Tem gente que começa a fazer histórias em quadrinhos na infância, cresce, e continua fazendo isso. Também há quem comece a fazer quadrinhos depois de crescido. Hobbie? Não. Trabalho sério. Profissão.
A profissão de quadrinista, cartunista ou chargista é meio de sobrevivência para muitos brasileiros famosos. É só lembrar de Glauco, perda recente na arte das tiras, e seus companheiros Angeli e Laerte, ou Maurício de Sousa e Ziraldo. Para quem gosta desse mundo e tem talento o trabalho é quase como uma diversão. E as possibilidades de inserção no mercado são várias.
O quadrinista pode trabalhar nas etapas de produção das editoras de histórias em quadrinhos fazendo a pesquisa, o roteiro, o traço, a arte-final ou a colorização (que hoje em dia é feita digitalmente), por exemplo. E para trabalhar com revistas do mundo inteiro, o profissional, muitas vezes, nem precisa sair de casa.
O estudante de Artes Visuais Richard Alpino Bittencourt e o designer gráfico Pietro Luigi encontraram um desses canais por intermédio de uma revista de quadrinhos cômicos conceituada nacionalmente. Morando em Londrina, eles conseguiram ter suas histórias em quadrinhos publicadas na revista fazendo contatos pela internet. ''Foi em uma seção de 'novos talentos', em 2008. Além disso, mantenho um blog com as minhas tirinhas'', conta Luigi.
Mas nada impede que o artista apresente suas próprias idéias às editoras. ''Tem muitas editoras que aceitam propostas'', afirma o coordenador da Associação dos Quadrinistas de Londrina, Eloyr Pacheco. ''Uma coisa que está muito em voga hoje é a adaptação de clássicos da literatura para histórias em quadrinhos em escala educacional'', continua. De acordo com ele, isso tem posibilitado o acesso de muitos profissionais no mercado.
Junto a outras editoras, o profissional pode buscar espaço fazendo charges e caricaturas para jornais e revistas. As agências de publicidade também têm absorvido desenhistas da área de quadrinhos para fazer storyboards. Aqueles que têm talento para a caricatura têm sido procurados para trabalhar em casamentos, tanto para confeccionar os convites com a caricatura dos noivos quanto para animar as festas, com caricaturas dos convidados.
Outra possibilidade de ganhar o sustento são concursos que premiam quadrinistas em todo o país, como os Salões de Humor. O mais conhecido está na cidade de Piracicaba, mas esses eventos acontecem em várias partes do País. ''O importante é procurar não fazer uma coisa só. Tem que ficar de olho no mercado, atento às possibilidades e ter ideia'', aconselha Eloyr Pacheco.




Talento e técnica: a dupla dinâmica


‘‘Uso bas­tan­te o tra­ço ca­ri­ca­to, ­cheio de ex­pres­sões exa­ge­ra­das, e a te­má­ti­ca com­por­ta­men­tal, atra­vés do ­humor’’, con­ta Pie­tro Lui­gi, que ho­je é de­sig­ner grá­fi­co, mas co­me­çou a de­sen­vol­ver ­suas ha­bi­li­da­des nos qua­dri­nhos aos 15 ­anos. O es­tu­dan­te de Ar­tes Vi­suais, Ri­chard Bit­ten­court, co­me­çou a fa­zer ­suas his­tó­rias em qua­dri­nhos aos 12. ‘‘Apren­di ten­tan­do fa­zer ­igual aos ar­tis­tas que eu ­gostava’’, con­ta o qua­dri­nis­ta, que usa o pseu­dô­ni­mo ‘‘­F풒 pa­ra as­si­nar ­suas his­tó­rias.
Tan­to Lui­gi quan­to Bit­ten­court apren­de­ram o ofí­cio na ba­se do au­to­di­da­tis­mo. Pa­ra o coor­de­na­dor da As­so­cia­ção dos Qua­dri­nis­tas de Lon­dri­na, ­Eloyr Pa­che­co, o que cons­ti­tui a pro­fis­são de qua­dri­nis­ta é ba­si­ca­men­te o ta­len­to. ‘‘É co­mo um pia­nis­ta. Se ele só tem téc­ni­ca, ele não con­se­gue to­car a al­ma de ­quem es­tá ou­vin­do com sua mú­si­ca. Se ele une téc­ni­ca a ta­len­to, te­mos um tra­ba­lho su­pe­rior.’’
Mes­mo as­sim, ele re­co­men­da ­quem ­quer se­guir a car­rei­ra de qua­dri­nis­ta a pro­cu­rar um cur­so de de­se­nho, ou cur­sos es­pe­cia­li­za­dos em qua­dri­nhos, co­mo o que a as­so­cia­ção ofe­re­ce. ­Além de ler mui­to so­bre o as­sun­to e man­ter-se in­for­ma­do das atua­li­da­des, prin­ci­pal­men­te pa­ra ­quem ­quer ser char­gis­ta e ca­ri­ca­tu­ris­ta. ‘‘O au­to­di­da­ta po­de co­me­ter er­ros e ad­qui­rir ví­cios, e um pro­fis­sio­nal tem con­di­ções de orien­tá-lo.’’
Na as­so­cia­ção, o alu­no con­tra­ta o pro­fes­sor por ho­ra-au­la de acor­do com sua dis­po­ni­bi­li­da­de, que são tra­ba­lha­das em gru­pos pe­que­nos, de no má­xi­mo qua­tro pes­soas. Lá, ­eles apren­dem des­de o de­se­nho bá­si­co, ana­to­mia, con­cei­tos de luz e som­bra, pers­pec­ti­va, pro­por­ção, uso das co­res, até a nar­ra­ti­va grá­fi­ca, in­ves­ti­ga­ção de tra­ço e ro­tei­ro. ‘‘As au­las são 30% teó­ri­cas e 70% ­práticas’’, de­fi­ne Pa­che­co.
De­pois dis­so, é reu­nir um vo­lu­me de cria­ções e cor­rer pa­ra mos­trar o tra­ba­lho. ‘‘Sem­pre re­co­men­do pro­cu­rar um jor­nal, do bair­ro mes­mo, fa­lar com o edi­tor, mas fa­zer tu­do de ma­nei­ra pro­fis­sio­nal, nun­ca fa­zer na­da de ­graça’’, acon­se­lha o coor­de­na­dor. A re­mu­ne­ra­ção, de acor­do com ele, va­ria con­for­me o con­tra­to fir­ma­do com a em­pre­sa. (M.F.C.)

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