O vinho é uma bebida quase sempre relacionada a status ou requinte. E de olho em um público potencial, os supermercados estão criando verdadeiras adegas com a reserva de espaços exclusivos tanto para o vinho nacional quanto importado. As gôndolas são organizadas de maneira estratégica para chamar a atenção dos consumidores, que se sentem estimulados a comprar.
  A bancária Elza Batista Cardoso é apaixonada por vinho e não escolhe época para saborear o produto. ‘‘Tomo vinho o ano todo, não só no inverno não’’. Ela estava em um supermercado escolhendo cuidadosamente duas garrafas de vinho tinto seco. ‘‘Acho mais saboroso e combina com quase todos os alimentos’’. A bancária leva em conta a marca, a safra e também o preço na hora da compra. ‘‘Todos os supermercados estão com promoção de vinho. Nunca vi os preços tão bons’’, afirma. Ela pagou R$ 25,00 pelas duas garrafas.
  Elza tem uma ligeira preferência pelos vinhos argentinos e chilenos, mas reconhece que existem várias marcas nacionais de boa qualidade, principalmente da Serra Gaúcha.
  O advogado Celso Luiz Tenório não escolhe a procedência do vinho. ‘‘Se tomar e gostar do sabor, levo. Para mim não importa se é nacional ou importado’’. O que ele gosta mesmo é de encontrar vinho bom e barato. ‘‘Normalmente vou atrás das promoções. Essa ‘briga’ entre os mercados é saudável para nós consumidores; é excelente’’.
  Tenório diz que toma vinho em sua casa durante as refeições e até em churrascos. Ele aprecia um tipo especial para beber com os amigos ‘‘porque é tranqüilo e não sobe muito’’. O advogado considera um ‘mito’ o conceito de que os vinhos importados são melhores que os nacionais. ‘‘Não é pelo fato de serem importados que são bons. Hoje, um vinho brasileiro não deixa nada a desejar aos vinhos europeus que até então eram os melhores, os mais cobiçados’’.
  O casal Marco Antonio Maximiano e Luciene estava com a filha Ana Clara, de seis anos, fazendo compras em um supermercado. O comerciante diz que toma vinho apenas no inverno e escolhe um tipo que ‘‘não é muito forte para não dar dor de cabeça no dia seguinte’’. Ele explica que o gosto pelo vinho está em sua origem italiana, mas ressalva que é difícil encontrar um produto que atenda ao seu paladar.
  Maximiano considera positiva a divulgação que os supermercados fazem do produto atualmente. ‘‘Antes, a variedade era pequena, mas agora dá para escolher melhor os tipos de vinhos’’. Na opinião dele, ‘‘um cálice de vinho por dia aumenta a expectativa de vida’’.
  Luciene, por sua vez, toma o vinho em qualquer época do ano. ‘‘É uma bebida suave, que relaxa. É para a gente tomar no dia-a-dia e também nos momentos especiais’’. Ela não tem preferência se o vinho é nacional ou importado. ‘‘O que importa é que o vinho seja gostoso, agradável e tenha bom preço’’.

‘Bebida não previne doenças cardíacas’
  A legião de defensores do vinho costuma afirmar que o produto traz uma série de benefícios para a saúde, entre eles a prevenção de doenças cardíacas. Mas para o cardiologista Evander Botura, a história não é bem assim. Ele discorda completamente deste conceito, tendo por base um documento oficial da associação norte-americana de cardiologia, que é taxativa: ‘‘Não se recomenda vinho para prevenir doenças do coração’’.
  O médico cita ainda que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, inclusive o vinho, podem aumentar a pressão arterial e diminuir a força de contração do coração. Isto sem falar no aumento no risco de obesidade, derrame cerebral, câncer de mama, cirrose e outras doenças hepáticas.
  Botura reconhece que o vinho tem vantagens, desde que tomado de forma moderada, ou seja uma quantia máxima de 240 ml por dia. O médico também condena a atitude de algumas pessoas que usam meios de comunicação de massa para destacar as ‘‘vantagens’’ do vinho. ‘‘O alcoolismo é um problema sério entre adultos e adolescentes, e falar para a população que o vinho protege o coração é até irresponsável, eu diria’’.
  Segundo ele, a recomendação sobre os benefícios do vinho só pode ser passada de forma isolada, caso a caso, e com muito critério. ‘‘A recomendação é diferente no consultório quando você conhece o paciente. Outra coisa que deve ser observada é o histórico familiar de alcoolismo. Os pacientes de filhos alcoólatras têm o risco quatro vezes maior de se tornar um alcoólatra no futuro’’.
  O cardiologista também acha preocupante a vinculação do consumo de vinho à condição de pessoas bem-sucedidas. ‘‘A imagem do vinho associada a celebridades é muito perigosa, em minha opinião. Nós devemos separar as coisas: uma coisa é você tomar vinho entre pessoas sadias, pessoas que entendem do assunto, a outra é você falar em uma TV para toda a população’’. (E.A.)

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