SUAS COMPRAS
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quarta-feira, 02 de julho de 2008
Gisele Mendonça<br>Reportagem Local 
A febre do narguilé (ou arguile) no Brasil pode ter passado, mas ainda é grande o número de pessoas que compra o cachimbo de água, típico do Oriente Médio, para utilizar entre amigos ou familiares. Para os adeptos, a vantagem é que, passado o auge da moda, os preços dos aparelhos baixaram em até 50%. É possível, inclusive, encontrar promoção com sorteio.
Um aparelho que custava mais de R$ 100 há poucos meses, hoje pode ser comprado por R$ 79,90 na loja de artigos importados Salamaleico, em Londrina. Na vitrine da loja, um cartaz informa: compre essência e carvão e concorra a um narguilé.
Em geral, os preços variam de R$ 59,90 a R$ 1 mil, dependendo do tamanho, do número de mangueiras e da estética. O aparelho é composto de base (onde se coloca a água), corpo, fornilho (onde vai o tabaco e, por cima, o carvão em brasa) e mangueira (por onde se aspira a fumaça). Além de adquirir o aparelho, é preciso gastar, pelo menos, mais
R$ 10 na compra do carvão e do tabaco com aroma (que as lojas também chamam de essência).
Atendemos muitos jovens e famílias interessados no arguile. Tem gente que compra, inclusive, como peça de decoração. O arguile é um passatempo, é mais para juntar as pessoas, usar sozinho não tem graça, observa o proprietário da Salamaleico, que prefere não se identificar. Os aparelhos que ele vende são importados de países como Egito e Dubai.
Natural do Marrocos e morando no Brasil há oito anos, o comerciante conta que muitas pessoas chegam para comprar o cachimbo sem saber usar. Ele diz que não vende para menores de 18 anos e orienta o uso do narguilé somente com água. Na nossa cultura, só usamos água, pois não altera o gosto do aroma (do tabaco) e não tragamos (a fumaça). Entre os brasileiros, há quem use bebida alcoólica e até leite. Não recomendamos, afirma. Quanto à freqüência, para ele o ideal é usar uma vez por semana.
Para alguns, porém, o narguilé já virou hábito diário. A gente deixa de jogar bola para fumar. Todas as tardes a gente se reúne na casa de um amigo, conta o garçom João Kleber Helene, 18 anos, que comprava tabaco com aroma junto com um grupo de amigos. É uma forma de passarmos a tarde, é diversão, diz Leonardo Kadozawa, 19, também garçom. Todos alegam que não tragam a fumaça do narguilé e nem misturam bebida alcoólica. O grupo gasta cerca de R$ 100 por mês com o tabaco, cujos aromas preferidos são menta e chocomenta. O valor é dividido entre eles.
O estudante Jefferson Casavechia, 24, e o supervisor de produção Fabrício Freitas Bueno, 27, calculam gastar mais de R$ 100 por mês na compra de produtos para fumar o narguilé. Eles têm o hábito de levar o aparelho para bares e festas nos finais de semana. A gente acende e várias pessoas fumam, não só os amigos. É muito legal, é uma forma de conhecer pessoas na noite também, conta Casavechia, que costuma tragar a fumaça aromatizada. Embora compartilhem o narguilé com várias pessoas, ele e Bueno dizem assumir os gastos. O aparelho, por exemplo, eles compraram juntos por R$ 300 no início do ano.
Cachimbo teria origem na Índia
Há várias versões para a origem do narguilé. Uma delas é a de que o cachimbo foi inventado por um médico, na Índia do século XVII, como um método para retirar as impurezas da fumaça. Entre os árabes, foi rapidamente incorporado para ser apreciado em grupo. Existem evidências históricas de narguilés na Pérsia e na Mesopotâmia.
As peças mais primitivas eram feitas com madeira e um coco que fazia o lugar do corpo. Com o desenvolvimento das civilizações e as expansões territoriais, o cachimbo milenar começou a ser difundido junto com especiarias como cravo e canela.
Hoje, é utilizado em muitos países do mundo, em especial no Norte da África, Oriente Médio e Sul da Ásia. Há diferenças regionais no formato e no funcionamento, mas o princípio comum é o fato de a fumaça passar pela água antes de chegar ao fumante. (G.M.)
Faz mais mal do que cigarro, diz médico
O médico pneumologista e geriatra Denison Noronha Freire alerta que o uso freqüente do narguilé pode fazer até mais mal do que o cigarro.Além de todas as substâncias cancerígenas que o indivíduo inala, é anti-higiênico porque passa por várias pessoas, observa. O médico não acredita em quem diz não tragar a fumaça. Todo mundo traga. De um jeito ou do outro você acaba aspirando e aquilo difunfe nos alvéolos (no pulmão).
Em relação à freqüência do uso da narguilé, Freire diz que não existe tolerância. De todo modo faz mal e também vicia. É como o cigarro, ninguém começa fumando vinte por dia, é com o tempo que vai aumentando, afirma o médico.
Na observação de Freire, entre a população dos países onde nasceu a cultura do narguilé, o uso do cachimbo pode não causar os mesmos danos ao organismo. Pelo tempo que eles utilizam, há milênios, já criaram uma certa resistência genética que passa de geração para geração, acredita. (G.M.)


