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Cerca de 80% do mel consumido no Paraná é adulterado. A conclusão é do professor Edson Proni, doutor na área de Ecologia de Abelhas na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ele faz testes com frequência para comprovar se o mel é puro ou não, mas esclarece que a análise não é oficial. Proni afirma, entretanto, que em outras regiões do Brasil o índice de adulteração é ainda maior.
De acordo com o professor, a existência do mel adulterado se deve à falta de fiscalização do governo no setor, assim como acontece com as carnes, por exemplo. Mas há uma boa notícia: um teste muito simples pode detectar se o mel é verdadeiro ou não. O certo, porém, é que todo cuidado deve começar mesmo é na hora da compra.
FOLHA:O que consumidor deve fazer em primeiro lugar na hora de comprar mel?
Proni: Ele deve observar bem a aparência quando for comprar o mel em um supermercado ou em outro lugar. O mel nunca é totalmente transparente. Ele é mais ou menos opaco. A cor do mel não evidencia se ele é puro ou não.
Então não é possível identificar a qualidade do produto visivelmente?
Não. Mas se estiver muito transparente, não leve. Se o consumidor achar que o mel não é confiável, ele tem a alternativa de fazer um teste com a solução de iodo a 2%, que pode ser comprado em qualquer farmácia. Pega-se uma colher de mel e uma colher de água, mistura bem, e adiciona três gotinhas de iodo. Se o mel ficou claro, ele não tem a adição de açúcar, amidos e outros produtos.
Que outros produtos seriam esses?
Existem falsificadores que estão adicionando aromas de eucalipto, de baunilha. Isso é um problema sério porque ao mel não deve ser adicionado nada. O mel é um produto pronto para o consumo, não precisa de conservantes, não precisa nada. Ele já tem características de conservação natural.
Isto significa que o mel com sabor pode ser falso?
Quando você olha no rótulo e vê adicionado qualquer produto desses, não leve. O que se tem feito é para induzir o consumidor. É jogar um sabor de menta, de baunilha, de eucalipto. E o consumidor, desinformado, vai comprar um produto falsificado.
Esse índice de adulteração é alto?
Nós não temos estatísticas do índice de adulteração no Estado do Paraná, mas as análises que faço em amostras de mel de venda de estradas, em postos de gasolina e em supermercados, chegam a um nível próximo de 80%. É importante frisar que este índice não é oficial e se refere a amostras que a gente já coletou em vários anos. No interior de São Paulo e no Sul de Minas o índice de adulteração chega a 90%. E a pessoa tomando mel adulterado corre sérios riscos de ter uma intoxicação mais grave ou um problema mais sério de saúde.
E qual é a proporção de mistura?
Não existe uma proporção. Normalmente o que a gente vê são verdadeiros absurdos. Você quase não tem mel. Você tem a glucose, que é um açúcar de milho, ou de cana, que tem a textura do mel; mistura um pouquinho de própolis, para dar o aroma, pode por um pouco de baunilha. São várias formas de se adulterar. Tanto é que existe mel no mercado que não é mel. Tem produto que é só glucose de milho. A glucose é barato no mercado, um quilo custa R$ 1,50 ou R$ 2,00. E o falsificador vende o mel a R$ 14 ou R$ 15 o quilo. É um lucro muito alto. Outra coisa: as pessoas que fazem essa adulteração sem higiene alguma.
Ou seja, ainda coloca em risco a saúde da população?
Isto é uma questão de saúde pública, inclusive.
E como está o consumo de mel no Brasil?
O nosso consumo de mel não é tão alto como em outros países. O Brasil produz hoje cerca de 37 mil toneladas por ano e metade desse mel é exportado.
Por que o Brasil produz e consome pouco mel?
Por vários motivos. O primeiro é a questão cultural. O brasileiro não assimilou bem a questão do consumo do mel para adoçar um cafezinho, adoçar um suco, para fazer um doce. Ele usa mais o açúcar cristal, o açúcar refinado ou mascavo. O mel é um produto que a pessoa utiliza quando está com um resfriado, com uma gripe ou adiciona ao leite se a criança está com algum problema, mas não é um consumo do dia a dia da maioria das pessoas. Isso poderia ser mudado se houvesse uma intensa publicidade na mídia falando da capacidade terapêutica do mel.
E quem deveria fiscalizar a adulteração do mel?
A fiscalização deveria partir do Ministério da Agricultura, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Esses órgãos são os responsáveis pelas análises de todo produto de origem animal. Na legislação, você tem as portarias que normatizam o mel. Só que na prática, esse serviço não existe.
E se você descobre que o mel tem traços de agrotóxicos, esse produto deveria ser embargado, ver a origem e impedir a sua comercialização, mas isso também não é feito. Ninguém sabe o teor de resíduos de agrotóxicos que a gente tem no mel atualmente.
Ou seja, em termos de apicultura estamos bem longe do ideal?
Nós estamos numa forma bem amadora nesse quesito de controle de qualidade como existe para outros produtos.
E quanto ao mel vendido na rua, em eventos e na feira livre?
Se você não conhece o apicultor e não sabe a origem do produto, é melhor não comprar porque aí também mora o perigo. Isso também eu não recomendo. Com relação ao mel vendido em feira livre e eventos é a mesma coisa. Temos que tomar todo cuidado. Você não tem nenhuma garantia de que aquele mel realmente é puro, que aquele mel tem características normais. O que eu indico é o mel que tenha o carimbo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), que tenha a procedência, que a empresa seja idônea.
O carimbo do SIF é uma garantia?
Nem sempre. O consumidor deve entrar na página do Ministério da Agricultura e conferir o número do SIF.
E a questão da cristalização do mel?
Ela é um aspecto importante. Se o mel cristalizar, significa que ele é puro. Ele cristaliza em temperaturas mais baixas, no inverno ou se você colocar na geladeira. A partir de 30 dias até 90 dias, ele pode se cristalizar. A pessoa pode consumir o mel assim, normalmente. Se não gostar, ela pode fazer o banho maria em uma panela com água com a temperatura que não pode ultrapassar 45 graus. Se passar dessa temperatura, você destrói as qualidades terapêuticas do mel.
Como o mel deve ser conservado em casa?
A melhor maneira é colocar na geladeira porque suas propriedades serão mantidas.





