SUAS COMPRAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Gisele Mendonça<br>Reportagem Local 
A indústria alimentícia não pára de lançar novidades no mercado para diversos públicos. Mas para os portadores da doença celíaca que sofrem de intolerância permanente ao glúten á, as prateleiras dos supermercados ainda deixam a desejar. A saída são as pesquisas que prometem novos produtos (ver matéria nesta página) e algumas lojas especializadas.
A estimativa é de que uma a cada 300 pessoas no mundo seja portadora da doença. A atenção para o consumo desse público é recente no Brasil. Só a partir de 2003, uma lei federal passou a obrigar todos os alimentos industrializados a trazerem no rótulo as inscrições contém glúten ou não contém glúten. Desde então, vem aumentando, aos poucos, o número de empresas que se dedicam à produção de alimentos para celíacos.
São empresas de pequeno porte no Paraná, em Santa Catarina e em São Paulo que abastecem lojas especializadas como a do comerciante Kleber Antonio Fernandes, em Londrina. Aberto há dois anos e meio, a loja Sol Alimentos vende alimentos funcionais e produtos sem glúten como macarrão, biscoitos, pães, bolos, farinhas e outras misturas para diversas receitas. Entre os congelados prontos, há diversos tipos de salgadinhos, panqueca, lasanha, massa para pizza.
Segundo o comerciante, a maioria dos produtos sem glúten é também livre de lactose e integral; alguns são sem açúcar e orgânicos. A indústria costuma englobar tudo nesses alimentos especiais, observa Fernandes. Ele informa que os produtos para celíacos têm como base farinhas de soja, de arroz, de quinoa, fécula de batata. Outro ingrediente embora menos comum é o trigo sarraceno, também livre de glúten.
São produtos mais caros que os do mesmo gênero com glúten. Um pacote de macarrão (500 gramas) custa R$ 3,90; um de farinha (500 gramas), R$ 3,60; um de torrada (75 gramas), R$ 2,90; uma bandeja de coxinha (320 gramas), R$ 9,50. Entre os importados, o macarrão de trigo sarraceno orgânico (ou de milho italiano) sai por R$ 13 o pacote de 250 gramas.
Na análise de Fernandes, os supermercados não oferecem maior variedade de produtos sem glúten porque as grandes indústrias não investem, já que o giro do mercado ainda é considerado pequeno. As indústrias não têm interesse em interromper a sua produção. A industrialização sem glúten tem que ser totalmente à parte devido ao risco da contaminação cruzada. O glúten é muito fácil de contaminar, observa.
O comerciante acredita que o mercado dos produtos livres de glúten tem potencial de crescimento, porém, gradativo. É possível produzir muitas opções. Há inúmeros ingredientes, é só uma questão de paladar, de hábito, afirma Fernandes.
SERVIÇO
Loja Sol Alimentos
Endereço: Rua Assunção, 167, Parque Guanabara
Telefone: (43) 3028-0207
Mercado evoluiu, mas ainda falta variedade
A empresária Edna Scandelai Cernach consegue abastecer a sua casa com produtos sem glúten graças a uma loja especializada e algumas pessoas que preparam e comercializam receitas como pães em Londrina. Nos supermercados só encontro macarrão, cereais tipo sucrilhos e farinha. O mercado, em geral, está muito mais preparado do que alguns anos atrás, mas ainda falta variedade, diz ela, cuja filha Isabela, 14 anos, é portadora de doença celíaca.
O problema foi descoberto quando a menina tinha 6 anos. Os principais sintomas eram o atraso no crescimento, as olheiras, o abatimento e as diarréias constantes. O diagnóstico foi feito depois de exames solicitados por um endocrinologista. No início foi muito difícil. Ela (Isabela) entrou numa dieta radical e tínhamos que trazer produtos de São Paulo a preços muito altos. Na época não havia nada por aqui, conta.
Hoje, Edna recorre a uma loja especializada para comprar bolachas, pães, lasanhas, bolos, chocolates, pão-de-mel. Compramos muitos produtos a base de arroz, diz ela, que também compra pães de uma pessoa que produz para celíacos. Observa, porém, que ainda hoje alguns preços chegam a custar o triplo dos produtos comuns.
O mais difícil, conforme a empresária, é quando a filha vai à uma festa de aniversário. Preparo um marmitex com salgadinhos, bolo, pizza, conta. Ela diz que o lado psicológico também tem que ser levado em conta. Sempre digo à minha filha: valoriza o relacionamento humano e não o que você vai comer ou deixar de comer numa festa, diz. (G.M.)
Aluna da Unopar desenvolve cookie sem glúten
Os portadores da doença celíaca terão em breve mais uma opção de produto. No prazo de um ano, deve estar disponível no mercado um tipo de cookie (biscoito) para quem não pode ingerir glúten. O produto foi desenvolvido pela aluna Priscila Foleis, do 4º. ano do curso de Química Industrial da Universidade Norte do Paraná (Unopar), campus de Arapongas. Apresentado na Feira do Empreendedor, em agosto, em Londrina, o cookie atraiu a atenção de duas empresas de biscoitos uma pequena e outra média , que se interessaram em produzir e já fizeram propostas à universidade.
Nós vamos ter uma reunião com a pró-reitoria de Pesquisa para discutir como viabilizar a transferência de tecnologia. Acreditamos que de seis meses a um ano podemos ter este produto no mercado, explica a professora Claudia Barin, coordenadora do curso de Química Industrial da Unopar. Ela explica que manter o sabor e a maciez são as grandes dificuldades da indústria em fazer produtos sem glúten.
O curso de Nutrição da Unopar também vem trabalhando em cima de produtos para celíacos que possam ser industrializados. A professora Rejane Dias das Neves Souza já desenvolveu macarrão, pizza, panetone e bolos sem glúten. A pesquisa com o macarrão o produto de fabricação mais difícil já está em fase de publicação em revistas científicas e será apresentado no 11 º Encontro de Atividades Científicas da Unopar. O próximo passo é conseguir parcerias com indústrias alimentícias para fabricação.
De acordo com a professora, hoje existem várias farinhas que são usadas em substituição às de trigo, aveia, centeia e cevada. A araruta, fécula de batata e farinha de arroz são as mais usadas. Porém, não contribuem em nada nutricionalmente e possuem uma grande quantidade de amido. A minha intenção é melhorar o valor nutricional dos produtos para os celíacos, explica.


