SUAS COMPRAS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de março de 2008
Eli Araujo<br>Reportagem local 
É tradição entre os católicos substituir a carne vermelha por peixe no período da Quaresma e Semana Santa, inclusive como forma de ''penitência''. Mas o arcebispo de Londrina, dom Orlando Brandes, diz que a simples troca de produto não caracteriza jejum. Segundo ele, o verdadeiro sentido do jejum não é a ausência de consumo, e sim a ajuda ao próximo.
Dom Orlando condena, também, o consumismo. Ele considera que o consumo em excesso é um dos males da sociedade moderna e a principal causa da concentração de rendas. Por isso, propõe a adoção de um novo modelo de economia, onde a principal característica seja o acesso de todos aos bens essenciais à vida.
Qual o significado do jejum?
O jejum é um ato penitencial, num primeiro momento. Jesus Cristo deu sua vida pela nossa salvação no sacrifício da cruz. Então, nós também respondemos com sacrifício, com penitência de nossos pecados. Não precisamos apenas do perdão dos pecados, mas também do perdão das consequências do pecado. Fazendo jejum, a gente também faz uma reparação das consequências de nossos pecados, que são muito grandes na sociedade, na família, na comunidade ou para nós mesmos. O jejum ainda tem um sentido espiritual, além de fazer bem à saúde.
Quais os dias que a Igreja recomenda o jejum?
A Igreja diminuiu muito o jejum. Há pessoas que fazem jejum toda sexta-feira da Quaresma ou todas as sextas feiras do ano. Para a igreja, há obrigação em apenas dois dias: a Quarta-Feira de Cinzas e a Sexta-Feira Santa.
Fala-se muito em abstinência da carne vermelha. Como surgiu essa necessidade?
A carne aqui é simbólica. Os pecados da carne, a fraqueza da carne, isso significa, um pouco assim, a sensualidade, a gula, a gente se desfazer daquilo que é melhor. Vai muito na linha das paixões. Mas em um primeiro momento é a gente se desfazer daquilo que é mais apetitoso, no caso a carne que é um dos alimentos mais apetitosos que nós temos.
Nesta época aumenta muito o consumo de peixes frescos, bacalhau... A igreja tem alguma recomendação neste sentido?
Aqui é preciso um pouco de coerência. Se a gente faz o jejum da carne, no sentido de ajudar o próximo, de fazer a penitência, de se santificar, de crescer espiritualmente, mas você tem um prato mais apetitoso do que o da carne vermelha que é o camarão ou o bacalhau, isto não está dentro do espírito da penitência. Você está gastando mais, consumindo mais exatamente no dia da penitência, que seria para gastar menos. É preciso que o jejum não seja apenas um tradicionalismo ou uma nova forma de consumismo de outros alimentos mais caros.
Por que o senhor tem se manifestado que é radicalmente contra o consumismo?
O consumismo não faz bem a ninguém. Faz mal à saude, à comunidade, à sociedade. O consumismo virou uma divindade hoje. Ele faz a cabeça da criança desde o útero materno e ela vai ser uma das grandes consumidoras pela vida toda. Se nós mudarmos a sociedade consumista, nós vamos ter alimentos para os pobres, vamos ter outro tipo de economia, nós seremos menos materialistas e muito mais fraternos. O consumismo é um dos males da sociedade atual. E não podemos assumir o consumismo como uma virtude moderna, como o único caminho que existe, porque nós sabemos que o mundo pode ser diferente, deve ser diferente.
O consumismo é uma forma de exclusão?
O consumismo, no fundo, é o motor principal da divisão de classes. Ele faz com que os ricos sejam mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. O consumismo está provocando novas pobrezas na sociedade e está fundamentado na globalização. Uma coisa puxa a outra. O que nós precisamos é de uma nova economia. Exatamente por causa desse consumismo nós depedramos a natureza, passamos a ter problemas de obesidade, de pobreza. O consumismo olha sempre o lucro e não o lado social de uma nação, de um país ou da própria humanidade.
Que tipo de modelo de consumo o senhor acha que seria justo?
A Doutrina Social da Igreja diz assim: Deus criou os bens da terra para todos e não para alguns. A gente vê o problema da água hoje. Nós comercializamos a água; nós não deveríamos comercializar a água. A água é de Deus, é da terra, é de todos, é nossa, é um bem natural. A própria propriedade privada tratada como um bem absoluto não existe na doutrina da Igreja. Temos direito a ter propriedades privadas, mas não podemos justificar, por isso, o latifúndio. Então, nós temos que repensar o latifúndio, a reforma agrária, os direitos dos indígenas, dos negros, dos pobres, dos operários. Existe a possibilidade de uma economia diferente. Vemos tantos exemplos de reciclagem, de alternativas que vem do povo e não dos governos. A atual economia é concentradora de rendas. Ela enriquece os mais ricos e sempre empobrece os mais pobres. A fome e a miséria não são uma questão geográfica, é uma questão política.
Eliminar a fome depende então da boa vontade dos governantes e do poder econômico?
Claro. A economia está na linha das decisões políticas. Cabe à política ser uma política do bem comum e não uma política de interesses pessoais. A economia e a política andam juntas. As decisões econômicas sempre dependem de decisões políticas. Por isso, se nós propomos uma economia diferente, nós temos que também pensar em uma política diferente. E o que é essa política diferente? É a política de se administrar o bem comum, é pão na mesa para todos, é dignidade para todos, é vida para todos.
A Páscoa é a data mais importante da Igreja, mas o Natal é a data mais comemorada. Por que isto acontece?
Há uma influência muito grande do comércio, que explora muito o Natal por ser fim de ano, estar ligado às férias. E o Natal foi muito corrompido. O Natal tem um lado mais festivo, mais alegre do que a Páscoa, porque a Páscoa é antecidida pela Quaresma, que é um tempo de penitência, um tempo de cruz. A Ressurreição é a grande notícia, é a maior notícia, mas ela tem que passar pelos caminhos da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
E quais são as recomendações da Igreja para a Semana Santa?
Antes de tudo, que não seja um feriadão. A Semana Santa é a maior festa da cristandade porque nenhuma religião no mundo prega a Ressurreição do seu Deus que tenha morrido. É algo original no cristianismo. E essa é a grande esperança da humanidade. A morte não tem a última palavra na vida humana. É a vida que vai vencer, é o bem que vai vencer, é a justiça que vai vencer.


