A busca por uma alimentação saudável muitas vezes coloca as nutricionistas e os supermercados em lados opostos. É como se fosse a luta do bem contra o mal: de um lado, o incentivo ao consumo; e de outro, o apelo para a moderação. No meio, ficam os consumidores, que recorrem aos mais variados tipos de dietas para resolver seus problemas.
A nutricionista Beatriz Ulate se mostra preocupada com a quantidade de dietas divulgadas tanto em programas de TV quanto em revistas especializadas. Segundo ela, o excesso pode confundir as pessoas, causando uma certa ''paranóia'', ao invés de ajudá-las.
Que tipo de associação a gente pode estabelecer entre nutrição e consumo?
Às vezes, a gente acha que a nutrição é uma ciência meio ingrata. Hoje em dia, todo o marketing do mercado é feito estimulando o consumo. E, por outro lado, vem a nutrição, dizendo vamos restringir ou vamos moderar. Normalmente, o mercado em si não é muito favorável a isso. Eles preferem estimular o consumo. Hoje, o que existe em relação ao consumo é o seguinte: a população de maneira geral está mais consciente do que consumir e como consumir e a própria indústria de alimentos está preocupada com isso. Ela realmente estimula o consumo, mas está voltando esse consumo para uma área mais saudável. E isso é um ponto farovárel para o consumidor.
Por que o desenvolvimento da nutrição como ciência coincide com o processo de urbanização?
Foi a partir desse momento que a ciência da nutrição começou a crescer. Foi a partir da década de 1970 que surgiram as grandes cidades. A partir daí, o que aconteceu? As pessoas que viviam na zona rural tinham uma alimentação de melhor qualidade. Não existia o fast food, o ritmo de vida era diferente. O êxodo rural causou mudanças de hábitos. As pessoas que vinham da zona rural se deslumbravam com as coisas que tinha no mercado, o consumismo aumentou. E, ao mesmo tempo depois, associado a isso, começou a aparecer uma série de doenças que não havia com tanta frequência no meio rural. São doenças que sempre existiram, mas o número de pessoas afetadas por elas era bem menor.
Com o êxodo surgiu também a vida sedentária...
Com certeza. Associou-se o aumento do consumo com uma mudança muito drástica de vida. O único exercício que a maioria das pessoas faz hoje é pisar no acelerador do carro ou usar o controle remoto. A qualidade de vida piorou porque a atividade física diminuiu. Às vezes, as pessoas comentam, os meus avós comiam dessa maneira, comiam essa quantidade e não tinham problemas. Mas eles tinham um estilo de vida muito diferente do nosso. Eles tinham atividade física, não tinham o estresse que a gente tem hoje, não enfretavam a poluição que a gente enfrenta. Houve uma mudança muito grande também em função disso.
Mas é possível afirmar que os consumidores, de maneira geral, estão mais conscientes, ou ainda não?
Não sei se é consciência porque a gente tem um pouco de dificuldade de medir consciência. Mas eles estão mais preocupados. A pessoa estar preocupada não quer dizer que ela esteja consciente. Ela pode estar preocupada porque está havendo problemas com algumas doenças, mas será que ela tem a consciência de que ela precisa mudar? Toda a vez que a gente fala de consciência, a gente está falando de mudanças. E falar de mudança, principalmente de hábito alimentar, é muito complicado porque tudo na nossa vida a gente depende de outras pessoas. E o hábito alimentar é a única coisa que a gente faz por vontade própria.
Os meios de comunicação, especialmente a TV, às vezes transformam o assunto em uma paranóia, ou seja, se a pessoa for seguir tudo que ouve não come mais nada. É esta a realidade?
Exatamente. A paranóia existe porque são muitas informações dadas ao mesmo tempo e nem todas as informações valem para todas as pessoas. Existem casos e casos, situações e situações. O excesso de informação é importante, mas as vezes as pessoas não sabem como filtrar isso. A paranóia é um ponto ruim porque as vezes as pessoas tomam caminhos errados, levam para o lado do modismo. Hoje, é moda isso, amanhã é aquilo e as pessoas vão assim. Esse é o problema. Elas não conseguem formar um hábito alimentar que seja saudável exatamente em função dessas paranóias.
E por quê está tão em moda os livros e revistas sobre dietas?
É a história do modismo. Uma pessoa, principalmente um artista, fez uma dieta e tem um resultado positivo. Então se coloca isso na mídia, mas se coloca apenas a dieta e não tudo o que ele fez associado à essa dieta. É aquela história: de nutrição todo mundo acha que sabe porque é uma coisa muito associada a alimento. A gente sempre diz: uma dieta é própria e específica para cada um e o que eu faço, muitas vezes, não serve para uma outra pessoa. Então, a gente tem que tomar muito cuidado porque as revistas, muito mais que livros, nem sempre passam por um crivo um pouco mais científico. Muitas vezes essas dietas que as pessoas pegam e fazem por conta própria, se associada a algum problema de saúde, pode piorar ao invés de melhorar a situação do indivíduo. As pessoas acham que fazer dieta é uma coisa muito simples, mas não é. A gente tem que prestar atenção no que está fazendo, procurar informação e jamais fazer porque é moda ou porque um falou ou outro falou.
É não fazer por conta própria...
Nunca. A pessoa deve sempre procurar o profissional responsável, que no caso específico de dieta, o mais indicado é um nutricinista, com certeza. É o único que tem conhecimento para fazer todas as orientações, todas as recomendações.
A gente percebe que uma boa parte das pessoas tem dificuldade em relação à quantidade de calorias a ser consumida. Como isso poderia ser simplicado para que as pessoas entendam isso mais facilmente?
É muito complicado. Cada indivíduo é um indivíduo. A gente faz uma média da necessidade calórica, dependendo da idade, da atividade física, do sexo, mas o que a gente sempre diz é: o organismo sempre dá um sinal. E a gente tem que aprender a respeitar. Todo mundo sabe, no fundo no fundo, quando chegou a hora de parar, mas a gente sempre tem aquela coisa de 'vamos um pouquinho mais'. Então é tomar uma atitude: vou começar a fazer, fazer de verdade e levar a sério o que você está fazendo, mas não se preocupar só com quanta caloria tem isso, porque isso leva a uma certa paranóia. A medida para cada um é respeitar o seu limite, todo mundo sabe o seu limite. É aquela bendita palavra que muita gente não gosta, mas é a moderação.
E por quê os nutricionistas usam sempre a palavra moderação?
Moderação para que as pessoas entendam que não tem nada proibitivo. Muita gente acha que fazer dieta significa proibir. A não ser em alguns casos, se houver realmente restrições. Jamais vou dizer a um diabético consumir açúcar com moderação, isso não é uma verdade. O que você deve é saber consumir com moderação. É aquela história: comer para viver e não viver para comer. Essa é uma frase perfeita, que cabe em qualquer momento, em qualquer situação. Então a palavra moderação é exatamente para mostrar que a nutrição em si, não é proibitiva. A gente estimula as pessoas a consumir o maior número de alimentos possível, mas com uma quantidade menor. A moderação é neste sentido.

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