Rio de Janeiro - O consumidor sofreu um duro impacto com os problemas de oferta reduzida de leite no mercado interno este ano. Levantamento exclusivo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a pedido da Agência Estado, mostra que o preço do leite tipo longa vida subiu 29,13% no primeiro semestre deste ano no varejo, o maior nível de elevação para esse período desde o Plano Real, em 1994. O cenário do leite acabou puxando para cima os preços de todos os produtos da cadeia de laticínios, que acumulam alta de 15,04% nos primeiros meses deste ano - também a mais intensa elevação em 13 anos.
O economista da FGV, André Braz, explicou que o leite tipo longa vida é o de maior peso entre os derivados componentes da cadeia de laticínios. ''Qualquer flutuação no preço do leite (longa vida) a cadeia de laticínios sente na hora'', disse.
Ele lembrou que esse cenário é reflexo da movimentação de preços do leite in natura do atacado, que já está com o preço em disparada há algum tempo. Dados do último Índice Geral de Preços -10 (IGP-10) de julho, divulgados na quarta-feira pela FGV, mostram que o leite in natura continua em aceleração, com alta de 8,42%, ante aumento de 7,15% em junho.
Outro ponto destacado pelo economista é a cadeia longa de produtos relacionada ao leite. Ele considerou que a movimentação de alta do produto é sentida por vários outros itens no setor de alimentação, puxando para cima a inflação dos alimentos. De junho para julho, a alta de preços do grupo Alimentação, no âmbito do IGP-10 mais que dobrou (de 0,49% para 1,05%) - sendo que um dos destaques na pesquisa foi o leite tipo longa vida, com alta de 15,79%, ante elevação de 10,03% no indicador de junho.
Segundo o levantamento da FGV, é possível notar que vários itens derivados do leite atingiram, no primeiro semestre deste ano, o mais intenso grau de elevação em muitos anos. É o caso do leite condensado, cuja alta de preços foi de 8,97% nos primeiros seis meses do ano - só superada pela alta de preços no mesmo período em 1995, quando subiu 14,88%.
Problemas - O presidente da Associação Brasileira do Leite Longa Vida (ABLV) - cujos associados produzem cerca de 5,2 bilhões de litros de leite, do total de 6 bilhões de litros produzidos no País em 2006 - e presidente da Cooperativa Vale do Rio Doce, Wellington Braga, observou que o setor passou por problemas de origem interna e externa este ano. Ele explicou que, atualmente o período é de entressafra na produção do leite, o que já reduz a oferta no mercado interno. ''Além disso, o consumo (interno) aumentou esse ano'', afirmou o executivo.
Outro ponto destacado por Braga foi o aumento das exportações brasileiras de itens lácteos, devido aos resultados ruins de grandes regiões produtoras, como Austrália e Nova Zelândia. Com isso, a demanda por leite também no exterior tornou-se maior do que a oferta - o que elevou a cotação do leite no mercado internacional, estimulando os fabricantes brasileiros a elevarem seu patamar de vendas externas. ''Não existe um fator isolado que explique (a elevação no preço do leite longa vida)'', afirmou.
Para ele, os preços podem até continuar a acelerar, mas não de forma tão intensa como a registrada até junho. Na avaliação do executivo, o que ocorreu esse ano foi uma ''recuperação de preços'', efetuada pelos produtores, que passaram por um período de preços baixos nos últimos dois anos. Ele não descartou a possibilidade de, quando ocorrer o término do período da entressafra, em setembro, os preços desse produto continuarem em patamar elevado, em comparação com os dois anos anteriores.
Isso não significa que o consumidor brasileiro terá que se acostumar com leite mais caro, na opinião de Braga. ''Antes, o preço do leite estava em nível irrisório. Agora, com essa elevação, ele vai ficar um preço justo'', complementou.


Consumidor leva susto

Caroline Vicentini
Reportagem Local

  Justo ou não, o consumidor se assustou com o aumento do produto nas gôndolas, mas como, para muitos, se trata de um produto básico não tem como cortá-lo ou substituí-lo nas compras. O estudante de Medicina Silvio Nascimento costumava aproveitar as promoções de leite de longa vida e chegou a comprar uma caixa por R$ 0,99. Agora, gasta cerca R$ 2,20 por litro. ‘‘Mesmo sentindo o aumento do bolso não deixei de consumir’’, relata.
  A professora Ieda Maria Baroni Oliveira diz já ter percebido que todo o inverno o leite e seus derivados sobem. ‘‘Somos em quatro adultos e continuamos consumindo um litro de leite diariamente. Também consumimos queijo normalmente’’, comenta.
  O casal Valdemir Fernandes Fagundes e Juliana dos Santos Norato também levou um susto com o preço do leite longa vida. ‘‘Comprávamos a caixa a R$ 1,60 e agora está
R$ 2,25.’’ Juliana gosta de tomar iogurtes e decidiu ficar um tempo sem comprá-los devido a alta.
  Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a produção de leite está em alta, quando comparada com igual período no ano passado. O dado mais recente do instituto, referente ao primeiro trimestre deste ano, mostra que a aquisição de leite nos primeiros três meses deste ano foi de 4,3 bilhões de litros, uma alta de 2% quando comparado com igual trimestre de 2006. (Com AE)

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