Todo equipamento eletrônico ou qualquer outro produto industrializado que exige algum tipo de manuseio vem acompanhado de um manual de instruções. Mas o que acontece, geralmente, é que os consumidores se limitam a conferir se o manual acompanha ou não a compra e depois guardam o livreto em uma gaveta ou deixam junto com a embalagem. Ler o manual é exigir demais para a maioria das pessoas. Agora, entender o seu conteúdo é uma tarefa para poucos.
  A auxiliar administrativa Daniele Afonso diz que dá ‘‘apenas uma olhada’’ e deixa o manual guardado na embalagem da própria mercadoria junto com a garantia do produto. ‘‘Não costumo ler porque a gente perde muito tempo. Tem muita coisa desnecessária e, na maioria das vezes, você já sabe do que se trata’’.
  Daniele considera que a linguagem dos manuais ‘‘é muito técnica’’, o que não estimula a leitura. ‘‘Acho que é muito complicada e justamente por isso não perco tempo lendo porque tem muita coisa que a gente não entende’’. Ela diz que encontra dificuldade até mesmo quando o manual é ilustrado com fotos ou outras imagens.
  O professor Fernando Oliveira tem o hábito de guardar os manuais de todo equipamento eletroeletrônico que compra. Ele afirma que ainda tem em casa o manual e a nota fiscal de um aparelho de TV que comprou há 12 anos. Oliveira procura se prevenir porque no caso do produto apresentar algum problema, ele já sabe a quem recorrer. Apesar do cuidado, o professor acha que é difícil entender o conteúdo dos manuais. ‘‘A linguagem é bem complicada. Às vezes, eles usam termos técnicos que nem todo mundo conhece’’.
  Na opinião do professor, os fabricantes deveriam se preocupar em produzir os manuais de instrução com uma ‘‘linguagem mais simples’’. Oliveira afirma que já consultou o manual para resolver um problema que apareceu em sua geladeira. Mas encontrou ‘‘muita dificuldade’’ para entender o manual de um aparelho de som.
  O engenheiro civil Alexandre Farias já não encontra tanta dificuldade em entender os manuais. Ele se atem apenas ao ‘‘guia rápido’’ que acompanha alguns manuais. ‘‘Não costumo ler o manual completo porque é muito extenso e normalmente a gente só usa as funções básicas’’. Ao contrário de outros consumidores, Farias afirma que a linguagem dos manuais ‘‘é simples’’ e tem facilidade com os termos técnicos.
  Mesmo assim, o que ele faz questão de valorizar é a troca de experiência com outras pessoas. ‘‘Os produtos que a gente usa são os mesmos que nossos amigos e familiares também usam. Então, a gente conversa com um, conversa com outro. A consulta neste sentido é mais interessante que o próprio manual’’.

Professora defende linguagem coloquial
a  A professora Lilia Paula Simione Rodrigues, do curso de Desenho Industrial da Unopar, fez uma dissertação sobre manuais de instruções em sua tese de mestrado. Segundo ela, de maneira geral, os manuais apresentam uma série de problemas de conteúdo. ‘‘Os fabricantes não sabem qual é o repertório cultural ou as dicifuldades dos usuários quando elaboram um manual’’.
  Lilia concorda com a maioria dos consumidores que reclamam da linguagem exageramente técnica usada nos manuais. ‘‘O conteúdo da informação não expressa o que a pessoa precisa saber’’. Segundo ela, ‘‘até as representações visuais (fotos, ilustrações ou gráficos) são ambíguas’’.
  A professora cita ainda que a própria globalização interfere no conteúdo dos manuais. Como os fabricantes são grandes empresas que atuam em vários países, eles partem de um padrão internacional que não obedece às peculiaridades regionais. ‘‘O mesmo manual, às vezes, vem traduzido em seis ou sete idiomas; são muitas línguas em um só documento, sem considerar as diferenças das expressões idiomáticas de cada lugar’’.
  Ela defende que os manuais tenham uma linguagem mais simples para se tornarem atrativos e de fácil entendimento. ‘‘Não é só uma questão de tradução, mas de adequação ao coloquial. Quando você usa a linguagem coloquial, a compreensão dos manuais é muito maior’’.(E.A.)

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