O professor de relações de trabalho da USP, José Pastore, acredita que o País pode levar até 12 meses para superar a sucessão de crises que o afetou. Para sair da crise, vai aumentar o número de empresas que devem forçar a redução da jornada com a diminuição de salários. Na sua opinião, os sindicatos devem acabar abrindo mão de direitos trabalhistas para segurar o emprego, a exemplo do que ocorreu em 98. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Pergunta - O desemprego vai aumentar nesse cenário de desaceleração que a economia enfrenta? Pode ser o pior desde o início do Plano Real?
Pastore - A tendência é de aumento, mas não deve ocorrer uma explosão. Será pior que 2000, mas não será o pior desde o início do Real. Em 98, tivemos taxas de desemprego maiores, com 8,5%, segundo o IBGE. Hoje, registramos índices de 6%. Essa taxa só não cresceu porque houve redução no número de pessoas que está procurando emprego.
Pergunta - Há outros fatores que contribuem para a taxa não crescer?
Pastore - Além de as pessoas deixam de procurar emprego porque o mercado está mais difícil, está ocorrendo explosão de novos cursos nas escolas formais e não-formais, como de artesanato, informática, cosméticos, manicure. Pelas estatísticas de frequência, as pessoas com até 30 anos estão buscando esses cursos. Essas pessoas podem estar deixando de buscar emprego para estudar.
Pergunta - Haverá fechamento significativo de vagas?
Pastore - Pelos dados da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da CNI (Confederação Nacional da Indústria), o número de empregados já está caindo desde julho. As vendas caíram, as encomendas se reduziram e muitos postos serão fechados.
Pergunta - Esse quadro pode ser mudado?
Pastore - O governo está anunciando investimento pesado no setor energético. Se isso ocorrer até novembro, pode movimentar a cadeia produtiva, a construção civil, os setores de ferro, aço, cimento, equipamentos, motores, turbinas. Quando o setor da infra-estrutura é estimulado, a geração de emprego é enorme.
Pergunta - Essa crise é pontual?
Pastore - Esse cenário é conjugação de cinco crises: a da economia argentina, do câmbio, dos juros altos da recessão mundial e do terrorismo. O país deve resolver as consequências desses problemas em até 12 meses, a não ser que haja investimentos como a facilitação de crédito ou um novo tipo de consórcio para vender mais automóveis, por exemplo.
Pergunta - As empresas vão segurar as demissões?
Pastore - As montadoras estão concedendo férias coletivas, usando banco de horas, promovendo demissões voluntárias para evitar cortes, mas vai chegar a um ponto em que não se consegue mais segurar. Se as vendas de carros continuarem caindo de forma desastrosa, a saída é adotar redução da jornada e dos salários, como ocorreu em 98. Quando se chega a um ponto onde o dilema é ''fico no emprego e ganho menos ou perco a vaga e não sei onde achar outra'', até os sindicatos vão concordar com essa redução.

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