Os videogames se transformaram em uma das principais opções de lazer do mundo moderno. Crianças e adolescentes gastam boa parte de seu tempo com estes jogos. Mas o que deveria ser uma alternativa de entretenimento, é também motivo de preocupação para pais e educadores. É que os videogames com conteúdo violento estão entre os preferidos dos consumidores, independente de idade. Este fato, porém, desperta a atenção de algumas famílias que reagem contra a onda de violência e mostram que é possível se divertir sem apelar para tiroteios e atropelamentos, mesmo que de forma virtual.
As irmãs Lais Fernanda e Giovana Larissa se únem às primas Ana Carolina, Isabela e Rebeca para uma brincadeira que está se tornando comum entre as meninas: todas gostam de videogames. E o casal de microempresários Miguel Alves Machado e Maria Cleonice não apenas dá o maior apoio, como também participa das brincadeiras. Embora tudo transcorra num clima de aparente liberdade, há uma restrição muito clara: os pais não permitem jogos que simulam violência, o que é aceito sem problemas pelas filhas e sobrinhas. ''A gente tem a preocupação com jogos violentos porque a violência gera violência. Se a criança se acostuma com coisas violentas, ela pode chegar à escola e achar que é normal chutar um amiguinho'', afirma Maria Cleonice.
Lais gosta de videogames desde quando tinha apenas cinco anos de idade e Giovana segue o mesmo caminho, mas o tempo para a brincadeira sempre foi limitado. ''A gente procura conciliar os jogos com as atividades da escola e da igreja. Por isso, elas brincam com mais frequência nos finais de semana e nas férias escolares'', diz Miguel Machado. Segundo ele, como há esta forma de controle, os jogos não interferem nos estudos ou em outras atividades. ''Nós deixamos bem claro que em primeiro lugar está a responsabilidade, depois a diversão'', explica. E se mostra feliz com o resultado. ''As meninas são muito obedientes; são filhas e sobrinhas exemplares''.
O dentista Everson Utida reserva um tempo, quase todos os dias, para brincar com seu filho Nataniel, 6 anos. ''Nós brincamos juntos entre meia hora à uma hora, mais ou menos, dependendo da vontade dele, que não tem muita paciência de ficar mais tempo no jogo''. O interesse do menino por videogame começou quando ele tinha apenas um ano de idade, mas foi a partir dos cinco que começou a brincar efetivamente.
Utida se preocupa com os tipos de jogos que compra porque acha que o conteúdo exerce grande influência na formação da criança. ''A sociedade hoje está mais violenta e acredito que alguns tipos de jogos incentivam a violência na escola ou no convívio com outras pessoas; por isso, não compro jogos de tiros e atropelamentos, que a moçada gosta tanto''.
Na opinião do dentista, os jogos são muito importantes para melhorar a convivência entre pais e filhos e não precisam ser violentos para serem interessantes. ''O jogo bem escolhido incentiva o raciocínio da criança, estimula a agilidade e a faz pensar mais rápido diante de certas situações''.

Tecnologia ajuda no desenvolvimento da criança
  A psicopedagoga Dorotéia Múrcia Souza afirma que o videogame tem um papel importante no desenvolvimento da criança, de maneira geral, desde que sejam observados alguns aspectos.
  Ela explica que a sociedade atual vive um momento de muita insegurança, o que interfere no comportamento das pessoas. ‘‘As crianças não podem mais brincar na rua ou irem a pé para a escola e, por isso, os pais incentivam outros meios de diversão’’. E é neste contexto que entram os videogames, que permitem à criança brincar tanto sozinha, na companhia de outras pessoas ou pela internet. ‘‘Essa é uma característica da nossa era, a pós modernidade’’.
  Dorotéia considera o videogame tão necessário que faz questão de deixar os jogos disponíveis em uma sala de seu consultório. ‘‘As crianças com algum déficit de atenção ou algum transtorno, respondem muito bem ao videogame e ao computador, que causam estímulo com muita rapidez e se parecem com a aceleração cerebral que a criança tem’’. Ela usa o videogame para trabalhar o que define como ‘‘raciocínio lógico e dedutivo’’ das crianças.
  Quanto aos chamados jogos violentos, ela afirma que realmente existem os que ‘‘influenciam a personalidade da criança e, às vezes, até passam esta mensagem de forma subliminar’’. A psicopedagoga reconhece que ‘‘alguns destes jogos podem estimular a criança a ter uma conduta mais agressiva e pensar que os problemas podem ser resolvidos com estas atitudes’’, mas destaca que isto não acontece com todas as crianças.
  Dorotéia diz que a criança pode ter problemas em distinguir a realidade da fantasia se for muito exposta a jogos violentos. ‘‘Como a criança faz tudo por imitação, ela também pode agir como um personagem do jogo’’.
  Por isso, ela considera necessário que os pais exerçam um controle efetivo sobre o videogame, aproveitando o que há de positivo. ‘‘É importante que os pais participem da compra, procurando os jogos de estratégias que estimulem o pensamento’’. De acordo com Dorotéia, os jogos podem melhorar, e muito, a convivência entre pais e filhos.
  Ela sugere, inclusive, o game ‘‘Os Náufragos’’, em especial para crianças e adolescentes com idade entre 9 e 15 anos. ‘‘O jogo apresenta diversas formas de sobrevivência e estimula a criança a buscar alternativas inteligentes para resolver os problemas da vida’’. (E.A.)

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