Apa­rên­cia, be­le­za e so­fis­ti­ca­ção não são ­mais atri­bu­tos ex­clu­si­vos de ­jóias e pe­ças fa­bri­ca­das por in­dús­trias e em­pre­sas. Há al­gum tem­po já se en­con­tram em mos­tras e fei­ras de ar­te­sa­na­tos pro­du­tos de qua­li­da­de que agra­dam con­su­mi­do­res bra­si­lei­ros e es­tran­gei­ros. ­Usar uma pe­ça de ar­te­sa­na­to co­mo ade­re­ço ou ob­je­to de de­co­ra­ção atual­men­te já é si­nô­ni­mo de bom gos­to e op­ção pe­lo po­li­ti­ca­men­te cor­re­to, ten­do em vis­ta que va­lo­ri­za o tra­ba­lho in­di­vi­dual de ar­tis­tas e a uti­li­za­ção de ma­te­riais re­ci­cla­dos.
  Pe­dras, se­men­tes e cas­cas de ár­vo­res ga­nham for­mas e co­res nas ­mãos de ar­te­sãos, que abu­sam da cria­ti­vi­da­de pa­ra va­lo­ri­zar as ma­té­rias pri­mas. ­Aliás, pro­du­tos que evi­den­ciam ca­rac­te­rís­ti­cas bra­si­lei­ras aca­bam ten­do va­lor di­fe­ren­cia­do no ex­te­rior.
  A do­na de ca­sa Con­cei­ção Apa­re­ci­da San­ta­na ofe­re­ce de­ze­nas de pro­du­tos fei­tos com pe­dras e se­men­tes de di­ver­sas re­giões do Bra­sil, a maio­ria com­pra­da em São Pau­lo. O tra­ba­lho de Con­cei­ção, que re­sul­ta em be­las pe­ças, lhe ­traz ain­da co­mo re­com­pen­sa ale­gria e sen­ti­men­to de uti­li­da­de. ‘‘Es­ta­va em de­pres­são por­que o ne­to que eu cui­da­va mu­dou-se pa­ra o ­Japão’’, re­la­ta. Pa­ra se cu­rar, a mu­lher pro­cu­rou uma pro­fes­so­ra de ar­te­sa­na­to em Ro­lân­dia , apren­deu a fa­zer as pe­ças e há ­seis me­ses ini­ciou sua pro­du­ção, que co­mer­cia­li­za em fei­ras de ar­te­sa­na­to.
  As se­men­tes de ju­pa­ti, mar­fim ve­ge­tal, tan­cã, es­co­va-de-ma­ca­co, ­olho-de-pom­bo, ­olho-de-boi, ma­mo­na, fal­so-pau-bra­sil e ain­da cas­ca de ce­dro e ou­tras ár­vo­res dis­pos­tas em pe­da­ços de MDF for­mam pe­ças bo­ni­tas com pre­ço com­pen­sa­dor. Qua­dros pe­que­nos cus­tam R$ 20,00, os maio­res, R$ 250,00 e man­da­las cus­tam en­tre R$ 60,00 e R$ 80,00.
  A cria­ti­vi­da­de e ha­bi­li­da­de da ar­tis­ta plás­ti­ca ­Suely Beg­gia­to re­sul­tam em pe­ças so­fis­ti­ca­das e de­li­ca­das. O pa­pel é a prin­ci­pal ma­té­ria pri­ma e gra­ças à des­tre­za da ar­tis­ta se trans­for­ma em pe­que­nas pé­ta­las e de­se­nhos geo­mé­tri­cos, que en­fei­tam ca­pas de ca­der­ne­tas e agen­das. Tam­bém com­põe pe­que­nos qua­dros, com ba­se de ma­dei­ra e co­res le­ves e sua­ves, ­ideais pa­ra en­fei­tar am­bien­tes igual­men­te de­li­ca­dos, ­além de cai­xi­nhas, co­la­res, car­tões, por­ta-pa­pel e ­ímãs de ge­la­dei­ra.
  ­Suely, gra­dua­da em edu­ca­ção ar­tís­ti­ca, e a fi­lha Isa­be­la Beg­gia­to Al­mei­da dão ­asas à ima­gi­na­ção num pe­que­no ate­liê ins­ta­la­do em ca­sa. ‘‘Com­pra­mos o pa­pel ‘tin­gi­do na ­massa’ (que pos­si­bi­li­ta a cor uni­for­me) e o cor­ta­mos em ti­ras de pou­cos mi­lí­me­tros de lar­gu­ra. No iní­cio, fa­zía­mos es­se tra­ba­lho ma­nual­men­te; ago­ra com­pra­mos uma des­frag­men­ta­do­ra de pa­pel e fi­cou ­mais ­fácil’’, afir­ma. Os qua­dri­nhos são ven­di­dos por R$ 15,00, cai­xi­nhas en­tre R$ 10,00 e R$ 12,00 e ­ímas de ge­la­dei­ra en­tre R$ 1,50 e R$ 3,00.
  Ma­te­rial re­ci­cla­do tam­bém en­ri­que­ce as al­ter­na­ti­vas de cria­ção de ­Suely. Pa­pel e fil­tro de ca­fé usa­do se tans­for­mam em ob­je­tos de de­co­ra­ção. ‘‘Ca­pri­cha­mos no ­acabamento’’, diz. A ar­tis­ta plás­ti­ca tam­bém in­ves­te na acei­ta­ção do pro­du­to bra­si­lei­ro no ex­te­rior. Co­me­çou com ­ímãs de ge­la­dei­ra com mo­ti­vos na­cio­nais e pre­ten­de am­pliar o te­ma pa­ra ou­tras pe­ças.
