwark, Altra, Icebreaker, Smartwoll e Horace Small. Todas são geridas pela VF Corporations, uma das maiores empresas de vestuário do mundo, com 115 anos e sediada nos Estados Unidos.
CURTUMES
Na região de Londrina, a maior parte da produção dos curtumes é direcionada às indústrias automotiva e moveleira. No entanto, empresários ouvidos temem que a suspensão também chegue a eles. “As marcas incluídas não são nossas clientes, mas não deixa de ser preocupante porque outros segmentos podem aderir a esse movimento”, conta o proprietário da Apucarana Leather, Umberto Cilião Sacchelli.
Ele afirma que os curtumes trabalham apenas com couro rastreado e que, nas empresas da região Norte do Paraná, não há couro vindo da região amazônica. "Sempre tivemos os órgãos de fiscalização, como o Ministério Público, batendo muito na importância de os frigoríficos não pegarem bois de áreas ilegais”, diz Sacchelli. "Mas, evidentemente, o setor e o Brasil têm de se mexer para mostrar que cuidamos da origem, da rastreabilidade, e que não há interesse no desmatamento", completa.
A Apucarana Leather tem parte da produção direcionada a calçados e roupas, que vai para o mercado interno. O produto semiacabado é exportado e o empresário afirma que há possibilidade de que sofra algum tipo de sanção. "O que preocupa o presidente da CICB é que ocorra uma contaminação por todas as empresas que importam nossos produtos, mesmo para móveis e automotivos, então ele quis se antecipar ao problema", cita Sacchelli.
Já os diretores da Vancouros, de Rolândia, entraram em contato com a CICB para buscar informações sobre a questão e foram tranquilizados. “Eles disseram que não teve qualquer cancelamento. Não acho que seremos afetados porque nossos clientes são antigos, limitados a alguns, que sabem da procedência do nosso produto”, diz o contador da Vancouros, Hermes Carlos dos Santos.
Santos acredita que a comunicação ao Ministério do Meio Ambiente tenha sido feita como forma de avisar o governo sobre eventual pressão. “A impressão é que quiseram antecipar algo, porque tudo na nossa cadeia é registrado, de qual frigorífico compramos o couro e de qual fazenda o frigorífico comprou o boi.”
MERCADO EXTERIOR
Cerca de 80% da produção de curtumes brasileiros é exportada, segundo a CICB. Os principais destinos em relação ao total das exportações brasileiras neste ano são China e Hong Kong (29,1% do total), Itália (17,3%) e Estados Unidos (16,6%), país sede da empresa que suspendeu as compras.
O valor das exportações de couros e peles ficou em US$ 84,2 milhões em julho no País, alta de 8,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O volume embarcado foi de 13,3 milhões de metros quadrados, crescimento de 34,2% no mesmo comparativo.


