SUAS COMPRAS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Eli Araujo<br>Reportagem local 
Em um mundo marcado pela falta de tempo e que supervaloriza a imagem, a leitura de bulas de remédios é algo que se torna cada vez menos atraente. Por isso, as bulas com o formato atual estão com os dias contados. Mas enquanto as mudanças não aparecem, os consumidores reclamam das letras pequenas, da linguagem técnica e do excesso de informação.
A juíza de direito Adriana Fernandes diz que a linguagem da bula não é compreensível para a maioria dos cidadãos. As informações ali contidas podem ser claras para o médico e o farmacêutico, para aquele que conhece, mas o leigo tem dificuldade em compreender. Ela questiona também o tamanho das letras e o conteúdo. As letras são muito pequenas e há um grande volume de informação: é reação, é indicação, é contra-indicação.
A juíza diz que não tem conhecimento de nenhum processo relacionado à bula, mas acredita que as dificuldades citadas ferem o Código de Defesa do Consumidor. As informações devem ser legíveis, com letras grandes. Do jeito que está hoje, a bula pode ser comparada ao contrato de banco com letras minúsculas, porque é uma informação que está sendo passada ao consumidor e que não está clara.
O publicitário Fernando Fernandes afirma que se interessa pela leitura das bulas sempre que compra algum remédio, principalmente sem prescrição médica, mas aponta dois problemas. O primeiro é relacionado ao tamanho das letras. Meu Deus do céu, é terrível. Até com óculos tenho dificuldade de enxergar. Outro problema citado por ele é o volume de informações. Há um grande exagero e a gente fica completamente perdido com as bulas. E ainda tem a linguagem que é muito técnica e a gente acaba não sabendo o que é.
Fernandes é de opinião que a linguagem publicitária - fácil, clara e direta - deveria ser adotada nas bulas, mesmo que em parte. Isso deveria ser popularizado, mostrando para que serve, quais são os ingredientes do remédio. Isso é fundamental. Acho que dessa forma voce consegue popularizar a leitura da bula.
Mas, por incrível que pareça, não são todos os consumidores que criticam as bulas. A estudante universitária Ana Buck, por exemplo, não concorda que as bulas sejam extensas, as letras pequenas e o conteúdo difícil. Quanto aos remédios que eu tomo, não se justifica essa afirmativa não. A bula não é tão grande assim. E acho que o volume de informação é o necessário, não apenas para o médico e o farmacêutico, mas também para nós. A estudante lamentou um pouco da linguagem técnica que dificulta a leitura, mas nem isto ela mudaria. Acho que o conteúdo também não precisa ser mudado.
Mesmo concordando com o formato atual, a estudante diz que lê apenas o que acha interessante nas bulas. O médico faz a prescrição e eu normalmente leio a parte que poderia ter algum efeito colateral, mas inteira eu nunca leio. E acho, na verdade, que esta é uma atitude errada minha.
País tem 60 mil medicamentos
O professor de Farmacologia da Unopar, José Antonio Zarate Elias, reconhece que há excesso de medicamentos no Brasil. Ele explica que segundo os últimos dados da Anvisa - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, há 60 mil registros de medicamentos no País, e que as farmácias, normalmente, trabalham com cerca de 20 mil apresentações diferentes.
O que acontece com freqüência, de acordo com o professor, é que o mesmo medicamento pode ter cinco ou seis variações diferentes. Muitas vezes, a pessoa compra uma Novalgina e uma Dipirona, mas na verdade está comprando a mesma coisa: uma pelo nome comercial e outra pelo princípio ativo.
Elias afirma que a Farmacologia estuda, inclusive, os preços dos medicamentos. E segundo ele, o preço não pode ser comparado com eficiência. O consumidor não deve colocar o preço em primeiro lugar. Nem sempre o medicamento mais caro gera um tratamento mais caro, e nem sempre o medicamento mais barato vem com o melhor atendimento e serviço. Às vezes, o barato sai caro.
Outro detalhe que segundo o professor não garante a eficiência é o fato do medicamento ser novo ou antigo no mercado. Nota-se que o medicamento inovador deveria ser o melhor, mas nem sempre é. (E.A.)
Linguagem será mais simples e acessível
O consumidor pode ficar tranqüilo: as bulas que acompanham os remédios terão, a partir de agora, uma linguagem simples e acessível. A exigência está em uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As bulas com todas as informações, como as existentes hoje, serão destinadas apenas para os profissionais da área de saúde.
O professor de Farmacologia da Unopar, José Antonio Zarate Elias diz como será a bula mais simples para o consumidor. Será menos extensa, mais didática, com letras maiores, numa linguagem mais tranqüila, sem tanta informação técnica; provavelmente não será aquela bula toda dobradinha, e ainda pode ser ilustrada para estimular a leitura.
De acordo com o professor, este é um proceso que será mudado lentamente, à medida que os registros dos medicamentos forem renovados na Anvisa, provavelmentem até 2009.
Elias afirma que as mudanças são necessárias. Ele concorda que as bulas atuais são extensas, que a linguagem é complicada e as letras muito pequenas. A bula é extensa porque a lei exige que tudo que se conhece sobre o medicamento deve estar na bula; a linguagem é técnica para economizar espaço e as letras são miúdas para caber o máximo de informação possível no mínimo de espaço.
O professor sabe que o brasileiro não gosta de ler bulas, mas aponta outro motivo para isso. A maioria acha que as bulas têm informações em excesso, e tem mesmo. Porém, a linguagem atual das bulas é complicada para o leigo, mas adequada para quem é do ramo.(E.A.)


