Os constantes aumentos de preços de hortifruti nas feiras de Londrina não assustam mais os consumidores. Se antes era comum a prática da pechincha ou a reclamação de preços, o que se pode observar agora é uma postura de conformismo. Nas últimas semanas, em função do excesso de chuva, os preços de alguns produtos subiram cerca de 100%. As alfaces chegaram a R$ 3,00 a unidade, o maço de brócolis a R$ 7,00, o quilo de tomate a R$ 5,00. Mas o destaque ficou por conta da vagem que variou entre R$ 12,00 e R$ 14,00 o quilo - valor maior que o de vários tipos de carnes bovinas e superior ao de um frango com cerca de 2,5 quilos.
A dona de casa Edna Batini disse que seus gastos na feira aumentaram no último mês, mas não abre mão de comprar o que precisa, mesmo que em menor quantidade. ''Eu prefiro comer bem do que comprar remédios'', resume. Sem reclamar, ela pôs no carrinho o tomate por R$ 4,50 o quilo. ''Não faço pechincha porque os feirantes compram caro e precisam repassar este valor''. Edna, entretanto, não poupou críticas aos ''tecnocratas'' que controlam os índices da inflação no Brasil. ''Erra quem diz que não tem inflação porque tem muita inflação sim. Pode não ter na cesta básica, que é manipulada, mas a gente não come apenas cesta básica''.
A dona de casa Jacira Gonçalves não entende as razões de os preços na feira sobirem tanto. ''Uma hora dizem que é por causa da chuva, outra hora é por causa do sol. Mas o que sei é que está um absurdo, muito caro, demais da conta''. Apesar da constatação, ela também não reclama e nem faz pechinchas. ''Chorar não resolve o problema porque o feirante precisa ganhar, mas a gente tem que reduzir ao máximo o que vai comprar''.
Já os comerciantes parecem entender o novo comportamento dos consumidores e adotam estratégias diferentes para não perder a clientela. O feirante Antonio Otaviano procura manter a banca bem sortida, mas não pega os produtos quando estão acima do valor que considera normal. No final da semana ele deixou de comprar a caixa de vagem que chegou a R$ 100. Otaviano diz que os preços altos são ruins para o feirante que precisa reduzir a margem de lucro para não repassar todo aumento ao consumidor. ''A gente precisa diminuir a margem para ter um preço acessível, porque se estiver muito caro, o consumidor não leva''.
O feirante Alessandro Magri consegue manter o preço entre 20% e 25% menor que seus concorrentes porque produz o que vende. Além do preço baixo, ele seleciona os produtos e coloca em pequenas embalagens vendidas por R$ 1,00 a unidade para atrair os consumidores. ''Esta é uma estratégia que ajuda a vender porque o produto aparenta que não está tão caro e o cliente fica satisfeito com a qualidade do que está comprando'', afirma.




Economista sugere boicote


O professor e economista Flávio Oliveira dos Santos, que coordena a pesquisa mensal da cesta básica em Londrina, diz que não é apenas o excesso de chuva ou de calor que prejudica a produção de hortifruti e acaba contribuindo para o aumento destes produtos nas feiras e nos supermercados. Ele cita, por exemplo, o caso do tomate que subiu 73% no mês passado em Londrina. De acordo com o professor, o que houve foi um excesso de produção nos meses de dezembro e janeiro que levou à falta do produto no mês passado.
A vagem também teve uma elevação de preço acima do normal no começo do mês, chegando a R$ 14,00 o quilo nas feiras do centro da cidade. O professor compara que a leguminosa ficou cerca de 40% mais cara que o preço do coxão mole, a carne bovina que serve de referência para a cesta básica. ''Talvez haja um certo exagero neste preço e o consumidor deve ficar atento para não ser explorado. O correto é ponderar se vale a pena compar o produto por este preço ou se vale a pena esperar o aumento da oferta e voltar a um preço justo'', argumenta.
Santos sugere ao consumidor reduzir o volume de compras ou mesmo boicotar a compra dos produtos com valores exagerados. ''Se todo mundo consumir, mesmo com preço alto, vamos elevar ainda mais o preço da mercadoria.''
O economista considera válida a estratégia dos feirantes de vender produtos fracionados ou em pequenas embalagens, mas alerta que a técnica também pode encarecer a mercadoria. Segundo ele, o preço de um produto pode custar mais caro na feira porque o próprio feirante assume o risco pela comercialização, enquanto nos supermercados, de um modo geral, quem assume o risco é o produtor. Ele sugere que o consumidor faça sempre uma pesquisa de preços e que não perca o hábito de pechinchar, especialmente na feira. (E.A.)

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