Se o mercado editorial brasileiro fosse comparado ao futebol, seria possível afirmar que a produção nacional está perdendo de goleada para ''a seleção do resto do mundo''. Algumas livrarias da cidade admitem que o domínio das publicações de autores internacionais fica em torno de 70%. Mas esta proporção parece aumentar ainda mais quando os consumidores são ouvidos sobre o assunto.
O adolescente Guilherme Luizão Marques, de 14 anos, é estudante do primeiro ano do ensino médio e um apaixonado por leitura, mas não necessariamente pelo tipo de livro que a escola sugere. ''A escola só indica livros infantis ou de poesia e não gosto disso''. Ele gosta mesmo é de livros internacionais publicados em série e estava em uma livraria procurando um novo exemplar de ''Imperador''.
O estudante diz que em sua casa há uma biblioteca familiar com ''mais de 500 títulos'', sendo que cerca de 20 exemplares foram comprados por ele mesmo. E desses, quantos são de autores nacionais? ''Nenhum'', respondeu com convicção. Guilherme diz que leu Machado de Assis há alguns anos, ''mas não fez a minha cabeça''. Segundo ele, há bons autores nacionais, mas acha que falta incentivo e divulgação.
O estudante universitário Gabriel Marques Campaner estava com a mãe dele, dona Rosimeire, em uma livraria. Ela diz que sempre pegou ''carona'' com os filhos na leitura quando eles estavam no ensino médio ou se preparando para o vestibular. Dona Rosimeire acredita que ''os autores brasileiros são muito cultos'' e gosta, de modo especial, de Guimarães Rosa. Quanto aos autores brasileiros da atualidade, ela diz que não conhece nenhum, ''mas acho que são bons''. Gabriel, por sua vez, diz que só leu obras nacionais quando estava no ensino médio e hoje lê apenas autores estrangeiros. Ao ser indagado entre cada dez livros que leu recentemente quantos eram de autores internacionais, ele sorriu e respondeu: ''dez''.
A encarregada de escritório Elaine Pimenta é estudante de Administração e diz que atualmente tem lido apenas livros relacionados ao curso, sendo quase todos de origem internacional. ''O autor estrangeiro coloca a experiência no papel de forma que te leva a crescer, a absorver maior conhecimento, e não encontro exatamente o que procuro nos livros nacionais''. Elaine diz que leu autores nacionais somente a pedido de professoras quando estava no ensino médio e garante que nunca pegou espontaneamente uma obra de Machado de Assis ou Monteiro Lobato. ''Não, porque não acho interessante''.

Gerente acredita em mudança de interesse
  O gerente de livraria Leandro Cavichiolo confirma que ‘‘a proporção de vendas fica em torno de 70% para os autores estrangeiros e 30% para os autores nacionais’’. Mas ele acredita na mudança deste placar. ‘‘Há possibilidade sim. Hoje as pessoas estão lendo mais, estão buscando mais qualificação e, então, neste sentido, a gente tem que mudar e melhorar’’.
  Cavichilolo explica porque é tão grande a diferença de comercialização entre as obras nacionais e as de origem estrangeira. ‘‘Começa pelo incentivo que se tem lá fora e pela cultura dos países da Europa e Estados Unidos. Os europeus lêem bem mais que os brasileiros’’.
  Ele reconhece que os brasileiros lêem os autores nacionais ‘‘por obrigação’’ (da escola) e ‘‘espontaneamente’’ os autores internacionais, mas admite que que o fato destas obras estarem sempre entre as mais vendidas exerce muita influência junto aos leitores.
  Mesmo assim, ele garante que o mercado brasileiro está em expansão. ‘‘A gente percebe que o índice de leitura está aumentando entre os brasileiros, que os autores nacionais estão lançando mais livros e que está havendo maior incentivo’’. Segundo ele, o mercado editorial brasileiro tem revelado bons autores, principalmente na área infantil. (E.A)

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