A obesidade já é considerada uma epidemia mundial. Estima-se que 40% da população esteja acima do peso. E para reverter este quadro, surgem os mais variados tipos de dietas em sites, livros, revistas e na televisão.

A nutricionista Clísia Mara Carreira não acredita que as dietas padronizadas resolvam os problemas de obesidade. Segundo ela, a solução depende mais de mudanças de atitudes das pessoas do que fórmulas milagrosas. Entre as mudanças, ela cita maiores cuidados na hora da compra de alimentos nos supermercados.

Clísia afirma que a doença deve ser tratada caso a caso, e que estão sendo realizados alguns estudos que vão revolucionar o tratamento da obesidade com o mapeamento genético do indíviduo. Só que esta alternativa deve demorar alguns anos para chegar à população.

FOLHA - Como você avalia a questão da obesidade atualmente?
Clísia - A obesidade é um problema gravíssimo de saúde pública no mundo inteiro e também no Brasil. O aumento da incidência da obesidade vem com o processo de industrialização. Ela acontece com a mulher entrando para o mercado de trabalho, deixando sua casa, seus filhos; acontece com as famílias saindo da zona rural e vindo para a zona urbana, onde se tornam mais sedentárias e se alimentam com produtos industrializados. O processo coincide com este período de urbanização e o processo de refinamento dos produtos.

As compras do dia a dia nos supermercados interferem no aumento de peso?
Interferem e muito. As pessoas não conhecem os alimentos, não têm o hábito de ler os rótulos, não sabem o valor calórico daquilo que estão comprando. Elas não conseguem identificar a quantidade de sal ou de gordura trans naquele produto e, muito menos, se há presença de fibras. Há uma grande desinformação dos consumidores em relação aos alimentos. Eles são atraídos pelas embalagens, pelos preços, pela propaganda na mídia e não pelo seu real valor nutricional. E, além disso, a gente também percebe que as pessoas têm o hábito de ir ao supermercado na hora que estão com fome. Isso é um grave erro porque você acaba levando para casa muito mais do que realmente precisa ingerir.

Hoje em dia fala-se muito em dietas. Mas por que as dietas, de maneira geral, não funcionam?
Porque, na verdade, não existe uma reeducação alimentar sem uma mudança de comportamento. É isso que nós estamos frisando muito hoje em dia. As dietas de revistas, sites e livros que não funcionam porque, em primeiro lugar, não é individual, ela é coletiva; segundo, porque eu não tenho nenhuma motivação, o papel não interage comigo, e terceiro, porque eu não consigo mudar o meu comportamento. Eu continuo consumindo alimentos de forma errada, quantidade errada, em horários errados. A dieta é um dos meios de se conseguir uma importante redução do peso, mas ela sozinha, realmente, não funciona.

Depende mais da mudança de atitude?
Com certeza. A pessoa tem que querer, sentir a necessidade dessa mudança, desistir de hábitos inadequados, tem que mudar a sua compra no supermercado, mudar a forma de cozinhar, tem que se mexer mais que o normal. Ela precisa gostar frutas, verduras e legumes, o que geralmente é difícil; parar de ingerir bebidas alcoólicas junto com frituras nesses happy hours. É uma mudança de atitude, o que não acontece da noite para o dia. As dietas que prometem milagres em um mês ou dois meses não funcionam mesmo.

Comer pouco e bem é a melhor forma para a pessoa se manter saudável?
É uma regra muito importante. As pessoas precisam saber selecionar os alimentos adequados, saudáveis, comer várias vezes ao dia e em pequenas quantidades. Se nos alimentarmos de três em três horas, de forma correta, nós temos um excelente resultado na redução e manutenção desse peso, porque a pessoa muda de hábito, a forma de comer, de preparar e de escolher o alimento a ser ingerido. Quanto mais vezes ao dia e em menor quantidade, muito melhor será o resultado.

É difícil a pessoa se reeducar para novos hábitos de consumo?
É difícil, mas não é impossível. Nós temos resultados fantásticos na luta contra a obesidade com acompanhamento nutricional adequado, com muita boa vontade. O acompanhamento psicológico muitas vezes é necessário também. Há pessoas que reduziram 30 ou 40 quilos sem precisar de cirurgia ou medicação porque realmente mudaram a forma de pensar, o comportamento.

Por que o consumidor tem dificuldade em identificar os alimentos saudáveis?
De maneira geral, a população tem dificuldade sim. Por isso, a gente fala muito de frutas, verduras e legumes porque todo mundo tem acesso e é mais fácil. Uma ingestação diária de pelo menos três frutas diferentes ou a mesma, saladas duas vezes ao dia; não tem problema que seja alface, tomate e laranja, mas tem que ter isso presente diariamente. Não precisa comprar a feira inteira, mas duas frutas para passar a semana e ingerir todos os dias. Em relação às carnes, é só pedir uma carne magra, sem aquela capa branca ou amarelada de gordura.

A dieta para funcionar precisa ser uma coisa individualizada, então?
Com certeza. A nutrição é individualizada. Cada organismo responde de forma diferente a cada alimento, a cada nutriente. Hoje em dia já existem dietas que são feitas especificamente com o DNA de cada pessoa. Você identifca o DNA daquela pessoa e observa quais alimentos são compatíveis com os seus genes, com as suas enzimas e quais não são compatíveis. É muito específico. Essa é a nutrição do futuro, não essa história de dieta padronizada, de gaveta, de sites, de revistas. Isso é coisa do passado.

Não funcionam mesmo?
Não funcionam, ficaram no século passado. No século 21, a nutrição é totalmente individualizada, e mesmo assim, ao longo do nosso acompanhamento, nós modificamos a dieta várias vezes, porque cada organismo responde de forma diferente.


Crianças também precisam de orientação

A quê se deve o aumento da obesidade também entre as crianças?
  A obesidade infantil é um reflexo do processo da correria do dia a dia. Com as mulheres saindo para o mercado de trabalho, as crianças ficam mais livres para as guloseimas, comer fora de hora porque não tem ninguém fiscalizando. As mães preparam alimentos industrializados, congelados, prontos e que trazem uma quantidade de gordura maior que o alimento preparado naturalmente. E hoje, as crianças, infelizmente, não brincam mais. A gente não vê crianças brincando na rua, andando de bicicleta, subindo em árvores, comendo frutas. Elas ficam restritas a seu quarto na frente do computador ou do videogame, comendo aquilo que elas mais gostam, que são produtos industrializados; elas não sentem o gosto da comida, porque elas tem uma distração visual na sua frente. E isso contribuiu muito para a obesidade infantil.
Ou seja, falta orientação para a criança?
  As crianças estão cada vez mais com menor quantidade de orientação. A gente percebe que as escolas, atualmente, se preocupam com a questão da obesidade. Ela tenta adequar a alimentação da criança na escola, evita que as crianças levem guloseimas para dentro da escola, tenta melhorar a qualidade do lanche oferecido. Mas a escola sozinha não consegue promover essas mudanças de hábitos nas crianças se não envolver a família. E como em casa ela não tem ninguém que a ensine e corrija, conseqüentemente esses hábitos ficam cada vez mais agregados às crianças. (E.A.)

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