SUAS COMPRAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Gisele Mendonça<br>Reportagem Local 
Preços dos itens utilizados no preparo tiveram alta de 24,46% nos últimos 12 meses
O hábito de comer feijoada está pesando um pouco mais no bolso do brasileiro. Segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas, os preços dos itens utilizados no preparo do prato tiveram alta de 24,46% nos últimos 12 meses até junho deste ano, enquanto que a inflação (IPC-BR) acumulada no período foi de 5,96%. O aumento mais intenso foi o do feijão (ver matéria nesta página). Apreciadores do prato ouvidos pela FOLHA reclamam, mas garantem que não abandonam a feijoada completa preparada em família. Quem vende o prato pronto tenta segurar o preço para manter os clientes.
Servindo a feijoada todos os sábados há 16 anos, proprietário do Bar Madalena, Centro de Londrina, compra os produtos de atacadistas e negocia os preços para não repassar o aumento. Ele diz que mantém desde o ano passado o prato-feito a R$ 7 e o comercial (para duas pessoas) a R$ 27. No entanto, nos últimos dozes meses, diz que sentiu um aumento de até 30% na costela de porco defumada e nos miúdos suínos salgados (pé, orelha, rabo), além de ver disparar o preço do feijão e do arroz nos últimos meses. São todos itens que não dá para você substituir, não tem jeito. E baixar a qualidade nem pensar, repara. Pelos cálculos do comerciante, seria justo realinhar em 20% os valores das porções de feijoada do bar. Mas na nossa atividade, se subir 20% o pessoal já sente muito. Então, até o final do inverno vamos tentar manter. Mas depois que entrar o calor, não tem jeito. O consumo cai e vamos ter que reajustar, diz Okuzono, que nos sábados de inverno prepara feijoada suficiente para até 300 pessoas, reduzindo a quantidade pela metade no restante do ano.
Quem prepara o prato em casa, não faz outra coisa além de lamentar a alta. A feijoada só é boa com itens de boa qualidade. Você até encontra embutidos mais baratos, mas são aqueles misturados com soja e outras coisas, observa o advogado Maurício Silva, que fazia compras acompanhado da esposa, a professora Adriana Sitta. O casal costuma preparar, pelo menos, uma vez por mês - faça frio ou calor - feijoada para 15 pessoas da família. Eles acreditam gastar, no mínimo, R$ 70 com o prato para o grupo sem contar a bebida. No meu caso, para desencargo de consciência, é só um refrigerante zero, brinca Silva, que também compra miúdos frescos (não salgados) e ferve os demais itens separardos para obter uma feijoada mais leve.
Também adepta da feijoada magra, a dona de casa Dirce Schell Pires diz que não se assusta muito com os preços atuais dos itens para o prato, apesar de ter percebido a alta. Continuo fazendo a minha feijoada completa, com tudo o que tenho direito, conta ela, que escolhe os produtos pela aparência, priorizando a qualidade. Ela calcula gastar até R$ 40 com uma feijoada para seis pessoas, não incluindo o arroz e o feijão.
A empresária Andréia Basseto prefere as marcas mais conhecidas para não errar na escolha dos produtos, mas confessa que não observa os preços. Chego e vou pegando, conta ela, que até faz as compras, mas deixa o preparo do prato em família para a tia.
Feijão subiu 248,42% nos últimos 7 anos
A Fundação Getúlio Vargas utilizou as variações de preços de 13 produtos que compõem a feijoada para calcular a variação média dos itens. Para a fundação, o destaque entre os aumentos de preços dos itens foi o feijão, cuja inflação acumulada nos últimos 12 meses até junho é de 147,46%.
Ainda de acordo com a FGV, no acumulado de julho de 2001 a junho de 2008, dois dos principais ingredientes da feijoada subiram mais do que o IPC-BR acumulado no período (69,41%). É o caso das altas de preços do feijão preto (248,42%) e do arroz (146,76%).
Porém, o economista da fundação, André Braz, comentou que, dos 13 itens pesquisados para o levantamento, sete registraram taxas de inflação menores do que a registrada pelo IPC-BR, de julho de 2001 a junho de 2008. É o caso do limão (68,57%); da cerveja (67,23%), do lombinho de suíno (67,10%), da couve (63,67%), da carne defumada (55,98%), da lingüiça (51,07%) e da aguardente (48,05%).
Ainda de acordo com o economista, além do feijão e do arroz, ficaram acima da inflação do período os aumentos acumulados de preços na laranja pêra (145,49%), na farinha de mandioca (120,69%), na carne seca (106,86%) e na costelinha de suíno (101,89%). (Agência Estado)
Mitos e verdades do prato light
Aferventar as carnes separadamente, colocar uma laranja inteira para cozinhar junto com a feijoada, comer frutas cítricas depois de saborear o prato. Na tentativa de obter uma feijoada mais magra - ou melhor digestão -, muitos recorrem a métodos que ultrapassam gerações. Mas, afinal, o que é verdade e o que é mito? Existe mesmo uma feijoada light?
Dá para dizer que uma feijoada é light quando você tira um percentual de gordura do prato. Assim, fica mais saudável, mas nunca vai ser um prato de baixas calorias, explica a nutricionista Valéria Arruda Mortara. Ela recomenda a fervura das carnes na véspera do preparo do prato. O ideal é manter isso na geladeira porque depois fica mais fácil retirar a gordura por cima, diz.
Ela destaca que a feijoada é um prato gorduroso, mas extremamente nutritivo. O lado negativo é a gordura saturada, de origem animal. Mas é um prato muito rico em ferro, que é um componente fundamental para as células vermelhas do sangue, observa. A principal função da laranja (ingerida durante ou depois da refeição) é propiciar a absorção do ferro, já que a fruta é rica em vitamina C.
Mas ferver a laranja junto com a feijoada é mito. Isso é histórico: as famílias acreditavam que a fruta cortava a gordura, só que não adianta nada, esclarece. Para uma refeição mais completa, a nutricionista indica também a ingestão da couve e molho vinagrete. Assim como a laranja, o vinagrete dá um toque de acidez, que melhora a digestão, além ser uma delícia, diz.
O importante, segundo Valéria, é saborear o prato sem culpa, com moderação. Como? Não repetindo e não exagerando nas bebidas como caipirinha. Ela lembra que o prato deve ser evitado por hipertensos e pessoas com alteração de colesterol. (G.M.)


