'Suspender a vacinação é decisão temerária'
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terça-feira, 02 de março de 2010
Wilhan Santin<br> Enviado a Vinhedo 
Um galpão enorme com temperatura próxima a 0 grau Celsius abarrotado de vacinas para a febre aftosa. Esse é o cenário principal da Central de Selagem de Vacinas (CSV), localizada na cidade de Vinhedo (SP), a 60 km da capital paulista. A central está com as prateleiras cheias por conta da campanha de vacinação contra a doença do rebanho bovino e bubalino, que ocorre em todo o país, no mês de maio. Santa Catarina é exceção, pois é o único estado brasileiro livre da vacinação. A estimativa é que, em 2010, 365 milhões de doses de aftosa passem pelas prateleiras.
Contudo, se depender do governo do Paraná, em torno de nove milhões de doses que seriam destinadas ao Estado para a segunda campanha de vacinação do ano, no mês de dezembro, devem ficar na CSV, conforme foi reivindicado, anteontem, pela Secretaria de Agricultura do Estado ao ministro Reinold Stephanes.
Em Vinhedo, essa notícia não foi recebida com muito entusiasmo. Biólogo desde 1965 e com a experiência de mais de 30 anos de trabalho em laboratórios de produção de vacina de aftosa, o coordenador da CSV, Silvio Cardoso Pinto, classifica a decisão do Paraná como ''temerária''. ''É perigosa a idéia de suspender a vacinação em qualquer estado brasileiro que esteja em área de fronteira com outros países da América do Sul. Na minha opinião pessoal, o Paraná deveria primeiro restringir a vacinação, fazendo apenas uma campanha por ano, antes de suspender definitivamente a aplicação de vacina em seu rebanho. Há muito tempo atuo nessa área e, sempre que há um surto, é por falta de vacinação'', comenta.
Questionado sobre o impacto financeiro da decisão paranaense nos laboratórios, o coordenador minimizou o fato, dizendo que a produção de vacina para aftosa não é a única fonte de renda dessas empresas. Ele também disse não entender como o fato de uma não vacinação pode ajudar nas exportações da carne oriunda do rebanho paranaense.
''Os órgãos internacionais que representam os países que compram carne do Brasil nos visitam para checar se a vacinação de fato está acontecendo, ou seja, querem comprar carne de gado que foi vacinado e, seguramente, está livre da doença. É bom ressaltar que, na carne do animal, não fica qualquer vestígio da vacina. Se o Paraná tiver seu pedido atendido pelo MAPA e realmente parar de vacinar, vai precisar fazer um trabalho muito sério para conquistar a confiança do mercado internacional de que é área livre de aftosa sem vacinação'', finalizou.
A Central de Selagem de Vacinas (CSV) existe desde 1998, quando nasceu de uma parceria entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), com a missão de apoiar o Plano Nacional de Erradicação de Febre Aftosa (Pnefa). É lá que cada frasco de vacina contra a aftosa fabricada no Brasil recebe um selo holográfico - o mesmo utilizado nas notas de euro, oriundo de uma empresa alemã - que permite a rastreabilidade total do produto, garantindo a procedência e facilitando a fiscalização, o controle de qualidade e a distribuição das vacinas.
Ainda na Central, as vacinas contra aftosa, fabricadas por três laboratórios no país, ficam armazenadas, em quarentena, até que sejam feitos todos os testes exigidos pelo MAPA para a posterior aplicação do selo holográfico. Em seguida, acontece a distribuição, também monitorada pela CSV e feita em parceria com uma empresa particular de logística, a AGF, até as revendas e cooperativas. Esse trâmite faz com que o produto demore 100 dias da fabricação até a chegada ao produtor.


