Países como Índia, México, Tailândia e Coréia estão entre os grandes consumidores de pimenta do mundo. O Brasil não lidera o ranking, mas não fica muito atrás. Basta ver as variedades de rótulos que surgem a cada dia, grande parte vinda dos estados de Minas Gerais e São Paulo. E se depender de quem gosta do produto, o mercado estará sempre aquecido.
  ‘‘Quem come pimenta, come sempre’’, garante o comerciante Pedro Rocha, dono do Rancho Silvestre, em Londrina, que vende especiarias e carnes exóticas. Apreciador de pimentas, ele diz que está sempre viajando para conhecer novos produtos. O objetivo é trazer mercadorias que o mercado da região, em geral, não oferece.
  Numa dessas andanças, Rocha achou em Minas Gerais uma pimenta muito forte e de nome sugestivo: ‘‘P.Q.P’’. ‘‘Por aqui, ninguém tem. No início, acharam que era malagueta, mas não 钒, conta. Nos últimos anos, segundo ele, tem aumentado o número de empresas de pimentas, principalmente no interior mineiro. Muitas fecham em dois ou três anos, mas ao mesmo tempo surgem outras. ‘‘Tem muito aventureiro nesse mercado. É gente que vê o outro produzindo e acha que pode produzir também’’.
  Na linha das pimentas raras, o comerciante oferece ainda a scotch bonnet, proveniente da Jamaica, que é bastante ardida e saborosa. Não é fácil achar o produto. Rocha lembra que uma grande empresa nacional deixou de oferecer a variedade nos últimos anos, por dificuldade de conseguir a planta.
  Outra pimenta que chama a atenção dos apreciadores do gênero na loja é a rocotó, originária do México. Também conhecida como pimenta cavalo, se parece com uma cereja quando é pequena e com uma maçã, quando grande. É bastante ardida e tem como marca registrada as sementes pretas. Também fazem sucesso a habanero (Estados Unidos) e a jalapeño (México).
  As mais procuradas, porém, são aquelas que a maioria dos brasileiros conhece bem: malagueta, cumari e dedo-de-moça. Todas ardidas, com maior ou menor intensidade. Entre as poucas que não ardem, a mais vendida é a biquinho ou pimenta-de-bico. ‘‘Temos essa variedade temperada, que é muito boa para ser consumida como aperitivo, pura ou acompanhada de frios, torradas’’, diz Rocha.
  Muitas variedades vêm em vidros a partir de 40 gramas, próprios para quem gosta de levar as pimentas para refeições fora de casa. Há também vidros de 15 quilos, que trazem vários tipos de pimentas para decorar ambientes e também consumir. Enchem os olhos dos apaixonados pela especiaria e chegam a custar R$ 200.
  ‘‘Nossos vidros para decorar também são consumíveis. O consumidor deve tomar cuidado, pois há opções no mercado que são apenas decorativas, já que trazem componentes para conservação que são prejudiciais à saúde’’, alerta Rocha.
  Em geral, a maioria das pimentas comercializadas é curtida no vinagre ou no óleo, mas também há opções em pasta e na forma de extrato. Quem entende do assunto ensina: o óleo absorve o sabor da pimenta e o vinagre não. Para não formar borra no vidro com o tempo, a dica é optar por óleo de milho ou azeite de oliva.
  Entre homens e mulheres, quem consome mais pimenta? Segundo o comerciante, os dois públicos apreciam a especiaria, mas elas são mais resistentes. ‘‘Tenho uma malagueta em pasta aqui, que ofereço com torrada. A maioria dos homens afina quando prova a torradinha, já as mulheres não’’, entrega Rocha.


Para os apaixonados, quanto mais ardida melhor
  ‘‘Meu ca­fé da ma­nhã é pi­men­ta. Co­mo no pão ­caseiro’’, con­ta o au­tô­no­mo Laér­cio Sar­to­ri, um apai­xo­na­do pe­lo con­di­men­to. Ele não só con­so­me co­mo cul­ti­va di­ver­sas va­rie­da­des, mui­tas ra­ras por ­aqui, co­mo a na­ga jo­lo­kia, pi­men­ta in­dia­na ver­me­lha, con­si­de­ra­da a ­mais ar­di­da do mun­do. ‘‘Se vo­cê co­lo­car di­re­to na lín­gua sai até a ­pele’’, diz.
  Pa­ra apai­xo­na­dos co­mo Sar­to­ri, pi­men­ta vai bem a qual­quer ho­ra e com to­do o ti­po de co­mi­da. Se­gun­do ele, de­gus­tar pi­men­ta é uma ques­tão de apren­di­za­do. ‘‘As­sim co­mo o bom co­nhe­ce­dor de vi­nho, com o tem­po vo­cê vai de­sen­vol­ven­do o ­paladar’’, ob­ser­va.
  E quan­to ­mais ar­di­da me­lhor. ‘‘A gra­ça es­tá aí. Pi­men­ta que não ar­de é pi­men­ta sem ­alma’’, diz Sar­to­ri. Pa­ra ­quem ­quer ex­pe­ri­men­tar al­gu­ma va­rie­da­de sem pro­lon­gar o ‘‘­sofrimento’’, ele acon­se­lha: ‘‘Cre­me de lei­te ge­la­do é a úni­ca coi­sa que ali­via o ­ardor’’.
  Sar­to­ri co­me­çou con­su­min­do as pi­men­tas ­mais co­muns, co­mo cu­ma­ri e ma­la­gue­ta, e ho­je não pa­ra de co­nhe­cer no­vas va­rie­da­des. Há al­guns ­anos, par­ti­ci­pa de um fó­rum na in­ter­net (www.pi­men­tas.org), atra­vés do ­qual tro­ca in­for­ma­ções e se­men­tes de pi­men­tas com pes­soas de di­ver­sos lu­ga­res do mun­do. Re­cen­te­men­te, plan­tou 750 pés de 15 va­rie­da­des de di­fe­ren­tes ori­gens em uma chá­ca­ra em Lon­dri­na e pre­pa­ra-se pa­ra trans­for­mar o ­hobby em ne­gó­cio.
  ‘‘Co­me­cei fa­zen­do vi­dros pa­ra pre­sen­tear os ami­gos. Ago­ra, ­criei um ró­tu­lo e pas­sei a de­sen­vol­ver ou­tros pro­du­tos pa­ra co­lo­car no mer­ca­do. Te­nho pi­men­tas in na­tu­ra, mo­lhos, an­te­pas­tos, ge­léias com ­pimenta’’, con­ta.
  Quan­to ao plan­tio, ele diz que a pi­men­ta re­quer so­lo fér­til e dre­na­do e mui­to sol. ‘‘Vo­cê plan­ta e fi­ca na­que­la an­sie­da­de, sem­pre é uma sur­pre­sa. É a coi­sa ­mais lin­da do ­mundo’’, der­re­te-se.
  Se­gun­do Sar­to­ri, o ní­vel de ar­dên­cia das pi­men­tas po­de va­riar de acor­do com o ti­po de so­lo, a adu­ba­ção, a épo­ca do ano. Um dos cui­da­dos é co­brir os va­sos com véu pa­ra não ha­ver ‘‘­cruzamento’’ en­tre as plan­tas. (G.M.)

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