Calçados de adultos em miniatura fazem o maior sucesso nos pés das crianças. Os lojistas do setor confirmam que parece que a vaidade vem do berço, já que desde os dois anos as meninas já demonstram a preferência por pares parecidos com os de suas mães. E mesmo quando elas têm apenas meses de vida, ainda sem a opção de decidir, são os pais que acabam comprando modelos equivalentes aos do público adulto. Nos últimos anos, os antigos sapatinhos de crochê, confeccionado pelas vovós, estão sendo substituídos pelos ''pipe toe'', sapato com uma pequena abertura na frente, que mostra a ponta dos dedos.
O mercado de calçados infantis aposta nessa mudança de comportamento. A marca Santa Lola, por exemplo, exibe em suas vitrines sandálias e sapatilhas para crianças iguais aos modelos comercializados a partir da numeração 34, que atende o público adulto. A universitária Tatiane Nissimura acredita que é natural que as filhas se espelham nas mães e que por esse motivo gostem de usar roupas e acessórios de adultos. Mãe de Gabriela, de 6 anos, Tatiane incentiva os caprichos da filha, que é sua companheira no salão de beleza - as duas marcam o mesmo horário para fazer as unhas e cortar os cabelos.
A menina costuma usar os mesmos modelos de roupas que a mãe, que manda confeccionar terninhos parecidos com os dela para a menina. Na hora de comprar sapatos, o mesmo se repete, mas com um limite: salto alto, nem pensar. ''Permito que ele use rasteiras e sapatilhas iguais as minhas e às vezes, sandália com salto anabela. Mas penso que sapatos para as crianças devem ser confortáveis. Sempre explico para minha filha que tudo tem sua hora e que salto alto, apenas quando ela crescer'', relata Tatiane.
Mesmo as mães que não querem ser influenciadas pelos modismos acabam tendo que comprar para os filhos os calçados que desfilam nos pés dos modelos infantis na mídia. De acordo com Andressa Fernandes Lopes, gerente da Pedicelo, as crianças ''batem o pé'' na hora de escolher. ''Já vi muita mãe ceder à insistência dos filhos. Os meninos também são exigentes e querem os calçados com personagens dos desenhos da televisão ou tênis de marca, que estão disponíveis no mercado mesmo para os bebês que ainda não sabem nem andar direito'', conta.
A gerente explica que os pais não gostam muito dos sapatos que trazem as figuras dos super-heróis e das bonecas porque esses modelos são de plástico e se usados por horas a fio podem formar bolhas e causar mau cheiro nos pés. No entanto, o apelo publicitário é muito forte e esses calçados acabam sendo os mais vendidos. ''Principalmente nos domingos, dia preferido pelas indústrias para anunciaram seus modelos no intervalo da programação infantil'', revela Andressa.
Conforme ela, os lojistas são bem conscientes e quando percebem que as mães estão sendo vencidas pelos filhos, ajudam na orientação de que certos modelos são para passeio e que não devem ser usados para brincar, ou ir para a escola, por exemplo. As meninas que estão quase chegando à adolescência podem usar sandálias com um salto pequeno ou de plataforma em ocasiões especiais, como em festas.
Fernanda Oliveira, empresária, mãe de duas meninas, de 4 e 10 anos, conta que nem sempre é fácil estabelecer limites, já que as crianças querem se vestir como as amigas, que geralmente usam adereços de adultos. ''Além de ver na escola o vestuário das colegas, as crianças que aparecem na televisão em novelas e em outros programas são moderninhas. Isso influencia muito o comportamento'', relata.





Salto é impróprio para crianças


Especialista em pé e tornozelo, o médico ortopedista César Eduardo Castro Ferreira Martins recomenda que, apenas a partir dos 12 anos, os saltos são aceitáveis e alerta que a altura não deve ultrapassar os três centímetros. Saltos mais altos são prejudiciais inclusive para os adultos, pois podem acentuar deformações preexistentes, além de predispor a novos problemas. Entre os mais comuns estão joanetes, encurtamento de tendões, esporões, dedos em ''garra'' e calos. A melhor opção para as pré-adolescentes ainda é o modelo anabela, que tem a base mais larga e garante mais estabilidade para os pés.

Na opinião do médico, o público infantil não deveria usar salto alto, quanto mais cedo começar piores serão as deformidades, afirma. ''No caso das crianças, as deformidades ficam ainda mais rígidas por manifestarem-se na fase de formação das estruturas. Além disso, o encurtamento da musculatura posterior da perna causa dores nas costas'', diz. Martins também faz um alerta para os meninos, que gostam de usar tênis parecidos com chuteiras. ''Por não ter amortecimento nenhum, esses modelos acarretam problemas para os pés. É cada vez mais constante a presença de meninos nos consultórios com queixas de dores'', salienta o especialista.

O médico ainda enfatiza que modelos falsificados devem ser evitados, pois são desprovidos de qualquer sistema de amortecimento. E, na hora de praticar esportes, deve-se escolher um tênis adequado para aquela atividade específica, em lojas especializadas em artigos esportivos.

Conforto

Andressa Fernandes Lopes, que trabalha há dez anos no segmento de sapatos infantis, recomenda os sapatos anatômicos, que são mais leves, flexíveis e com palmilhas anti-micróbios. Outra opção são os calçados com solado fisioflex. ''São ótimos porque as crianças se sentem praticamente descalças, pois são muito confortáveis e a tendência é que as fábricas invistam cada vez mais nesses modelos'', explica. A comerciante alerta que os calçados ortopédicos devem ser recomendados pelo médico. ''São sapatos especiais, para aqueles que têm algum problema e não devem ser usados indiscriminadamente por qualquer criança'', afirma. (G.C.)

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