É comum a pessoa sair de casa para comprar apenas dois ou três itens para suprir uma necessidade de momento e voltar com outros produtos que nem havia pensado. Esta atitude pode caracterizar falta de planejamento e comprometer não apenas o orçamento do mês como ser uma linha tênue entre estar no ''azul'' ou no ''vermelho''.

O consultor de finanças Charles Vezozzo traça um paralelo entre compras e planejamento financeiro. E explica que assim como a pessoa pode fazer uma poupança razoável usando o conceito de ''grão em grão a galinha enche o papo'', também pode ficar endividada gastando de ''pouquinho em pouquinho''.

Qual é o perfil do brasileiro em relação a consumo?
Nós temos pesquisas que dizem que apenas 18% da população no Brasil tem o hábito de poupar e quatro em cada cinco brasileiros não conseguem chegar até o final do mês com o seu salário. Temos ainda a cultura da falta de planejamento pessoal em finanças, isso é um problema porque a palavra chave, nesse caso, é visualização. Quando eu não visualizo quanto eu ganho e quanto eu gasto, dificilmente eu vou tomar uma decisão acertada de assumir uma parcela ou uma compra dentro da conjuntura financeira em que eu estou.

Como a pessoa deve se organizar em relação às finanças?
O primeiro aspecto é conhecer bem o próprio temperamento para saber reagir diante de situações, saber como lidar com dinheiro, e o segundo saber quanto ganha. Se a pessoa é solteira, colocar no papel, levantar uma média de rendimento. Se é casada, sentar com a esposa e com os filhos, colocar no papel qual o rendimento da família. Depois disso, adotar uma planilha de fácil entendimento. A planilha deve ter basicamente renda, entradas menos as saídas assumidas dentro da realidade de cada um. E, então, você vê o saldo que vai sobrar. Algumas pessoas têm medo de saber como estão as suas finanças pessoais, colocar no papel e ver que está negativo. Mas é exatemente neste ponto que tem que ver o que fazer.

Quais são as prioridades para se elaborar este planejamento?
Eu divido as prioridades em A, B e C. As prioridades são aquelas imprescindíveis para a vida do ser humano: moradia, saúde, alimentação, educação - que há alguns anos entrava no grupo B, mas hoje sem estudo o sujeito não faz nada. No grupo B está a manutenção de carro, poupança e prioridades secundárias. Cada família tem uma realidade. E no grupo C, colocamos o convívio social, investimentos domésticos, viagens etc. O grupo A tem que exercer uma prioridade, inclusive em termos de planejamento. Se queremos um planejamento financeiro para realizar alguns sonhos que temos na vida, é preciso chegar nesse nível de detalhe. Não dá para atingir metas na vida sem fazer planos financeiros.

A própria disposição das mercadorias nos supermercados induzem as pessoas a comprar mais. Esse pode ser um fator de desequilibrio?
O marketing hoje identifica vários perfis de homens e mulheres por faixa etária, faixas sócio-econômicas, e está sendo desenvolvido de tal maneira que tem uma mensagem implícita, subliminar, direta, direcionada para o público alvo. O marketing faz o seu papel, mas cabe a cada um não ceder a essas pressões consumistas da sociedade. Quem tem perfil consumista precisa se cuidar neste sentido. Esse tipo de postura, de compra por impulso, tem o mesmo mecanismo de um vício. A compulsão precisa ser tratada.

E como o consumidor pode planejar suas compras?
Antes de comprar, você deve perguntar: eu preciso comprar esse item? Isso já dá uma freada. Segundo, porquê comprar? E terceiro, eu posso? É a teoria dos três pês: se preciso, porquê e se posso? Isso ajuda a fazer a compra de forma inteligente. E tem ainda a questão da pesquisa. Hoje é fundamental pesquisar preços. Nós entramos em uma roda viva na sociedade de consumir, consumir e consumir e as pessoas às vezes compram sem saber porque compram. E, então, começa um ciclo vicioso, perigoso, começa a se endividar, entra em cheque especial, e a renda não dá para pagar tudo aquilo que se assume.

Mas as pessoas são, de certa forma, pressionadas ao consumo...
Há outros princípios básicos de planejamento das finanças que devem ser observados. Um é resistir ao consumo e aos padrões impostos pela sociedade. Tem muita gente fazendo financiamento de carro zero para viajar para a praia sendo que não pode pagar. A pessoa deve dar o passo do tamanho da perna ou menos, gastar menos do que ganha para não arrumar complicação. Outro princípio importante é evitar hobby que sacrifique seu orçamento familiar. E por último, fugir de cartão de crédito ou cheque especial. Isso é uma tentação.

E como a pessoa pode se educar para saber quando comprar a prazo e quando não comprar?
A primeira coisa que a gente sugere é avaliar se a futura parcela cabe no seu orçamento. O comércio faz parcelas pequenas porque sabe que o consumidor não tem o valor à vista. O segundo passo é avaliar o juro que você vai pagar, porque em alguns casos pode dobrar ou até triplicar o valor. E é preciso cuidar das promoções em cinco ou seis vezes, porque na verdade o juro está embutido.

Algumas lojas anunciam apenas o valor da prestação e não o número de parcelas. Este procedimento é correto?
Eu sempre digo: ninguém é forçado a comprar nada, ninguém é forçado a pegar empréstimo bancário, nem assumir nenhum compromisso. Então, cabe a quem está assumindo fazer a conta antes, tirar todas as dúvidas e sempre responder se essa parcela cabe no meu orçamento.

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