A indústria está substituindo, gradativamente, a gordura trans pelo óleo de palma - produzido em larga escala na Indonésia e na Malásia e que já está entre os mais consumidos em todo o mundo. Porém, o que poderia ser encarado como vitória do consumidor, deve ser visto como motivo de preocupação.

O alerta é do cardiologista Evander Botura, para quem o óleo de palma é tão nocivo quanto à gordura trans. E o detalhe é que o consumidor é informado apenas que alguns produtos não possuem a gordura trans - que tem a função de dar mais sabor e aumentar o prazo de validade dos alimentos -, mas não é orientado sobre a mudança e suas implicações para a saúde.

Como a indústria está substituindo a gordura trans?
A gordura trans vem sendo substituída pelos óleos de origem vegetal. É evidente que neste processo a indústria vai procurar aquele óleo mais barato e que não tenha trans. E um dos mais baratos é o de palma. Muitas empresas de grande porte estão usando este tipo de óleo porque não tem trans. Realmente não tem, mas há algumas características indesejáveis que não fazem do óleo de palma o melhor substituto para a gordura trans.

E quais são essas características?
A gordura saturada é a pior que existe por ser ligada à doença do coração, ao derrame cerebral e ao diabetes. Os óleos vegetais, de maneira geral, têm pouca gordura saturada. Por isso, são melhores. Bons exemplos são o óleo de canola, de girassol, de milho e de soja. Mas há exceções: o óleo de palma tem 51%, e o óleo de coco, 91% de saturados. Ou seja, nós estamos trocando um mal por outro. Então, possivelmente, não estamos fazendo uma boa troca. Os óleos de girassol, de milho, de soja, de canola são melhores do ponto de vista médico, mas sob a ótica econômica são piores porque custam mais caro.

O consumidor tem como diferenciar a gordura trans do óleo de palma?
Não, em termos de sabor. Neste sentido ambos são bons. O consumidor deve ficar mais atento à leitura dos rótulos, ver qual a porcentagem de gordura trans, evitar os alimentos com este tipo de gordura. Mas, um produto que tenha zero de trans e traga só gordura de palma, por exemplo, também não é uma opção muito boa. O consumidor pode achar um produto que tenha outro óleo vegetal melhor para a saúde.

Que males o consumo do óleo de palma pode trazer para o coração?
A doença cardiovascular, que provoca o infarto do miocárdio e o derrame cerebral, é a maior causa de mortalidade no mundo ocidental. Ela tem a participação de vários elementos, mas alguns deles são exatamente os níveis de triglicéris, de colesterol. E a gordura saturada é um elemento muito importante que eleva o nosso nível de colesterol. A recomendação hoje é que você deve ingerir, no total de calorias, menos de 10% de gordura saturada, de preferência em torno de 7%. E o óleo de palma vem na contramão disso.


Seria possível fazer um comparativo entre o óleo de palma e os óleos de origem animal?
A banha, por exemplo, é de origem animal. Todos nós sabemos que ela não faz bem para o coração, pois tem 41% de gordura saturada. E o óleo de palma, embora não seja animal, tem 51%. Ele tem um apelo de marketing muito grande, que é não ter colesterol. Mas isto não quer dizer que seja um alimento recomendado. É isto que falta, às vezes, para o consumidor entender.

Então, o consumidor está sendo enganado?
O que a indústria está fazendo está dentro da lei. Esse alimento, realmente, não tem trans, e isso foi uma vitória. O ideal, porém, seria procurar uma melhor substituição. A indústria se apega muito à questão financeira e talvez a saúde fique em segundo plano.

Existe a possibilidade de o óleo de palma ser vendido no Brasil tal como o de soja?
O Brasil é o maior produtor de óleo de soja do mundo. Não creio que ele vá ser substituído no Brasil. Mas em termos mundiais, o óleo de palma é a fonte de renda para milhares de empresas, de famílias, de cidades. No nosso meio, não é tão popular justamente porque o mais conhecido é o de soja.

O que mais a população deveria saber sobre o óleo de palma?
Os maiores produtores deste produto são a Indonésia e a Malásia, que respondem por mais de 80% da produção mundial. Das Américas, o campeão é a Colômbia. Em 2004, o mundo produziu mais de 24 milhões de toneladas de óleo de palma. Alguns especialistas dizem que ele já passou o óleo de soja em produção mundial. Tem uma grande importância econômica, inclusive, para o biocombustível. É um óleo de países pobres em regiões da África e da Ásia e, por isso, tem um aspecto social importante. Existe uma questão muito ampla quando se fala neste produto, muito mais que o aspecto de saúde, social ou econômico.

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