  Rus­ti­ci­da­de tam­bém pro­por­cio­na pe­ças bo­ni­tas e har­mo­nio­sas. A ar­tis­ta plás­ti­ca Ana An­dra­de apro­vei­ta o seu co­nhe­ci­men­to no tra­ba­lho com te­las pa­ra mu­dar a te­má­ti­ca: ago­ra ela re­co­bre as te­las com di­fe­ren­tes tex­tu­ras e usa ma­dei­ra, re­si­na, vi­dro e pe­dras. ‘‘Mi­nhas pe­ças agra­dam bas­tan­te e tem pre­ços de acor­do com o ma­te­rial ­utilizado’’, afir­ma.
  Mar­le­ne Gio­va­ni Lo­bo Pe­rei­ra apro­vei­tou a ten­dên­cia de va­lo­ri­za­ção de ma­te­riais re­ci­clá­veis e am­pliou ­suas ati­vi­da­des. ‘‘Ago­ra não sou ­mais so­men­te do­na de ca­sa. Te­nho uma ­profissão’’, or­gu­lha-se. Ela faz cai­xas de di­ver­sos ta­ma­nhos com pa­pel, pá­gi­nas de re­vis­tas e co­la. ‘‘As re­vis­tas dão um mar­mo­ri­za­do in­te­res­san­te nas ­peças’’, diz. Ou­tro ma­te­rial, que se­gun­do a ar­te­sã pos­si­bi­li­ta uma tex­tu­ra di­fe­ren­te, é o fil­tro de ca­fé usa­do.


Produto brasileiro é valorizado no exterior
  O ar­te­sa­na­to bra­si­lei­ro faz bo­ni­to no ex­te­rior. Alu­sões, co­res e mar­ca do Bra­sil são re­co­nhe­ci­das em vá­rias par­tes do mun­do e têm bom pre­ço, des­de que atin­jam um pa­drão de qua­li­da­de e aca­ba­men­to. A As­so­cia­ção de Ar­te­sa­na­to e Es­ti­lo (Ar­test), en­ti­da­de lon­dri­nen­se que reú­ne de­ze­nas de ar­te­sãos, apro­vei­ta a aber­tu­ra des­te mer­ca­do e ven­de pro­du­tos em fei­ras in­ter­na­cio­nais. A par­ti­ci­pa­ção nos even­tos é via­bi­li­za­da pe­la Agên­cia de Pro­mo­ção, Ex­por­ta­ção e In­ves­ti­men­tos do Bra­sil (­Apex).
  Mi­lão, na Itá­lia, a ca­pi­tal es­pa­nho­la, Ma­dri, Pa­ris (Fran­ça) e Frank­furt, na Ale­ma­nha, são o prin­ci­pal fo­co da Ar­test. Mas os pro­du­tos bra­si­lei­ros tam­bém são co­mer­cia­li­za­dos em ou­tros lo­cais, co­mo Ku­wait e Es­ta­dos Uni­dos. De acor­do com Ro­ber­to Muc­ci, di­re­tor co­mer­cial da en­ti­da­de, os pro­du­tos são ad­qui­ri­dos por em­pre­sas. ‘‘As fei­ras são des­ti­na­das a ata­ca­dis­tas e não pa­ra o va­re­jo ’’, ex­pli­ca. Ele acres­cen­ta que as pe­ças de de­co­ra­ção e uti­li­tá­rios são os que des­per­tam ­mais in­te­res­se dos com­pra­do­res.
  Des­sa for­ma, pra­tos e ta­lhe­res de ma­dei­ra e alu­mí­nio, pe­ças de ce­râ­mi­ca são ofer­ta­dos co­mo op­ção de de­co­ra­ção. Muc­ci con­ta que um ta­lher com 1,70 m de al­tu­ra foi des­ti­na­do a um res­tau­ran­te in­dia­no. Tam­bém foi ven­di­da uma ca­dei­ra es­ti­lo ­Luís XV fei­ta in­tei­ra em alu­mí­nio.
  Bra­sil Ca­sa De­sign é ou­tro pro­je­to que pro­me­te am­pliar o mer­ca­do no ex­te­rior. Se­gun­do o di­re­tor co­mer­cial da Ar­test o ob­je­ti­vo é ins­ta­lar uma ca­sa com pro­du­tos bra­si­lei­ros um ano em ca­da ­país. A pri­mei­ra edi­ção do even­to foi rea­li­za­da com su­ces­so, em 2008, em Bue­nos Ai­res. Es­te ano, o Pa­na­má re­ce­beu a mos­tra e os or­ga­ni­za­do­res es­tão ten­tan­do via­bi­li­zá-la, em 2010, em Du­bai.
  A pro­du­ção dos ar­tis­tas fi­lia­dos à Ar­test tem tam­bém boa acei­ta­ção no mer­ca­do in­ter­no. No ae­ro­por­to de Lon­dri­na, por exem­plo, há um quios­que com vá­rias pe­ças, com­pra­das por ­quem em­bar­ca ou de­sem­bar­ca na ci­da­de. No lo­cal es­tão ex­pos­tos pin­gen­tes, brin­cos, co­la­res, pe­ças de ce­râ­mi­ca, sa­bo­ne­tes gli­ce­ri­na­dos, po­tes de ce­ra com aro­ma e cai­xas de­co­ra­ti­vas com a le­gí­ti­ma ca­cha­ça bra­si­lei­ra, en­tre ou­tros pro­du­tos. (R.C.)

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