SUAS COMPRAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de maio de 2009
Eli Araujo<br> Reportagem Local 
O ato de ir a um supermercado e escolher o que se deseja é algo extremamente simples e muitas vezes irrelevante para a maioria das pessoas. Entretanto, para um certo grupo, esta tarefa se torna quase impossível, não apenas pela falta de visão, e sim pela falta das condições materiais necessárias nos pontos de venda.
O bibliotecário Junio César Santiago Alonso nasceu com atrofia no nervo ótico e deslocamento de retina. A cegueira, porém, não o impediu de avançar nos estudos. Ele fez o curso de História e especializou-se em História Social na Universidade Estadual de Londrina (UEL), é funcionário público, professor e responsável pela biblioteca no Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos.
Alonso só não sente a mesma segurança para ir a um supermercado, o que faz com pouca frequência e sempre acompanhado da esposa, que o ajuda na escolha dos produtos. Para ele, a realidade poderia ser diferente se as embalagens trouxessen as informações básicas dos produtos em braile. A gente sabe que não dá para colocar tudo porque o braile ocupa muito espaço, mas se a embalagem tivesse ao menos o nome e a marca do produto já ajudaria bastante, afirma.
Ele diz que sabe da existência de alguns cosméticos, remédios e alimentos que trazem algumas informações em braile. E embora considere a iniciativa importante, argumenta que a quantidade ainda é pequena e que as informações nem sempre são claras.
A pedagoga Ivone Gomes da Rocha Galdino trabalha no Instituto de Cegos há 14 anos, onde é coordenadora pedagógica. Ela conhece bem as dificuldades dos deficientes visuais em relação a consumo. A ausência de informações em braile nas embalagens dificulta a inclusão do deficiente na sociedade,
argumenta.
Ivone reconhece que alguns produtos trazem alguns dados em braile, mas reforça a observação de Alonso de que a escrita não é muito clara. Alguns alunos não conseguem identificar a leitura com agilidade porque a saliência dos pontos em braile não fica perfeita por causa da textura do papel ou da forma de impressão. Segundo ela, a principal vantagem das inscrições em braile não está apenas no ato da compra, mas no manuseio dos produtos no dia a dia em casa.
Como os caracteres em braile são padronizados em tamanho único, o que dificulta a adequação de todas as embalagens, Ivone sugere que os supermercados não fiquem à espera da indústria, mas que também façam a sua parte. O deficiente visual é treinado para fazer rastreamento em lugares públicos e ficaria bem mais fácil se os supermercados colocassem as etiquetas em braile com o tipo do produto nas prateleiras, lamenta.
Para a coordenadora pedagógica do instituto, o que falta é a conscientização para que este tipo de ação seja adotada. O empresário deve pensar que o deficiente também faz parte do grande público que está todo dia no supermercado e que gasta, financeiramente, o mesmo que uma pessoa normal. É essa consciência de acessibilidade que precisa ser trabalhada,
afirma.


