Um dos principais problemas do mundo moderno é que os pais, de maneira geral, têm excesso de compromissos e pouco tempo para educar e conviver com seus filhos. Por isso, as famílias transferem boa parte desta responsabilidade para as escolas. E sem muita alternativa, as instituições precisam usar a imaginação para se adequar à nova realidade. É neste contexto que as crianças do ensino fundamental de várias escolas estão aprendendo o lidar com o dinheiro e estabelecer prioridades de consumo.
  A coordenadora pedagógica da Escola Mundo Encantado, Ana Valéria Palma Gongora Zorman, explica que o aprendizado sobre o sistema monetário não é uma atividade eventual e sim algo que acontece durante todo o ano letivo. As crianças aprendem noções de valores e são orientadas a elaborar uma lista de compras de acordo com as necessidades da família. ‘‘A professora ensina para as crianças o que o dinheiro representa em nossas vidas e sugere um valor para as compras’’, diz Ana Valéria.
  Segundo ela, as crianças voltam no dia seguinte prontas para a ‘‘aula prática’’ e com valores que variam entre R$ 5,00 a R$ 15,00. E é, então, que entra um dos aspectos mais importantes no processo de aprendizado. ‘‘Na hora da compra, a gente faz com que a criança perceba realmente o que é prioridade, com o objetivo de criar uma consciência sobre a postura que devemos assumir diante de tantas coisas para comprar’’.
  A pedagoga afirma que o conceito de prioridade varia muito de aluno para aluno, dependendo de fatores como a educação que recebe em casa, o exemplo dos pais e as condições financeiras da família. E uma das maiores dificuldades é conter o ímpeto consumista que domina boa parte das crianças. ‘‘A gente percebe isso na sala de aula: a criança ganha um brinquedo e já quer outro. Há um consumismo exacerbado, uma sede muito grande de ter cada vez mais’’.
  Ana Valéria diz que, por causa disso, os professores orientam as crianças sobre a necessidade de se estabelecer limites em tudo para levar a vida de forma equilibrada. ‘‘Eu não vou falar que não é bom consumir, mas eu tenho que consumir de acordo com as minhas possibilidades’’. E neste sentido, as crianças devem perceber as diferenças o mais cedo possível. ‘‘Uma coisa é a família ir para o mercado com poder aquisitivo para comprar tudo o que vê pela frente e a outra coisa é fazer as compras com o dinheiro contado e explicar para a criança que mesmo que ela queira, não há condições’’.
  Mas não é só isso. Além das noções de valores e prioridades, as crianças são educadas também sobre a necessidade da boa convivência social. ‘‘A gente ensina a criança a se comportar direito no supermercado, a não mexer nas coisas, caminhar corretamente, respeitar as filas e esperar a sua vez’’.
  Ana Valéria fica feliz com a receptividade dos alunos e em saber que eles repassam estas informações para suas famílias. ‘‘As crianças assumem uma postura diferente quando estão aqui sob nossos olhos; eu percebo que há uma semente plantada e penso que este é o começo de uma mudança de comportamento’’.

‘Resultados são satisfatórios’, diz pedagoga
  As crianças são levadas ao supermercado em pequenos grupos. No dia da reportagem foram alunos da segunda e terceira séries. A pedagoga Ana Valéria diz que os resultados do trabalho são satisfatórios, mesmo sendo um ‘‘projeto de longo prazo’’.
  Gabriel Morente de Oliveira, 7 anos, estava com uma relação de 12 produtos para comprar e não ficou nem um pouco incomodado ao saber que o dinheiro não era suficiente. Ele resumiu tudo em apenas uma palavra: ‘‘Deixa’’. Para Gabriel, o importante é saber distinguir os alimentos, de acordo com o que aprendeu em sala de aula. ‘‘As coisas que não são boas ficam de um lado e as coisas ruins de outro’’.
  A estudante Carolina Baldo do Nascimento Rodrigues, 9 anos, também levou uma extensa listas de compras e apenas R$ 3,00. ‘‘Com esse dinheiro, vou comprar apenas o óleo e o resto deixo de fora’’. Para ela, as pessoas devem fazer pesquisa de preços antes de irem às compras.
  Ana Valéria cita o exemplo de outro menino que certa vez enfrentou um dilema no supermercado. Ele estava com R$ 5,00 e teve que decidir entre comprar os salgadinhos industrializados e o chocolate que queria ou a farinha e o açúcar que sua avó precisava. ‘‘Nós percebemos o conflito da criança, mas no final ela optou pelo que a família precisava’’. (E.A.)

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