Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas concluiu que o brasileiro gasta mais com cigarros do que com arroz e feijão. Segundo a pesquisa, a despesa com o tabagismo compromete 1,25% do orçamento familiar contra 0,85% para os dois produtos. A FOLHA fez uma comparação um pouco diferente, tomando por base a despesa de uma pessoa com todo kit da cesta básica e com o gasto individual com cigarros. A última pesquisa da cesta básica realizada em Londrina mostrou que cada pessoa gasta R$ 153,69 por mês com os 13 itens da cesta básica. E o fumante gasta, em média, R$ 100,00 por mês. Ou seja, dois terços do valor da cesta básica.
O gerente de manutenção Álvaro César Parietti é fumante há 30 anos. Ele diz que não tem uma marca preferida, que fuma 20 cigarros por dia, em média, e gasta em torno de R$ 100,00 por mês com o vício. Parietti já comparou os seus gastos com cigarros e com alimentos. ''Acho que é um absurdo; é mais ou menos 30% de minha compra mensal. Se fosse só o arroz, daria para comprar um bom tanto''. E vai mais longe: ''Acho que compraria um carro zero e bom se tivesse guardado esse dinheiro''.
Parietti parou de fumar por dois anos, mas voltou quando estava em uma festa. ''Com a recaída, voltei fumando o dobro''. Atualmente, ele nem pensa em parar de fumar.
O motorista Pedro Teodoro de Almeida também reconhece que é dependente do cigarro. Ele foi fazer compras em um supermercado mas precisou fumar um cigarro antes de entrar. Almeida começou quando estava com 13 anos, fuma há 45 anos e nunca comparou o que gasta com cigarros e com alimentos. ''Gasto muito com cigarro, pelo menos R$ 100,00 por mês. Acho que isto representa uma boa parte da cesta básica ou daria até para pagar a prestação de uma moto pequena''.
Almeida disse que nunca tentou parar de fumar. ''Sou uma pessoa bastante ansiosa e não iria conseguir. Mas se tivesse um medicamento ou uma ajuda psicológica, eu largaria sim''. Ele admite esta possibilidade depois que percebeu que o fumante é cada vez mais discriminado. ''A gente não tem mais espaço hoje'', afirma.
E depois de 15 anos fumando uma carteira de cigarros por dia, a manicure Rosiane Biguetti de Souza resolveu abandonar o vício por conta própria. ''Parei tanto pelos gastos quanto por uma questão de saúde e não tenho a menor vontade de voltar a fumar''. Ela gastava em torno de R$ 90,00 por mês, em média, e esta despesa pesou na decisão. ''Vi o quanto gastava com o vício. Às vezes, a gente deixava de comer alguma coisa para comprar o cigarro''. Hoje, ela faz as contas para ver o que estava deixando de comprar. ''R$ 90,00 é o suficiente para comprar 15 pacotes de arroz em promoção''.
Rosiane parou de fumar há três semanas e já se tornou avessa ao tabagismo. ''O fumante fica com um cheiro horrível na mão, na boca, no cabelo. E é só depois que a gente pára que a gente percebe isso''.

Empresas fazem restrições a fumantes
O próprio consultor Charles Vezozzo ficou surpreso com os cálculos de quanto as pessoas poderiam economizar caso aplicassem na poupança o que gastam com cigarros. Segundo ele, os fumantes não levam isto muito em conta porque um maço de cigarros custa relativamente pouco, em torno de R$ 2,50 a R$ 3,00.
Para ele, o que falta é a cultura de poupança. ''Se a pessoa guardasse aquele valor (mais ou menos R$ 100,00) todo mês, ela iria perceber a diferença; ela pode fazer fortuna. É mais fácil guardar pequenas somas, de pouco em pouco, por mais tempo do que muito de uma só vez''.
Vezozzo trabalha também com seleção e recrutamento de pessoal. E segundo ele, há empresas que são extremamente rigorosas e fazem questão de não contratar fumantes. Um dos motivos, é que o tabagismo, além dos problemas de saúde, interfere na produtividade. O consultor faz uma conta simples: se a pessoa fuma um maço de cigarros por dia e gasta cinco minutos para fumar cada cigarro, ela passará uma hora e 40 minutos por dia fumando.(E.A.)

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