Antes, a margem de lucro era menor, mas o giro de mercadoria era maior

O último aumento do preço do óleo diesel deixou irritado quem depende do combustível para trabalhar. Há três semanas, o litro passou a custar em torno de R$ 2. As pessoas comparam o momento atual com experiências vividas há mais de 10 anos. A reclamação é que antes, a margem de lucro era menor, mas o giro de mercadorias era bem maior; e hoje, há necessidade de se aumentar a margem de lucro porque o volume de vendas é menor. Nesses últimos dias, há setores que ainda fazem as contas para se adequar aos novos tempos.
O empresário e fruticultor Luiz Décio Caberlin tem um sítio no distrito de Guaravera (50 quilômetros de Londrina), e um sacolão no centro da cidade. Ele tanto leva algumas frutas para vender na Central de Abastecimento de Londrina (Ceasa) quanto busca várias mercadorias no local. Caberlin está no ramo desde 1966 e nunca havia observado o óleo diesel tão caro como agora. ''Me lembro que a gente comprava três litros de diesel com o que pagava na gasolina, mas hoje a diferença entre os dois está muito pequena''.
O empresário acredita que boa parte da população ainda não assimilou a nova realidade. ''A gente está meio perdido, mas é claro que isto vai interferir nos negócios''. Ele afirma que precisa vender 36 caixas de poncan a R$ 7,00 para abastecer seu caminhão com 120 litros de óleo diesel.
O distribuidor Jovair Mendes busca mercadorias no Estado de São Paulo três vezes por semana para vender na Ceasa de Londrina. Segundo ele, o último aumento do óleo diesel complicou ainda mais a situação. ''O movimento está fraco, as vendas caem a cada dia, o que diminui a margem de lucro; e se você repassa os aumentos, as vendas caem ainda mais''.
Mendes trabalha no setor há oito anos e diz que precisa fazer muita ginástica para não ter prejuízo. ''O setor de hortifrutigranjeiro trabalha com produtos perecíveis e, se sobra mercadoria, você tem que baixar o preço para não perder''. Na opinião do empresário, o preço do óleo diesel deveria voltar ao que era antes para a situação melhorar. ''Seria bem melhor para todo mundo, em especial para o consumidor, se o diesel fosse mais barato''.
O setor de transporte de estudantes também se sente prejudicado com o aumento. ''A nossa situação é delicadíssima'', resume Wilson Teixeira, dono de duas vans. Ele está neste ramo desde 1974 e durante 20 anos trabalhou com kombis movidas a gasolina. ''A manutenção era bem mais em conta, e a mensalidade era quase a mesma que os pais pagavam nos colégios''.
Teixeira diz que hoje a manutenção dos veículos custa bem mais e o valor da mensalidade fica em torno de R$ 120,00, o que corresponde a cerca de 25% do valor das mensalidades das escolas particulares. ''A defasagem é muito grande porque a gente não tem como repassar o aumento para o consumidor'', afirma. Segundo ele, isto pde agravar a situação dos transportadores de estudantes em Londrina porque a CMTU estabelece o limite máximo de 10 anos para os veículos que trabalham nesta área.
A presidente da Associação de Transportes de Escolares de Londrina, Marlene Petrachin, diz que o aumento no óleo diesel realmente ''deu uma quebrada violenta no setor''. Ela afirma, porém, que a categoria esteve reunida há poucos dias e decidiu não repassar o reajuste aos usuários porque as famílias teriam dificuldade em assimilar o novo aumento.

Preço pode superar o da gasolina
  ‘‘A possibilidade do preço do óleo diesel superar o preço da gasolina no Brasil nunca foi tão real; é apenas uma questão de tempo’’. A afirmação é do presidente do Sindicato dos Revendedores de Combustíveis no Estado do Paraná, Roberto Fregonese.
  Segundo ele, o preço dos combustíveis no Brasil ‘‘está fora da realidade’’ em comparação com o mercado internacional. Fregonese diz que a defasagem chega a 30% e, portanto, o reajuste no preço do óleo diesel poderia ser ainda maior que o registrado no começo deste mês. Atualmente, o litro do diesel custa entre R$ 1,99 e R$ 2,09 nas bombas, mas pelos cálculos do empresário deveria custar pelo menos R$ 2,30.
  Fregonese explica que o diesel sempre custou em torno de 60% do preço da gasolina porque o diesel é subsidiado pelo governo federal. Hoje, o preço do diesel está bem próximo do preço da gasolina. Em vários postos a diferença é de apenas 10%.
  O problema, de acordo com o empresário, é que 54% de todo combustível consumido no Brasil, independente da origem, é óleo diesel. Ao ser indagado se haveria a possibilidade do produto voltar ao preço praticado no mês de abril, ele foi categórico: ‘‘Em hipótese nenhuma’’. (E.A.)

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