Supermercado inglês prefere grão comum
Vânia Casado
Integrantes do supermercados Tesco, maior rede de supermercados da Inglaterra, e seus fornecedores, encerraram ontem visita de uma semana ao Brasil identificando fornecedores de produtos não transgênicos. O interesse da rede concentrou-se nos produtores de milho e soja das regiões Centro-Oeste, Paraná e Rio Grande do Sul. A preocupação da rede, que atende 25% do mercado na Inglaterra e movimenta US$ 10 bilhões/ano, aumentou depois que uma pesquisa de mercado apontou que 98% dos consumidores europeus vão evitar os supermercados que não fazem distinção entre produtos transgênicos e não transgênicos. Daí a necessidade da rotulagem dos produtos.
A restrição se estende também aos derivados. Na pesquisa, os consumidores mais radicais são da França, Inglaterra e Alemanha. Eles deixaram claro que não confiam nos governos e desconfiam da comunidade científica. Disseram ainda que como têm poder aquisitivo suficiente, preferem pagar mais por um produto isento do que dar o próprio corpo como campo de teste de empresas multinacionais. Eles estão conscientes que vão viver 50 ou 100 anos, dependendo dos alimentos que pretendem ingerir e não querem entregar essa decisão a terceiros.
A desconfiança do consumidor europeu se iniciou com a incidência da vaca louca, cuja manifestação no rebanho apareceu quase 10 anos depois do vírus infectar os animais. Depois desse episódio, casos de salmonela e dioxina, recentemente identificados com produtos alimentícios, aumentaram ainda mais a desconfiança dos consumidores em relação aos governos europeus.
Como 60% dos produtos colocados nas prateleiras dos supermercados na Europa são derivados de milho e soja, os supermercadistas ingleses estão procurando fornecedores de grãos tradicionais. O coordenador da missão, Nelson Mamede, disse que a rede Tesco influencia o mercado varejista na Europa. O que eles fazem, os outros seguem, disse Mamede, que é membro da Associação Brasileira de Agribusiness e representante da Sadia na Inglaterra. Ele informou que já foram fechados alguns contratos de compra de soja e milho com cooperativas no Paraná e Rio Grande do Sul, embora não soube informar o volume comprado. Mas lembrou que somente no ano passado, a Inglaterra comprou US$ 158 milhões entre grãos e farelo de soja do Brasil.
Essa é a segunda visita de supermercadistas da Inglaterra e mais importante economicamente que a primeira, feita em abril. Conforme informações do Consulado Britânico, a missão participou de reuniões com a diretoria da Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), e da Cargill. No Estado de Mato Grosso do Sul, percorreram áreas do cinturão da soja. E em Porto Alegre, visitaram produtores e cooperativas. No Paraná, foram até o porto de Paranaguá e em seguida foram embora.
Segundo Mamede, nas compras feitas no Brasil os supermercadistas ainda não falaram em pagar um prêmio para a soja convencional, a exemplo da ADM que está pagando prêmio para os produtores de soja convencional nos Estados Unidos. Ele explicou que no Brasil o mercado ainda está em formação e o plantio comercial de soja transgênica está para ser liberado. Ele acredita que o oferecimento de prêmios aos produtores vai ocorrer somente depois que o país tiver os dois produtos para oferecer.





