Você entra em uma loja e de imediato recebe a informação de que seu limite de crédito dobrou; você caminha pelo centro e os agentes de financeiras te abordam oferecendo dinheiro; você vai ao caixa eletrônico e descobre que tem um empréstimo disponível a seu dispor: basta apertar a tecla ‘‘contratar’’ e negócio fechado. O excesso de crédito está em toda parte e de uma forma jamais vista na história recente da economia brasileira. Até para os mais controlados fica difícil resistir à tanta oferta. E para os menos controlados resta pedir: ‘‘Não nos deixeis cair em tentação’’.
  A técnica em gestão pública Eliane Andrade diz que o excesso de crédito incentiva o consumismo. ‘‘Eu acho que as pessoas acabam abusando. É difícil você controlar porque você vê o crédito, quer gastar, quer comprar, e as pessoas não pensam se elas vão conseguir pagar ou não’’. Na opinião dela, o resultado é mais do que previsto: ‘‘Isto acaba virando uma bola de neve e a pessoa empresta em um lugar para pagar outra dívida’’.
  Eliane admite que já teve problemas de crédito. ‘‘Só compro o que posso pagar na hora e levo a vida com mais tranqüilidade. Para mim, o excesso de crédito é prejudicial’’.
  O técnico em eletrônica Roberto Ferreira sabe, por experiência própria, que o crédito em demasia gera descontrole. ‘‘Eu, por exemplo, tenho o cartão de crédito mas não faço uso dele. Se eu usar, perco o controle do que já usei e do que ainda não usei. E quando não uso, sei o que está acontecendo, sei o que posso e o que não posso’’. Ferreira diz que ‘‘o excesso de crédito é uma tentação’’ para incentivar o consumo. ‘‘A gente vê essas lojas oferecendo crédito de todas as formas para a pessoa ir lá e comprar. A impressão que fica é que está tudo barato’’.
  A fisioterapeuta Ildeli Varea Mancore já não vê tanto problemas com o excesso de crédito, desde que o consumidor tenha noção de limites. ‘‘Se você é uma pessoa que tem o controle sobre aquilo que ganha e o que gasta, e se você vai comprar apenas o que precisa e de acordo com o que pode, é uma boa. Agora, para quem não tem controle, é uma péssima idéia; a pessoa estará sempre devendo’’, disse. ‘‘A gente vive em um mundo de consumo: o que eles querem é vender e você compra se você quiser’’.

Situação preocupa, diz economista
  O economista Renato Pianowski de Moraes não vê o excesso de crédito com otimismo. ‘‘Não vejo com bons olhos porque essa é uma demonstração de que a economia não está indo muito bem’’. Segundo ele, ‘‘a oferta excessiva de crédito, em um primeiro momento, estimula o consumo; mas o que se verifica depois é que o trabalhador compromete toda sua renda’’.
  Moraes afirma que ‘‘o negócio de financiar as pessoas está indo tão bem que se tornou uma indústria’’. Mas alerta para outro detalhe que considera preocupante: ‘‘Estimula quem não tem condições de consumo’’. A principal conseqüência apontada por ele é o risco de endividamento. ‘‘Pode chegar uma hora que isto vira uma bola de neve: o trabalhador deixa de pagar suas contas e não compra mais o que precisa’’.
  De acordo com o economista, este panorama pode causar o ‘‘estrangulamento’’ da economia porque, embora as lojas fixem um limite de crédito para os clientes, as pessoas tem a liberdade de comprar em quantas lojas quiserem. ‘‘A hora que o negócio pipocar, a coisa ficará feia’’, afirma Moraes. (E.A.)

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