O uso do sabão em pó e do detergente líquido traz uma série de benefícios para as donas de casa na hora de lavar roupas ou arrumar a cozinha em suas residências, mas o que quase ninguém percebe é que esta simples atitude pode causar sérios danos ao meio ambiente.

Os produtos usados na limpeza seguem para as estações de tratamento de esgoto e como não são biodegradáveis, não são eliminados neste processo. E o resultado é a formação de um grande volume de espumas quando a água tratada volta aos rios.

O professor e doutor Edson Proni, que dá aulas de Ecologia e Gestão Ambiental para dois cursos na Universidade Estadual de Londrina, sempre leva grupos de alunos para conhecer as estações de tratamento de esgoto. Ele observa que a quantidade de espuma vem aumentando de forma gradativa, colocando em risco a vida dos mananciais.

E, para resolver o problema, o professor sugere que a população consuma apenas o necessário em termos de detergentes e que a indústria fabrique produtos 100% biodegradáveis.

FOLHA: Que tipo de problema o senhor observa nestas visitas às estações de tratamento?
Proni:O que a gente observa nesses últimos anos é o aumento da quantidade de espumas provindas de detergentes e sabão em pó. São os produtos de limpeza que consumimos na nossa casa, no comércio ou na indústria e que chegam às estações de tratamento através da rede de esgoto. E o que acontece lá? Um fenômeno poluente causado pelo que chamamos de detergentes duros e podemos resumir isso como não-biodegradável. As indústrias, na verdade, estariam obrigadas a produzir detergentes e sabão em pó 100% biodegradável, o que seria uma saída interessante na questão ambiental.

Quais os problemas causados por estas espumas?
As espumas, quando chegam aos rios, produzem uma superfície que nós chamamos de impermeabilização, ou seja, que impede a oxigenação dos rios. É um impacto muito grave nos mananciais. A gente está falando de biodiversidade, de desenvolvimento sustentável, mas é uma morte silenciosa dos rios da nossa região. Essa é uma maneira de poluir muito grave.

Por que o senhor considera grave este problema?
O problema se torna muito grave, exatamente, porque não temos uma legislação clara nessa questão dos detergentes. No caso das indústrias, a solução seria a fabricação de biodegradáveis. E nós não temos uma devida orientação do consumidor no que chamamos de educação ambiental. E por que ainda não se produz biodegradáveis? Porque a margem de lucro das empresas é maior com o outro produto. Você precisa de uma tecnologia um pouco mais avançada par produzir um biodegradável e a custo maior de produção. Então, o que estamos vendo é que a lucratividade me parece o principal alvo dessas empresas. Quanto maior o lucro, melhor a suas condições financeiras.

O que deveria ser feito para resolver este problema?
Uma revisão nessa legislação, por ordem dos governos, pelos orgãos ambientais, para uma produção de detergentes biodegradáveis em 100%. Essa seria uma solução viável. É possível fazer isso, só que com uma margem de lucro menor.

Poderia se dizer que a população está sendo enganada ou não sabe diferenciar o biodegradável e o não-biodegradável?
Usamos biodegradável e não-biodegradável, ou compostos duros. Isso, na verdade, é uma confusão. Grande parte da população não tem idéia do que sejam esses termos. Dá a impressão que é um produto que você usa, joga na pia, no banheiro, lava calçadas, lava roupas na máquina de lavar. Os produtos não-biodegradáveis têm uma capacidade de limpeza maior, deixam a roupa branquinha. Eles têm uma capacidade de formar espuma um pouco superior aos biodegradáveis. Mas essa é a questão: preferimos usar um produto com um pouco menos de eficiência, mas sem poluição, ou um produto com eficiência de limpeza, mas altamente poluente? Essa é a pergunta que gostaria de deixar no ar.

A população usa os detergentes de maneira exagerada?
Sim, exagerada. E isto também não é divulgado para a população. Logicamente não há interesse porque quanto mais se consumir, melhor para a indústria, para a cadeia produtiva, para o varejo. Outra coisa importante: qual é a quantidade de detergente que a gente deve usar para lavar uma louça? Se você ver bem, são poucas gotas para se lavar uma quantidade enorme de louças. Mas as pessoas, ao invés de diluir poucas gotas em uma vasilha com água, elas jogam uma quantidade muito grande em uma esponja. E isso, inclusive, pode afetar a saúde delas, porque vai ficar resíduos nos utensílios, nos talheres e até na máquina de lavar louças. Essa é uma outra preocupação porque ainda não se tem idéia de quais os efeitos desses resíduos na saúde da população. Não existe nenhum trabalho mostrando exatamente o que pode acontecer com a saúde das pessoas.

E quais seriam os produtos biodegradáveis?
O percentual de detergentes biodegradáveis é muito pequeno. Aquele sabão caseiro, sabão em pedra, que nós chamamos, que era feito no sítio ou na fazenda, à base de gordura animal e soda, esses sabões, vamos dizer assim, são biodegradáveis. Eles têm uma cadeia de carbono retilínea e as bactérias conseguem quebrar essas moléculas e, aí sim, não têm o efeito poluidor. Agora, os que são produzidos pelas indústrias, têm uma cadeia cíclica que as bactérias não quebram. E essa é uma questão que causa muito impacto ao meio ambiente.

A partir de que momento começa a se formar a espuma?
Os detergentes são produtos muito concentrados. Por isso, temos a formação de espuma a partir de um miligrama do detergente por um litro de água. É só fazer as contas: um frasco de detergente comum de meio litro vendido nos supermercados pode causar espuma em até 500 mil litros de água.

Ou seja, as estações de tratamento não conseguem eliminar todo o detergente?
Não. As bactérias fazem a degradação da matéria orgânica nas estações de tratamento de esgoto e nas lagoas de establização em qualquer lugar do Brasil, mas não conseguem quebrar estes compostos duros dos detergentes. E isso logicamente vai parar nos rios e vai contaminar os mananciais.

Existe um tempo para esses detergentes se decomporem na natureza?
Existem poucos estudos mostrando isso, mas o que acreditamos é que esses produtos podem ficar vários meses ou até mais de um ano no meio ambiente. Eles podem ser degradados de outras formas, pelo sol, pela mudança de temperatura, e pela própria degradação química que vai sofrendo ao longo dos rios.

mockup