Quando se fala em globalização, uma das primeiras coisas que se pensa é em um mundo sem fronteiras e com padrões de comportamento relativamente idênticos. Mas na prática, não é bem assim. Você já pensou, por exemplo, o que o Brasil e a Alemanha tem de diferente em termos de consumo? Quem responde a esta pergunta é o músico londrinense Marco Antonio de Almeida, que mora há 30 anos
na Alemanha, mas divide seu tempo entre o Brasil e a Europa.
Músico de renome internacional, Almeida é professor de piano na Universidade de Hamburgo e faz concertos em vários países do mundo. E como qualquer cidadão comum, tem as suas preferências pessoais. Ele não gosta de acordar cedo, prefere fazer suas refeições na própria universidade ou em restaurantes, gosta de um bom vinho e, talvez por falta de tempo, tem aversão a supermercado. ''Eu não vou a supermercado de jeito nenhum. Aquelas fileiras de produtos, os preços, tudo isso me dá tontura. Só vou em último caso mesmo''.
Isto não significa, porém, que Almeida deixa de comprar o que precisa para casa ou que não seja um consumidor exigente. ''Na Alemanha faço minhas compras pela internet. É muito fácil: você se cadastra em alguns supermercados e boas lojas de alimentos. Então, quando falta alguma coisa, vou no computador à noite e no dia seguinte o pessoal entrega''. Além disso, ele tem uma ''secretária'' que trabalha dois dias por semana em sua casa. ''Se precisar de algumas coisinhas básicas, ela compra''.
O que deixa Marco Antonio de Almeida perplexo é a diferença do padrão de consumo entre alemães e brasileiros. ''Em matéria de alimentos, o consumo na Alemanha é bem comedido. Lá, a dona de casa entra na seção de frios para comprar três fatias de salame e quatro ou cinco de outro produto, e aqui ela compra o salame inteiro''.
Segundo ele, isto não acontece apenas por um fator de ordem cultural, mas principalmente por uma questão de preços. ''É também um problema econômico. Para você ter uma idéia, quando venho para o Brasil eu só como filé mignon. Sabe porquê? O quilo do filé na Europa custa 50 euros, ou seja, quase R$ 150,00. Aqui, a minha irmã compra o filé no mercado por 15 ou 18 reais''.
É por estas e outras razões que o músico admite estar no paraíso quando se hospeda no apartamento de sua irmã, às margens do Lago Igapó. ''É uma das paisagens mais lindas de Londrina. No Brasil, temos quase que uma eterna primavera. E a minha irmã é muito organizada com quem vai cozinhar, limpar a casa. Então, você levanta e encontra o suco de laranja pronto, o mamãozinho cortado te esperando na mesa, o jornal do dia. Essa mordomia que eu tenho em Londrina eu não tenho na Alemanha. É um paraíso''.

Desde pequeno entre a música e a medicina
  O músico Marco Antonio de Almeida nasceu em uma casa que ainda existe na Rua Mato Grosso, no centro de Londrina. Filho de pioneiros, seu pai foi o primeiro delegado da cidade e um dos fundadores da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil).
  Desde pequeno se interessou por piano, mas se formou na segunda turma de Medicina na Universidade Estadual de Londrina (UEL). ‘‘Foi a Medicina que não me deixou sair da música porque eu tocava em todo congresso médico’’.
  Na época de estudante, Almeida participou de vários concursos internacionais, sendo vencedor de um realizado em Portugal há 30 anos, quando ganhou uma bolsa para estudar na Alemanha. Depois de cinco anos naquele País, fez exame e foi aprovado como professor de piano na Universidade de Hamburgo.
  Mesmo há tanto tempo fora, Almeida sempre encontra um tempo para participar da organização do Festival de Música de Londrina. ‘‘A cidade tem um cheiro típico, é arrogante no bom sentido. Londrina tem uma vida cultural intensa e isso me anima muito’’.
  Ele cumpre o calendário acadêmico na Universidade de Hamburgo que vai de outubro a fevereiro e de abril a julho. Entre julho e setembro participa do Festival de Música e ainda faz concertos em vários países.
  Almeida também já teve uma experiência no cinema. Certa vez, uma produção japonesa precisava de um ator desconhecido que fosse parecido com o músico austríaco Franz Schubert. A indicação de seu nome foi condicionada ao reconhecimento dele pelo diretor do filme em uma circunstância atípica. ‘‘Você pega um avião e vai até Munique. Se o diretor do filme te reconhecer como Schubert em seu desembarque, você passou no teste’’, disse a ‘‘caça-talentos’’.
  Almeida não apenas foi reconhecido de imediato, como ganhou um bom cachê e disse ter sido uma experiência ‘‘muito divertida’’. (E.A)

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