A gordura trans está presente na vida das pessoas muito mais do que elas imaginam. O assunto é muito comentado, mas ainda é pouco conhecido dos consumidores.

A gordura trans é produzida quando o óleo vegetal passa pelo processo de hidrogenação, que deixa o produto com uma forma mais consistente. É um recurso usado pela indústria para prolongar a validade dos alimentos.

Há um consenso, de que apenas os alimentos industrializados - como por exemplo os biscoitos, as margarinas e os congelados, possuem gordura trans. Mas a realidade, porém, é muito diferente. A professora Rejane Dias Neves Souza, doutora em Ciência de Alimentos, explica que o simples fato de se fritar um bife ou uma porção de batatas transforma o óleo em gordura trans.

A gordura é considerada a maior vilã da alimentação, mas, apesar disso, é impossível viver sem ela. ''O nosso organismo não funciona sem gordura. O que eu preciso é controlar a quantidade'', diz Rejane.

FOLHA:Como a gordura trans está presente em nossas casas no dia-a-dia?
Rejane:A gordura trans é a modificação da gordura naturalmente presente nos alimentos após o processamento destes produtos. Há uma transformação na sua estrutura química. Em casa, nós processamos os alimentos. Por exemplo: eu coloco a batata para fritar. A partir do momento que eu aqueço o óleo, a batata sofre o processo de fritura e essa gordura vai se transformando em gordura trans. Portanto, a minha batata frita tem gordura trans. Qualquer alimento que tenha presente a gordura insaturada na sua composição, passa a ter a gordura trans, sempre, após o processamento.

Há também variação de acordo com o peso do produto?
Sim. O pão de queijo é um exemplo de alimento rico em gordura. Consequentemente, vai aparecer gordura trans. O que o consumidor tem que verificar é que, às vezes, a porção deste pão de queijo que é muito pequena, uns 15 gramas, a quantidade de gordura trans aparece no rótulo como zero. Porém, se for uma quantidade maior, 25 ou 40 gramas, aumenta a quantidade de gordura trans em razão de haver um peso maior. Ou seja, se o consumidor comer três pãezinhos de 15 gramas, ele está comendo gordura trans. Nem sempre estar escrito zero de gordura trans no rótulo de um produto significa necessariamente que ele é zero. Temos que prestar atenção sempre na quantidade.

Então, não é muito confiável essas embalagens com zero gordura trans?
Não é o fato de não ser confiável. Os rótulos devem ser confiáveis, pelo menos é o que se espera em respeito às normas da Anvisa. O produto pode ser zero em função da porção que o fabricante estabeleceu para consumo. Mas, normalmente, o consumidor não se atenta a isso.

Deve ser um pouco difícil para o consumidor ter noção da quantidade certa?
Acredito que seja mais difícil ainda porque a maioria das pessoas nem sabe direito o que significa o termo gordura trans. É importante o consumidor ficar atento. Como a gente já consome gordura trans nos próprios processos que fazemos em casa, a gente deve tomar cuidado com a quantidade de alimentos processada. Não é só a gordura trans que é importante, mas o teor de gordura como um todo. A gordura trans, é claro, vai trazer muito malefício para o organismo, porém a quantidade de gordura como um todo deve ser sempre pensada em relação ao que o organismo realmente necessita.

Já que é difícil, como o consumidor deve proceder?
Acredito que o consumidor deve sempre ter bom senso. O quer nos faz mal é o excesso. Nós precisamos consumir gorduras. O nosso organismo não funciona sem gordura. O que eu preciso é controlar essa quantidade. E a única maneira de controlar é comendo de tudo um pouco. Uma coisa importante na hora que o consumidor vai fazer suas compras, na hora que ele vai colocar uma refeição sobre a mesa, não importa se é o café da manhã, o almoço, o jantar ou o lanche, é que essas refeições sejam sempre coloridas. Quando eu tenho uma refeição colorida, eu recebo um pouco de cada alimento.

A criança merece um tratamento diferenciado em relação à gordura trans?
Exatamente. O que nós fazemos na infância vai repercutir para o resto da vida. Comer gordura trans não significa que eu vou comer hoje e passar mal amanhã. Não é igual a intoxicação alimentar que eu como e passo mal de imediato. Com a gordura trans é ao longo da vida. O que eu consumo desde a infância vai aparecer na vida adulta e na velhice. É lá que a gente vai apresentar problemas de doenças cardiovasculares, porque vai ter aumento da incidência do colesterol ruim, vai provocar infarto e até um derrame, alguma coisa neste sentido.

Tem como evitar o consumo de gordura trans?
Totalmente não. Seria impossível.

Existe um limite tolerável?
O que se fala muito é no máximo em dois gramas por dia. Mas está havendo muita modificação nos processamentos pelas indústrias. Antigamente a gente dizia que dois biscoitos recheados já continham os dois gramas de gordura trans. Hoje, não podemos afirmar isso em razão de toda a modificação que está sendo feita pela indústria no uso da gordura hidrogenada sem gordura trans, que é um processamento diferenciado. O que eu tenho que fazer é olhar o rótulo do produto, os ingredientes, além da informação nutricional.

A gente observa que está aumentando a incidência de colesterol também entre jovens e adolescentes. Isto tem a ver com o consumo da gordura trans?
Sim. Há alguns estudos que indicam que tanto as crianças quanto os adolescentes não estão comendo frutas, legumes, verduras, arroz, feijão, carne, o que seria o prato normal do brasileiro. As pessoas estão fugindo disso e consumindo muitos produtos processados, fast food, em razão da praticidade. Eles estão desde pequenos consumindo gordura e outras substâncias que não são boas ao organismo. E isso se reflete em a gente ter crianças e jovens obesos. A incidência da obesidade está aumentando muito no Brasil. As pessoas pensam na obesidade como estética, mas não nas consequências que a obesidade traz para a saúde.

O rótulo é o melhor caminho para informar a população a respeito disso?
Ele não pode ser o único. Tem alguns termos, como a gordura trans, difíceis do consumidor entender. Mas eu acredito que se a população prestar um pouco mais de atenção, se informar um pouco mais a respeito, haverá um progresso. Ninguém precisa fazer um curso superior para saber o que é uma gordura trans, mesmo porque isso está sendo ensinado na escola. O professor de química ensina isso desde a quinta série. Então, as crianças já têm alguma noção. O que acredito que falta é que as pessoas não se preocupam porque não sentem o efeito imediato desse consumo.

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